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Especial

TOC, TOC…

Veja como Bolsonaro colocou Presidência a serviço do crime, segundo mostra a PF

Publicado em 12/07/2024 3:12 - ICL Notícias, Ayam Fonseca, Karla Gamba, Igor Mello e Juliana Dal Piva (ICL Notícias), Leonardo Miazzo (CartaCapital), Folha de SP – Edição Semana On

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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Pouco tempo depois de o Brasil tomar conhecimento de novos detalhes escabrosos sobre o esquema em que o então presidente da República, Jair Bolsonaro, se apropriou indevidamente de joias que eram da União, os bastidores de outra ação marginal chocam o país.

Dessa vez, vieram à tona as minúcias do esquema criminoso de arapongagem clandestina que Bolsonaro e seus asseclas montaram dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Da forma mais despudorada possível, o presidente da República mobilizou servidores públicos para proteção de seus filhos — acusados de cometer crimes –, espionagem de adversários políticos, além da criação e disseminação de informações falsas contra todos aqueles considerados inimigos.

Estava em curso a implantação de um Estado policial nos moldes das ditaduras mais totalitárias. Políticos de oposição (e até mesmo os aliados que não gozavam de confiança), autoridades do Judiciário e até jornalistas eram acompanhados pelos arapongas do governo Bolsonaro, sob a coordenação do chefe da Abin hoje deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ).

Os detalhes sórdidos incluem comentários de que o ministro Alexandre de Moraes mereceria levar um tiro até a surpreendente decisão de Ramagem de gravar uma reunião em que ele, Bolsonaro e Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, discutiram formas de proteger Flávio Bolsonaro da Justiça e a sabotagem a servidores da Receita.

O áudio inacreditável tornou-se uma das provas mais importantes do esquema. Quatro participantes da trama foram presos ontem.

Os investigados devem responder pelos crimes de organização criminosa, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, interceptação clandestina de comunicações e invasão de dispositivo informático alheio.

Com a divulgação das provas da arapongagem e da apropriação de joias da União, o chefe da quadrilha que cometeu esses (e outros) delitos graves fica cada vez mais perto da punição.

Seu nome: Jair Messias Bolsonaro.

A julgar pelas provas robustas apresentadas pela PF, o homem que os eleitores escolheram para dirigir o país de 2018 a 2022 fez algo inédito em toda a história da República.

Bolsonaro colocou a Presidência a serviço do crime.

Sob ordem de Ramagem, ‘Abin paralela’ monitorou caso Marielle

O esquema de espionagem clandestino conhecido como “Abin paralela” — montado durante o governo Bolsonaro para espionar seus adversários e tentar obter vantagens políticas — monitorava de perto o andamento da investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco.

O monitoramento da investigação foi uma tentativa de antecipar eventuais referências que pudessem citar a família Bolsonaro.

Segundo a representação da Polícia Federal, Alexandre Ramagem ordenou que fosse feito um dossiê sobre o responsável pela investigação do homicídio da vereadora, o delegado da polícia civil do Rio de Janeiro, Daniel Freitas Da Rosa.

Sob ordens de Ramagem, no dia 14/09/2020, o policial federal e ex-segurança de Jair Bolsonaro, Marcelo Araújo Bormevet, passa os dados do delegado ao militar Giancarlo Gomes Rodrigues e pede para que ele monte o relatório.

Durante a investigação, a PF encontrou um resumo das denúncias relacionadas ao caso Marielle, no ano de 2019, além do currículo da promotora do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime), Simone Sibilo. Esses documentos eram impressos e levados diretamente às mãos dos integrantes do chamado “Núcleo-Político” da Abin paralela.

Abin paralela monitora caso Adélio Bispo

A investigação da Polícia Federal também achou provas de que a Abin paralela investigou Adélio Bispo, autor da facada contra Jair Bolsonaro, durante a campanha presidencial de 2018.

No dia 10/03/2022, Alexandre Ramagem deu a Bormevet a tarefa de reunir as informações disponíveis a respeito do caso Adélio, missão que logo foi passada à Diretoria de Inteligência Policial, que recebe de Bormevet o material relacionado a investigação.

A investigação utilizou o sistema First Mile — software espião que monitora a localização de pessoas –, durante o período do dia 13/04/2020 até 27/04/2020, em que foram registradas coordenadas na cidade de Juíz de Fora, em Minas Gerais.

