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Especial
Número de sindicalizados no Brasil para de cair e chega a 9,1 milhões
Publicado em 21/11/2025 2:20 - Semana On
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O número de trabalhadores sindicalizados no Brasil interrompeu uma trajetória de mais de dez anos de queda e ganhou 812 mil pessoas em 2024. Dessa forma, o percentual de sindicalizados chega a 8,9% dos 101,3 milhões de trabalhadores ocupados.
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Com o acréscimo, o país registrou 9,1 milhão de pessoas associadas a sindicatos de trabalhadores em 2024, avanço de 9,8% em relação a 2023, quando eram 8,3 milhões. Mas o contingente ainda está bem abaixo dos 14,4 milhões de 2012 – recuo de 36,8% em 12 anos.
A constatação está em edição especial da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada na quarta-feira (19) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A pesquisa traz dados anuais desde 2012, com exceção de 2020 e 2021, por causa da pandemia de covid-19, que inviabilizou a coleta de dados. Em 2012, os sindicalizados representavam 16,1% dos ocupados.
Trajetória da proporção de sindicalizados:
2012: 16,1%
2013: 16,0%
2014: 15,7%
2015: 15,7%
2016: 14,8%
2017: 14,2%
2018: 12,4%
2019: 11,0%
2022: 9,2%
2023: 8,4%
2024: 8,9%
Efeito reforma trabalhista
Ao comentar a trajetória de queda até 2023, o analista da pesquisa, William Kratochwill, nota a relação entre o ano de 2017, quando começou a ficar mais acentuada a queda no número de sindicalizados e a reforma trabalhista, aprovada naquele ano.
“Os dados mostram uma correlação forte entre a implantação da lei e a queda do percentual de pessoas sindicalizadas”, aponta.
Uma das mudanças provocadas pela reforma foi o fim da contribuição sindical obrigatória.
Sobre o aumento de 2023 para 2024, Kratochwill acredita em uma recuperação da percepção dos trabalhadores sobre o papel dos sindicatos.
“O número de sindicalizados chegou a um valor muito baixo e, talvez, as pessoas estejam começando a verificar novamente a necessidade de se organizar, lutar pelos direitos dos trabalhadores, e isso se dá muito por meio do sindicato”, afirma.
Mais velhos
Ao detalhar o saldo positivo de 812 mil sindicalizados entre filiações e desfiliações de 2024, o IBGE percebe que, de cada dez trabalhadores que se sindicalizaram, oito estavam na faixa etária a partir de 30 anos.
No grupo de 40 a 49 anos de idade estão 32% dos trabalhadores que se filiaram no ano passado.
“Talvez seja uma recuperação daquelas pessoas que um dia já tenham sido sindicalizadas e retornaram”, sugere Kratochwill.
Já o grupo de 14 a 19 anos representa apenas 0,7% do saldo de 812 mil sindicalizados. Outro dado que mostra menor presença dos jovens nos sindicatos é que, enquanto a taxa nacional é de 8,9% dos trabalhadores ligados aos sindicatos, na faixa de 14 a 19 anos é de 1,6%. No grupo de 20 a 29 anos, de 5,1%.
“Não há ainda uma grande renovação dos quadros de associação a sindicato”, destaca o analista.
Setores
O IBGE divide os trabalhadores em dez grupamentos de atividade e constatou que, de cada dez sindicalizados, três (30,9%) atuam no grupamento administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais.
Em seguida, figuram os grupamentos indústria (16,4% dos sindicalizados) e informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas (13,3%).
Observando categoria a categoria, a pesquisa mostra que o grupamento administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais é o que tem maior parcela de sindicalizados (15,5%).
Confira a taxa de associação por grupamento:
– Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais: 15,5%
– Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura: 14,8%
– Indústria geral: 11,4%
– Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas: 9,6%
– Transporte, armazenagem e correio: 8,3%
– Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas: 5,6%
– Alojamento e alimentação: 4,2%
– Construção: 3,6%
– Outros serviços: 3,4%
– Serviços domésticos: 2,6%
O pesquisador do IBGE lembra que o setor público sempre teve maior participação na sindicalização. Dessa forma, ele acredita que “quem entra para o setor público acaba tendo uma tendência maior [de se sindicalizar]”, diz.
