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Judiciário

Federal pede que desembargadores do TJMS sejam denunciados por corrupção

Venda de sentenças no Tribunal expõe rachaduras na cúpula do Judiciário estadual

Publicado em 25/04/2025 12:12 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em um país onde a Justiça deveria ser o pilar último da democracia, a revelação de um esquema sistemático de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) lança uma sombra densa sobre a credibilidade do sistema judicial. A Polícia Federal (PF) concluiu, após três anos de investigação, que há indícios consistentes da atuação de sete desembargadores e de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) em práticas que incluem corrupção, falsificação de documentos, extorsão e organização criminosa. O relatório foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e fundamenta a prorrogação das medidas cautelares impostas aos investigados.

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A operação Ultima Ratio, referência ao princípio jurídico que consagra o uso da Justiça como último recurso do Estado frente à criminalidade, revela uma lógica perversa: aqueles que deveriam ser os guardiões da legalidade agiam para torcê-la em benefício próprio.

De acordo com o documento sigiloso da PF, obtido por veículos como g1 e TV Globo, os magistrados foram divididos em dois grupos operacionais. O primeiro, integrado por Vladimir Abreu da Silva, Alexandre Aguiar Bastos, Sideni Soncini Pimentel e Júlio Roberto Siqueira Cardoso, atuava diretamente na manipulação de decisões em processos de inventário, favorecendo a alienação de uma fazenda por meios ilícitos. Já o segundo grupo, formado por Sérgio Fernandes Martins, Divoncir Schreiner Maran e Marcos José de Brito Rodrigues, agia com objetivos semelhantes, mas com autonomia e modus operandi próprio.

No centro das acusações está também o conselheiro do TCE, Osmar Domingues Jeronymo, acusado de falsificar assinaturas e coagir envolvidos em transações imobiliárias fraudulentas, em conluio com o advogado Felix Jayme Nunes da Cunha. Ambos são apontados como integrantes de uma organização criminosa estruturada para dar aparência de legalidade a operações de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito.

Dinheiro vivo, armas e silêncio

Durante as diligências realizadas em outubro de 2024, a PF apreendeu mais de R$ 3 milhões em espécie. Apenas em uma residência, havia R$ 2,7 milhões guardados sem qualquer justificativa plausível. Armas de fogo foram localizadas em endereços de dois desembargadores, um agravante que tensiona ainda mais o cenário de suspeição. Os fatos motivaram o ministro Cristiano Zanin, do STF, a prorrogar por mais 180 dias o afastamento dos investigados, como forma de preservar a lisura das investigações e impedir a destruição de provas.

Apesar da gravidade dos indícios, nenhum dos magistrados usa tornozeleira eletrônica.

Defesas e contradições

As defesas dos investigados adotaram posturas distintas. A de Sideni Pimentel afirmou que o desembargador “jamais recebeu vantagem indevida” e apresentou “extenso parecer técnico contábil” para justificar suas receitas. Já os advogados de Sérgio Fernandes Martins e Osmar Jeronymo optaram por se manifestar apenas nos autos do processo. Em nota, o defensor do conselheiro do TCE questionou a coerência das medidas judiciais, destacando que o afastamento envolve o TJMS, e não o TCE, sua instância funcional direta.

As demais defesas foram procuradas, mas até o fechamento desta reportagem não se manifestaram.

Corrupção sistêmica

O caso do TJMS é mais do que um escândalo local — é o retrato de uma crise estrutural que ameaça corroer os alicerces do Estado de Direito. Quando desembargadores, figuras no topo da hierarquia jurídica, se tornam protagonistas de práticas ilícitas, a percepção pública sobre a imparcialidade e a eficácia do Judiciário entra em colapso.

O jurista Luís Roberto Barroso, atual presidente do STF, afirmou certa vez: “A corrupção nos tribunais destrói não apenas a legalidade, mas a confiança social nas instituições”. O alerta de Barroso ganha ainda mais relevância diante dos recentes acontecimentos em Mato Grosso do Sul.

Historicamente, o Brasil enfrenta desafios crônicos no combate à corrupção institucionalizada. A CPI do Judiciário de 1999 e os escândalos envolvendo tribunais estaduais ao longo das últimas décadas ilustram um padrão de opacidade e corporativismo. Segundo dados do Relatório Justiça em Números 2023, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os tribunais estaduais concentram 77% das ações em curso no país, o que os torna alvos privilegiados para interesses escusos.