A PF ainda não identificou uma motivação para a investigação paralela do caso de Adélio Bispo, mas segue com as investigações.

Homens de confiança de Ramagem disseram que Alexandre de Moraes ‘merecia tiro’

A operação Última Milha desvendou também que a ‘Abin paralela’ foi usada para monitorar e atacar o ministro Alexandre de Moraes. O documento mostra prints de conversas onde sugerem que Moraes merece um “tiro na cabeça”. Além disso, a organização clandestina tentou associar o Ministro ao delegado de polícia civil, Oswaldo Nico Gonçalves.

A investigação revelou que a ‘Abin paralela’, usou dos recursos da Abin para atacar autoridades do poder judiciário e legislativo, entre eles o ministro Alexandre de Moraes. Segundo o documento da PF, o policial federal e ex-segurança de Bolsonaro, Marcelo Araújo Bormevet, e o militar Giancarlo Gomes Rodrigues, tentaram vincular o nome de Moraes ao de Oswaldo Nico Gonçalves, delegado da polícia civil de São Paulo investigado por corrupção.

O dossiê falso de Moraes foi encontrado pela PF num HD cujo nome era “Alexandre x Nico.docx”, que datava 18/06/2020. No dossiê foram encontrados fotos do ministro, numa tentativa de associá-lo ao policial. No dia 20/08/2020, Giancarlo encaminha outros relatórios relacionados a Moraes para Bormevet.

Segundo consta na representação da PF, a tentativa de associação entre os dois foi com o objetivo de difundir desinformação e atingir diretamente a credibilidade do STF.

No documento da polícia, contam conversas em que os investigados se queixam da atuação de Moraes no caso das investigações contra as fake news. Na troca de mensagens, impeachment e até mesmo um “tiro na cabeça” do ministro são insinuados por Bormevet e Giancarlo.

“Não bastassem as ações clandestinas direcionadas para atacar o Exmo. Ministro Relator em razão de suas funções em atentado ao livre exercício do poder judiciário, foram identificadas outras referências ao Exmo. Ministro ALEXANDRE DE MORAES com indicativo de violência, bem como ações relacionadas a tentativa de impeachment”, diz o relatório da PF.

Moraes foi monitorado após Bolsonaro ser incluído em inquérito das fake news

Uma das conversas mostra que o ministro Alexandre de Moraes foi monitorado em datas próximas ao período em que incluiu o ex-presidente Jair Bolsonaro como investigado no inquérito das fake news.

A inclusão de Bolsonaro no inquérito atendeu a um pedido dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após reiterados ataques do ex-presidente, sem provas, contra as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral.

‘Abin paralela’ agiu em favor de Flávio após cobrança de Bolsonaro a ministros

A Abin agiu clandestinamente para blindar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quatro meses depois de o presidente Jair Bolsonaro cobrar a ministros proteção a seus familiares durante reunião oficial de governo.

Em relatório tornado público ontem (11) pelo STF no bojo do inquérito da “Abin paralela”, a PF informou ter apreendido um áudio de 1 hora e 8 minutos. Ele retrata uma reunião realizada entre Jair Bolsonaro, Ramagem e o então ministro chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno. O áudio foi gravado e guardado por Ramagem, segundo a PF.

O encontro em 25 de agosto de 2020 serviu para que o presidente e os responsáveis pela inteligência do governo discutissem formas de auxiliar Flávio, que enfrentava uma investigação sobre o esquema de rachadinha em seu gabinete, que ficou conhecido como Caso Queiroz.

Para minar as investigações, ficou combinado que Ramagem colocaria seus subordinados para “achar podres” contra os auditores da Receita Federal responsáveis por elaborar o Relatório de Inteligência Financeira que deu origem ao escândalo. A PF afirma que a ação foi realmente feita e resultou em uma sindicância contra os servidores.

O encontro ocorreu quatro meses depois de Bolsonaro cobrar os canais de inteligência e prometer interferir em órgãos de segurança durante reunião ministerial realizada em 22 de abril de 2020.

Bolsonaro: ‘Não vou esperar f… minha família’

Na reunião ministerial, Bolsonaro cobrou aos berros os órgãos de inteligência do governo e afirmou ter uma estrutura informal de informações. Ele deixou claro que interferiria em órgãos de segurança para blindar sua família.