Escolaridade
A Pnad mostra que entre os trabalhadores com nível superior completo, a taxa chega a 14,2%, acima do patamar do país como um todo (8,9%).
Entre os ocupados que têm ensino médio completo e superior incompleto, a taxa é 7,7%. Entre os com fundamental completo e médio incompleto, 5,7%.
“O esclarecimento que se dá por meio do nível de instrução pode favorecer movimentos no sindicalismo”, avalia Kratochwill.
Tipo de contrato
Os dados mostram que empregados no setor público têm taxa de sindicalização de 18,9% ─ mais que o dobro da média nacional. Em seguida aparecem os empregados com carteira assinada (11,2%). No grupo dos trabalhadores por conta própria, apenas 5,1% são filiados. Entre os sem carteira de trabalho assinada, a taxa é de 3,8%.
“Além de não ter todos os seus benefícios sociais, a segurança social, o trabalhador informal ainda carece de um meio de luta pelas melhorias do mercado de trabalho”, constata Kratochwill.
Homens e mulheres
O IBGE aponta que, desde 2012, tem diminuído a diferença entre homens e mulheres no universo sindical.
Em 2012, eles eram 61,3% do total e elas, 38,7%. Doze anos depois, a relação é de 57,6% homens e 42,4% mulheres.
Observando pela taxa de associação, em 2012 a parcela de homens sindicalizados era 16,9%. A de mulheres, 14,9%. Ambas perderam força até 2024, quando a dos homens ficou em 9,1% e a das mulheres em 8,7%.
Isso representa que a diferença entre os dois sexos passou de 2 pontos percentuais para 0,4. Em 2022, a participação entre elas (9,3%) chegou a superar a deles (9,1%).
De acordo com William Kratochwill, no intervalo de 12 anos, as mulheres “largaram” menos a sindicalização e, agora, estão acompanhando o aumento no número de associados.
Cooperativismo
O levantamento revela que o país vivencia trajetória de queda no número de empregadores ou trabalhadores por conta própria associados a cooperativas, organização econômica e social em que as pessoas podem se agrupar de forma voluntária e buscar negócios mais democráticos e participativos.
Em 2012 eram 1,5 milhão de pessoas, o que representava 6,3% dos trabalhadores ocupados. Em 2024 esse contingente somava 1,3 milhão (4,3% dos trabalhadores), o menor já registrado na série histórica.
Apenas um em cada quatro trabalhadores por conta própria tem CNPJ
De cada quatro trabalhadores por conta própria no país, apenas um tinha registro no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) em 2024, ou seja, formalização da atividade. Eram 6,6 milhões de pessoas em um universo de 25,5 milhões de trabalhadores por conta própria.
Os 25,5 milhões de conta própria no país em 2024 representavam 25,2% dos 101,3 milhões de trabalhadores no Brasil em 2024. Em 2012 eles eram 22,4%.
O registro no CNPJ pode representar vantagens ao trabalhador como emitir notas fiscais, acessar crédito e serviços bancários empresariais, contratar funcionários formais, além de benefícios previdenciários.
Ramos de negócio
O IBGE classifica os trabalhadores por conta própria em cinco grupamentos de atividade. Entre os segmentos, é possível perceber desigualdades. O comércio é o grupo com maior parcela de registrados.
Proporção de conta própria com registro no CNPJ por ramo de atividade:
– Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas: 33,2%
– Serviços: 31,5%
– Indústria geral: 23,4%
– Construção: 15,2%
– Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura: 7,2%
O analista da pesquisa William Kratochwill acredita que o baixo percentual de conta própria com CNPJ tem a ver com o tamanho do negócio.
“Como o empreendimento que eles têm ainda é pequeno, não veem essa necessidade, ainda não foram demandados a ter uma formalização da sua atividade”, avalia.
Em alguns casos, acrescenta, a pessoa considera que não vale a pena: “A formalização pode acabar incorrendo em tributos e coisas com as quais ela não está preparada”.