Venda de sentença para liberar fazenda de R$ 20 milhões

Uma fazenda de R$ 20 milhões virou o epicentro de um dos mais escandalosos episódios de corrupção já registrados no Judiciário brasileiro. De acordo com relatório da Polícia Federal  enviado ao STF, três desembargadores do TJMS e uma advogada – filha de um dos magistrados – atuaram de forma articulada entre 2021 e 2024 para liberar, mediante pagamento, a alienação do imóvel rural, então sob inventário judicial.

A advogada Renata Pimentel, filha do desembargador Sideni Soncini Pimentel, teria recebido R$ 920 mil pela intermediação da sentença proferida pelo próprio pai, segundo a investigação. O pagamento, conforme apontam análises de mensagens, documentos e extratos bancários, teria ocorrido um ano e sete meses antes da decisão judicial que autorizou a venda da propriedade – revelando não apenas um crime, mas sua meticulosa premeditação.

A investigação detalha que o processo de inventário da fazenda passou por três momentos cruciais: em 2021 e 2023, a alienação do imóvel foi negada por juízes substitutos que atuavam na ausência de Sideni, então vice-presidente do TJMS. Em maio de 2024, contudo, o próprio desembargador deu o parecer favorável à venda, contrariando os indeferimentos anteriores.

Segundo a PF, o intervalo de tempo entre o pagamento à advogada e a decisão favorável “confirma o caráter criminoso da negociação”. A operação também identificou a participação dos desembargadores Vladimir Abreu da Silva e Júlio Roberto Siqueira Cardoso (aposentado), reforçando o conluio dentro da corte estadual.

Caminhonete de luxo como moeda de repasse

Em mensagens extraídas do telefone de Renata Pimentel, os investigadores descobriram detalhes ainda mais reveladores: a compra de uma caminhonete de R$ 217 mil em nome do desembargador Sideni. A PF afirma que a transação foi uma “forma indireta de repassar o dinheiro que obtém com a venda de decisões dele”.

Há troca de mensagens entre a advogada, o vendedor do veículo e funcionários de uma instituição financeira. Um carnê de financiamento foi emitido e vinculado ao nome do desembargador. Ao buscar ajuda de um contador para justificar o pagamento, Renata cogitou declarar o valor como honorários, mas foi orientada a alegar “empréstimo do sócio para a empresa”.

O relatório é taxativo: os R$ 920 mil recebidos por Renata são, “com elevado grau de certeza”, oriundos de venda de decisão judicial.

O que dizem os acusados

A defesa da advogada alega que “todas as operações financeiras estão dentro do exercício legal da advocacia e demais atividades empresariais”, e afirma que os dados estão sendo submetidos a perícia fiscal e financeira. Já o desembargador Sideni, por meio do criminalista Pierpaolo Bottini, reforça que “jamais recebeu qualquer vantagem indevida” e que suas decisões foram “fundamentadas e legais”. Um parecer técnico contábil teria sido entregue para justificar suas receitas.

O fato de Renata ser filha do magistrado e ter intermediado valores vultosos em nome dele é, por si só, um sinal de conflito ético e jurídico, típico de esquemas de corrupção institucionalizados.

Democracia ferida: entre a toga e a transgressão

A denúncia vai além do escândalo episódico. Ela lança luz sobre um modelo de privilégio e impunidade que contamina as altas esferas do Judiciário brasileiro, alimentado por redes de poder e silêncio institucional. O filósofo Norberto Bobbio, em sua obra Teoria da Norma Jurídica, já advertia que “a legalidade perde seu sentido quando o próprio aplicador da norma se coloca acima dela”.

O Judiciário, cujos membros gozam de foro privilegiado, salários acima do teto constitucional e autonomia funcional, também precisa se submeter ao escrutínio público e à responsabilização. A democracia se sustenta na separação de Poderes, mas naufraga quando um deles se fecha ao controle social.

Mais do que afastamentos cautelares, o caso exige investigação célere, julgamento exemplar e reforma estrutural. Como declarou Rosa Weber, ex-presidente do STF, em 2023: “A confiança do povo no Poder Judiciário é o bem mais precioso que um juiz pode preservar”.

Quando esse bem é corrompido, a própria noção de Justiça se desfaz — e, com ela, os alicerces da democracia.

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