“Sistema de informações? O meu funciona. O meu particular funciona. Os outros que têm oficialmente desinformam. E voltando ao tema, prefiro não ter informação do que ser desinformado pelo sistema de informações que eu tenho”, bradou Bolsonaro. “Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui. Não vou esperar f… minha família toda de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final, não estamos aqui para brincadeira!”.

Bolsonaro acrescentou: “O serviço de informações nossos, todos são uma vergonha [sic]. Uma vergonha! Por que eu não sou informado. E não dá para trabalhar assim. Por isso, vou interferir e ponto final”,

Dois dias depois da reunião ministerial, Sérgio Moro, então ministro da Justiça, se demitiu, alegando que Bolsonaro tentava interferir na Polícia Federal. Bolsonaro então tentou nomear Alexandre Ramagem –hoje acusado de usar a estrutura da Abin a serviço de interesses pessoais do ex-presidente– como novo diretor da Polícia Federal. A nomeação foi vetada por decisão do STF.

Proposta de Ramagem foi executada

A estratégia proposta por Alexandre Ramagem no áudio foi executada e as ações acabaram se concretizando. Para a Polícia Federal, isso corrobora a existência de uma estrutura paralela dentro da Abin, que atuava em defesa dos interesses políticos dos envolvidos, sobretudo da família de Jair Bolsonaro.

De acordo com as investigações, o policial federal Marcelo Bormevet e o subtenente do Exército Giancarlo Gomes Rodrigues, ambos integrantes da Abin Paralela, fizeram diligências para “achar podres” contra os servidores da Receita Federal envolvidos na elaboração do relatório contra Flávio Bolsonaro.

A PF afirma que as informações colhidas clandestinamente pelos subordinados de Ramagem foi determinante para a abertura de uma sindicância contra os auditores fiscais.

Ramagem negou interferência em depoimento

Ouvido como testemunha no inquérito, Ramagem descartou qualquer possibilidade de Bormevet ter executado ações clandestinas para ajudar na defesa de Flávio Bolsonaro. Ele afirma que seu subordinado sofreu “imputação falsa”.

“Que tenho ciência de que o servidor Marcelo Bormevet não conhece pessoalmente nem tem contato com o Senador Flavio Bolsonaro, nem tampouco com as advogadas. Que não há possibilidade do servidor Marcelo Bormevet ter elaborado qualquer documento para o Senador Flavio Bolsonaro ou para as advogadas. Que inclusive as suas atribuições são relacionadas a coordenação de pesquisas para nomeações e em apoio à produção de conhecimentos para os setores da ABIN, quando demandado”, consta no termo de depoimento do ex-diretor da Abin.

Flávio diz que não tinha relação com Abin

Em uma postagem feita numa rede social na tarde de quinta (11), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que não possuía nenhuma relação com a Abin e que sua defesa atacava “questões processuais”:

“Simplesmente não existia nenhuma relação minha com Abin. Minha defesa atacava questões processuais, portanto, nenhuma utilidade que a Abin pudesse ter. A divulgação desse tipo de documento, às vésperas das eleições, apenas tem o objetivo de prejudicar a candidatura de Delgado Ramagem à prefeitura do Rio de Janeiro”.

Feitiço da Abin de Bolsonaro foi enfeitiçado por um autogrampo

No inquérito sobre a Abin paralela, Bolsonaro provou do próprio veneno. Chefe do engrenagem de bisbilhotagem clandestina, o delegado federal Alexandre Ramagem produziu algo muito parecido com um autogrampo. Gravou, em 25 de agosto de 2020, uma reunião palaciana de uma hora e oito minutos. Nela, a voz de Bolsonaro soa numa conversa vadia que resultou na elaboração de um plano para blindar o primogênito Flávio Bolsonaro no escândalo da rachadinha.

Apreendido pela Polícia Federal num computador de Ramagem, o áudio tóxico é primo-irmão do célebre vídeo que expôs a reunião ministerial realizada meses antes, em 22 de agosto de 2020. Nesse encontro, Bolsonaro declarou, em linguajar chulo, que não esperaria ninguém ferrar “minha família toda de sacanagem” para obter informações que, segundo suspeitava, a PF lhe sonegava. O inquérito sobre o aparato clandestino de espionagem mostra que o capitão falava sério.