Escolaridade
Os dados mostram que quanto maior a escolaridade, maior adesão dos conta própria ao registro no CNPJ:
– Sem instrução e fundamental incompleto: 11,2%
– Fundamental completo e médio incompleto: 17,6%
– Médio completo e superior incompleto: 27,9%
– Superior completo: 48,4%
“A baixa escolaridade, às vezes, limita a pessoa em relação ao conhecimento de como fazer [para se formalizar]”, diz o pesquisador do IBGE.
A pesquisa mostra ainda que, enquanto na população ocupada como um todo o nível de sindicalização é de 8,9%, entre os conta própria fica em 5,1%.
STF exclui julgamento sobre ‘uberização’ da pauta
O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, excluiu do calendário da Corte o julgamento que trata sobre a chamada “uberização”. O início estava previsto para o dia 3 de dezembro e ainda não foi marcada uma nova data.
A discussão é sobre a existência de vínculo empregatício de motoristas de aplicativo com as plataformas. O julgamento, que tem repercussão geral, deve definir as balizas para a análise de todos os casos que tratam sobre a temática na Justiça.
A Corte vai discutir o tema por meio de um recurso da Uber contra decisão da Justiça do Trabalho que entendeu que a relação de um motorista com a plataforma cumpria os requisitos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), reconhecendo o vínculo de emprego e determinando o pagamento de encargos trabalhistas.
A empresa responde a cerca de 21 mil processos sobre o tema na Justiça do Trabalho.
Proporção de quem estava em home office recua em 2024 e chega a 7,9%
Por dois anos seguidos, caiu a proporção de pessoas que trabalhavam em casa, o chamado home office. Em 2024, eram quase 6,6 milhões de pessoas que realizavam as atividades profissionais onde moravam. Em 2022, esse número superava 6,7 milhões.
Em termos de proporção, a redução foi de 8,4% para 7,9% dos trabalhadores. O ponto de inflexão foi em 2023, quando 6,61 milhões estavam trabalhando em casa (8,2% do total).
A constatação representa uma inversão na tendência crescente que tinha sido acentuada pela pandemia de covid-19.
As proporções apontadas pelo IBGE se referem ao universo de 82,9 milhões de trabalhadores em 2024. Por critério do instituto, esse conjunto exclui empregados no setor público e trabalho doméstico.
Efeito pandemia
Segundo o analista da pesquisa, William Kratochwill, a classificação trabalho no domicílio de residência vale também para pessoas adeptas do coworking (escritórios compartilhados).
“As pessoas falam: ‘eu trabalho de casa’, mas não necessariamente ela vai trabalhar em casa, ela pode escolher ir a um coworking”, pondera.
O levantamento mostra que as mulheres eram a maioria em home office. Elas somavam 61,6% dos trabalhadores nessa condição.
Observando o total de trabalhadores por sexo, 13% das mulheres estavam em home office. Entre os homens, a parcela era de 4,9%.
O pesquisador do IBGE afirma que o trabalho no domicílio de residência “claramente deu uma arrancada depois da pandemia”.
Em 2012, a parcela das pessoas nessa condição era de 3,6%. Em 2019, figurava em 5,8%, alcançando o ponto mais alto em 2022 (8,4%), antes de regredir nos dois últimos anos.
“Mas ainda está em um nível superior ao que tínhamos antes do período pandêmico e das novas tecnologias”, assegura Kratochwill.
Insatisfação
A diminuição do home office é um movimento que tem causado insatisfação em algumas empresas. No começo deste mês, o Nubank, um dos maiores bancos do país, anunciou regressão gradual no trabalho de casa.
A insatisfação terminou com a demissão de 12 funcionários, de acordo com o Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região.
Em março, funcionários da Petrobras fizeram uma paralisação contra a diminuição do teletrabalho, entre outros motivos.