O despacho em que o ministro do Supremo Alexandre de Moraes enviou novamente os rapazes da PF às ruas nesta quinta-feira expõe as franjas de um aparato criminoso montado para bisbilhotar inimigos, monitorar aliados e, sobretudo, blindar os filhos do capitão. Além de Flávio, foram socorridos em ações batizadas internamente de “clandestinas” Jair Renan e Carlos Bolsonaro. De resto, a investigação revela que a Abin funcionou como usina de mentiras para o gabinete do ódio bolsonarista.

O feitiço da Abin clandestina de Bolsonaro foi enfeitiçado pello autogrampo que Ramagem> O bolsonarismo está tiririca com o ex-chefe da Abin. Além de gravar, armazenou o áudio por quatro anos, à espera de que a PF o confiscasse.

A exemplo do que ocorre nos inquéritos sobre atestados falsos de vacina, desvio de joias e tentativa de golpe, Bolsonaro paira sobre o caso da espionagem ilegal como uma caricatura burlesca de si mesmo. O capitão e seus operadores parecem ter assumido a missão inconsciente de se desnudar, como quem desvenda os próprios crimes cometendo-os com desmazelo.

Senhor da perversão, Bolsonaro se enfurece por ter sido gravado

Bolsonaro não se conforma com o fato de ter sido gravado pelo chefe de sua máquina de arapongagem. Nas últimas horas, dispensou a Alexandre Ramagem um tratamento de traidor. Ficou enfurecido ao saber que o ex-chefe da Abin gravou a reunião palaciana de uma hora e oito minutos na qual foi esboçado o plano de blindagem de Flávio Bolsonaro no caso da rachadinha.

Bolsonaro se refere ao ex-auxiliar, hoje deputado federal e candidato a prefeito do Rio de Janeiro, com expressões pouco lisonjeiras. Na ofensa mais leve, chama-o de “burro” por manter o áudio da reunião tóxica arquivado por quatro anos no computador apreendido pela Polícia Federal. No insulto mais pesado, Bolsonaro manda Ramagem à presença de uma pessoa hipotética que, tendo exercido a profissão de prostituta, deu-lhe à luz sem saber com precisão quem é seu pai.

Quem conversou com Bolsonaro nas últimas 24 horas ficou com a impressão de que subiu no telhado o tour de três dias que ele faria com Ramagem a partir de quinta-feira da semana que vem. O primogênito Flávio Bolsonaro tenta contemporizar. Parece intuir que, a essa altura, a última coisa que interessa à família é um novo delator.

Se a fúria de Bolsonaro serve para alguma coisa é para aguçar a curiosidade dos que anseiam pela divulgação da íntregra do autogrampo de Ramagem.

De resto, os humores do capitão importam pouco. Até porque tirano que cavalga uma Abin paralela e fica furioso por ter sido gravado pelo operador da bisbilhotagem equivale a um chefe mafioso irritado porque um subordinado da cosa nostra compareceu à missa de domingo com uma arma na cintura.

Veja lista de alvos de espionagem da Abin durante o governo Bolsonaro

De acordo com a PF, lista de espionados vai desde autoridades do judiciário a jornalistas. Confira:

Poder Judiciário

Ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Luis Roberto Barroso e Luiz Fux.

Poder Executivo

Ex-Governador de São Paulo, João Dória; Servidores do Ibama Hugo Ferreira Netto Loss e Roberto Cabral Borges; Auditores da Receita Federal do Brasil Christiano José Paes Leme Botelho, Cleber Homen da Silva e José Pereira de Barros Neto.

Poder Legislativo

Deputado Federal Arthur Lira (Presidente da Câmara dos Deputados), Deputado Rodrigo Maia (ex-presidente da Câmara dos Deputados), Deputados Federais Kim Kataguiri e Joice Hasselmann, Senadores Alessandro Vieira, Omar Aziz, Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues.

Jornalistas

Monica Bergamo, Vera Magalhães, Luiza Alves Bandeira e Pedro Cesar Batista.

Investigados mentiram para proteger Bolsonaro em caso das joias, diz PF

A Polícia Federal afirmou que investigados no inquérito das joias prestaram informações falsas em depoimentos ao órgão com o objetivo de proteger o ex-presidente Jair Bolsonaro tentar ludibriar as autoridades e ocultar os atos ilícitos atribuídos ao grupo.

A estratégia, segundo a polícia, teria sido orquestrada entre Osmar Crivelatti, assessor vinculado à segurança do ex-presidente, hoje afastado de suas funções por determinação judicial, e Marcelo Câmara, assessor especial do ex-presidente da República.