Veja a parcela de pessoas de acordo com o local de trabalho:
– estabelecimento do próprio empreendimento: 59,4%
– local designado pelo empregador, patrão ou freguês: 14,2%
– fazenda, sítio, granja, chácara etc.: 8,6%
– domicílio de residência: 7,9%
– veículo automotor: 4,9%
– via ou área pública: 2,2%
– estabelecimento de outro empreendimento: 1,6%
– domicílio do empregador, patrão, sócio ou freguês: 0,9%
– outro local: 0,2%
Um detalhe é que os trabalhadores que realizam atividade no veículo automotor passaram de 3,7% em 2012 para 4,9% em 2024. Para Kratochwill, esse cenário reflete o surgimento de serviços de aplicativo como Uber e 99.
“Com certeza há um impacto do transporte de passageiros”, diz. “Mas não se pode desconsiderar essa nova onda de food truck (venda de comida em veículos). Cada um, um pouquinho favorece para isso”, acrescenta.
Na categoria trabalho no veículo, as mulheres são apenas 5,4% do total de trabalhadores.
De todos os homens do universo da pesquisa, 7,5% trabalham no veículo. Entre as mulheres a parcela é de 0,7%.
Salário e custo de vida: o retrato persistente de uma desigualdade estrutural
A disparidade entre o que se ganha e o que se gasta no Brasil não é um fenômeno recente, tampouco se restringe a indicadores frios. Trata-se de uma realidade profundamente enraizada na formação do mercado de trabalho urbano, marcada por conflitos históricos, estratégias de sobrevivência e uma constante luta por condições mínimas de existência. O salário, no país, nunca foi apenas um dado econômico. É, antes de tudo, uma experiência vivida – e muitas vezes sofrida – por milhões de brasileiros.
Desde o século XIX, trabalhadores urbanos expressam preocupações com o custo de vida e a insuficiência de seus rendimentos, como mostram estudos históricos (Gomes, 2005). As greves do início do século XX não apenas reivindicavam aumentos salariais, mas também exigiam que os rendimentos cobríssem as despesas básicas das famílias. A própria noção de “necessidades básicas” – alimentação, moradia, saúde, vestuário e educação – foi construída ao longo dessas mobilizações.
A criação do salário mínimo, oficializada em 1940, foi fruto direto dessas lutas. Sua regulamentação, inspirada no Decreto-Lei 399 de 1938, estabelecia como referência uma cesta básica que atendesse às principais demandas de subsistência. Ainda assim, a realidade frequentemente descolou-se da promessa legal.
Durante o processo de industrialização (1930–1980), o custo da alimentação continuou a consumir parcela significativa da renda familiar, evidenciando a centralidade desse item no orçamento operário (French, 2001). A ditadura militar agravou a defasagem: o arrocho salarial minou o poder de compra dos trabalhadores, e a inflação corroía o valor dos salários. As greves do ABC paulista, no fim da década de 1970, denunciaram essa desconexão entre índices oficiais e a realidade cotidiana dos trabalhadores.
Com a redemocratização e a Constituição de 1988, avanços formais foram conquistados, como a garantia de um salário mínimo capaz de atender às necessidades básicas. No entanto, o texto constitucional nem sempre se traduziu em práticas efetivas. A alternância entre políticas de valorização e de retração do salário mínimo nos anos seguintes manteve a renda das famílias trabalhadoras vulnerável à instabilidade econômica.
Nos anos 2000, políticas de valorização real do salário mínimo, aumento do emprego formal e programas de transferência de renda impulsionaram uma melhora relativa da renda dos mais pobres (Pochmann, 2012). Ainda assim, o crescimento do endividamento familiar indicava que o aumento dos rendimentos não acompanhava o crescimento das despesas essenciais, como moradia e saúde.
O cenário atual é igualmente complexo. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese, 2024) mostram que a distância entre o salário mínimo legal e o salário mínimo necessário – calculado com base no custo de uma cesta que atende quatro pessoas – segue significativa. Alimentação, moradia, transporte, saúde, educação, vestuário, lazer e previdência compõem essa conta básica, que permanece acima da renda efetiva da maioria.
A economista Lena Lavinas (2017) destaca que a financeirização da economia contribuiu para o aumento do endividamento das famílias, que passaram a dedicar parte crescente da renda ao pagamento de dívidas. Segundo levantamento da FGV, muitos trabalhadores já identificam o endividamento como uma das suas principais despesas, indicando uma armadilha que compromete o presente e tolhe o futuro.
Análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea, 2023) apontam que, mesmo com crescimento da massa salarial, a precariedade e a alta rotatividade dos vínculos de trabalho dificultam qualquer planejamento financeiro consistente. A insegurança é parte integrante da vida laboral, mesmo entre os que dizem conseguir pagar as contas essenciais.
Os dados orçamentários confirmam tendências históricas. Em 2024, 73,9% dos trabalhadores apontaram a alimentação como principal despesa familiar, segundo o Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit/Unicamp). A moradia aparece como a segunda maior preocupação, com 43,1% dos entrevistados citando aluguel ou financiamento entre os principais gastos. Já os serviços públicos – energia, água, saneamento – seguem consumindo parcela considerável da renda, refletindo a alta constante das tarifas, como mostra a análise de Ana Fonseca (2020).
Além disso, mais de 20% dos entrevistados listaram despesas médicas entre suas maiores preocupações, evidenciando a insuficiência da cobertura do SUS e dos planos privados. Mesmo trabalhadores formais, aponta a pesquisadora Marilane Teixeira (2022), arcam com gastos médicos elevados, o que impacta profundamente o orçamento familiar.
Apesar de 70,1% dos trabalhadores afirmarem que conseguem pagar suas contas essenciais, especialistas alertam para uma leitura cautelosa. Rosa Marques (2019) ressalta que o conceito de “contas essenciais” varia conforme a renda e que a privação de direitos culturais, de lazer e de segurança futura não pode ser ignorada. Os estudos do Ipea sobre pobreza multidimensional reforçam esse diagnóstico.
O que os dados escancaram é um padrão de vida limitado, sustentado por estratégias de contenção, renúncia e, muitas vezes, endividamento. A alimentação, despesa elementar, domina o orçamento. A moradia digna virou um custo elevado, o acesso a serviços essenciais tornou-se mercadoria, e a dívida se transformou em rotina.
A distância entre o salário mínimo real e o salário mínimo necessário, calculado pelo Dieese, é um indicador brutal da insuficiência da remuneração do trabalho no Brasil. Essa lacuna revela não apenas um desequilíbrio econômico, mas uma contradição entre os direitos constitucionais e a realidade concreta da maioria da população. Ela fere o pacto social e expõe a fragilidade de um sistema que ainda falha em garantir o básico.
O desafio brasileiro, portanto, vai além de ajustes técnicos em políticas salariais. Exige uma revisão profunda da estrutura econômica e social. Enquanto o trabalho não for suficiente para garantir dignidade plena, e não apenas sobrevivência, estaremos reproduzindo um modelo que perpetua desigualdades e frustra o desenvolvimento humano. A história das lutas trabalhistas no Brasil, cruzada com os dados recentes do Dieese, do Ipea e do Cesit, aponta um caminho claro: é preciso repensar a centralidade do trabalho na construção de um país justo, com menos retórica e mais compromisso com a dignidade.
E, então?
A retomada do sindicalismo no Brasil, ainda que tímida frente aos patamares históricos, sinaliza mais do que um simples repique estatístico: revela uma resposta social à precarização crônica das relações de trabalho e à insustentável distância entre salário e custo de vida.
O avanço da sindicalização, especialmente entre trabalhadores mais velhos e escolarizados, ocorre num contexto em que o trabalhador por conta própria permanece amplamente informal, o cooperativismo perde força e o home office retrocede sob pressão patronal. Essa confluência de tendências expõe um mercado de trabalho fragmentado, onde formas distintas de ocupação coexistem sob o mesmo desafio estrutural: a incapacidade de garantir uma vida digna por meio do trabalho.
A crescente desigualdade entre o salário real e o necessário, somada ao endividamento e à instabilidade dos vínculos laborais, reatualiza as pautas históricas do movimento operário.
O sindicato, nesse cenário, ressurge não como relíquia do passado, mas como ferramenta possível – e necessária – de reconstrução de um pacto social dilacerado. Afinal, sem organização coletiva, a promessa constitucional de dignidade no trabalho seguirá sendo um horizonte sempre adiado.
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