Depoimentos anteriores de ambos, de acordo com o órgão, trouxeram informações erradas sobre a localização, movimentação e destino das joias desviadas do acervo público, os chamados kits ouro branco e rosé.

Os investigados disseram, em depoimentos, que o material estaria na fazenda do ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet, em Brasília, junto com os demais itens do acervo privado de Bolsonaro.

Desta forma, segundo a PF, eles poderiam trazer as joias do exterior de forma oculta, simulando uma entrega a partir da fazenda após determinação do TCU (Tribunal de Contas da União) para reaver os bens.

“Evidencia-se, claramente, que os investigados combinaram as versões a serem apresentadas às autoridades policiais, com o objetivo de tentar ocultar os atos ilícitos praticados, no caso o envio das joias ao exterior para serem negociadas e seus proventos serem revertidos, ilicitamente, ao patrimônio do ex presidente”, disse a PF.

Câmara, segundo a PF, disse em depoimento que foi o responsável por receber todo o acervo privado do ex-presidente, em abril de 2023, e teria dito, “com o objetivo de embaraçar as investigações”, que o material havia sido encaminhado à fazenda.

De acordo com o relatório, o ex-assessor também declarou não saber se, antes do armazenamento na fazenda de Piquet, as joias estavam sob a responsabilidade do ex-presidente e afirmou ter certeza de que elas saíram da propriedade.

A PF disse que Câmara deu mais detalhes falsos ao afirmar que um dos kits de joias, o rosé, foi retirado do armazenamento por Crivelatti e entregue ao advogado de Bolsonaro para posterior envio ao TCU.

Ele também afirmou, com o objetivo de proteger os atos ilícitos praticados pelo ex-presidente, segundo a PF, que as joias não foram levadas aos EUA, pois ele próprio estava neste país com Bolsonaro na época.

“Por fim, Marcelo Câmara, reiterando seu objetivo de obstruir as investigações, ainda afirmou: após a divulgação dos fatos na mídia, nega que tenha sido procurado por qualquer das pessoas envolvidas direta ou indiretamente na situação, que ninguém o solicitou para dizer ou omitir algo”, disse a PF.

A polícia disse que Crivelatti também prestou informações falsas sobre a localização das joias desviadas do acervo público em depoimento prestado em abril de 2023, seguindo a mesma estratégia articulada pelo grupo.

Ele afirmou que os presentes que estavam no gabinete presidencial e no Palácio do Alvorada foram encaminhados para a fazenda e que, a pedido de Câmara, retirou uma caixa de joias do local e entregou ao advogado do ex-presidente para que fossem devolvidas ao TCU.

Após a deflagração de nova fase da investigação, Crivelatti foi novamente ouvido, em agosto de 2023, e admitiu que havia prestado informações falsas na condição de testemunha em abril daquele ano.

Nesta ocasião, o militar disse que não retirou o kit ouro rosé na fazenda e que, na verdade, buscou o advogado do ex-presidente no aeroporto de Brasília em março de 2023 e que ele já estava na posse dos bens.

Isto confirmaria a apuração da PF de que as joias do kit ouro rosé estavam guardadas na cidade de São Paulo e tinham sido levadas a Brasília pelo advogado de Bolsonaro, em março de 2023.

“Crivelatti admitiu ainda que tinha conhecimento de que as joias do kit ouro rosé haviam sido enviadas para o exterior, confirmando que prestou informações falsas no depoimento anterior”, diz o documento.

Em março deste ano, ele prestou um novo depoimento confirmando que Bolsonaro “tinha plena ciência” de que o kit ouro rosé estava nos Estados Unidos e que, ao retornar de viagem com o ex-presidente da cidade de Washington, entregou o conjunto a ele.

Ao ser questionado sobre o motivo de ter mentido no depoimento, ele afirmou que tinha ciência de que o coronel Câmara, em declarações anteriores à Polícia Federal, tinha afirmado falsamente que o kit em ouro rosé estaria na fazenda Piquet e, diante disso,”procurou manter a mesma versão, mesmo ciente da falsidade das afirmações”.

O advogado de Crivelatti chegou a afirmar, neste depoimento, que seu cliente, quando prestou informações falsas em depoimento à PF, não recebeu defesa técnica adequada e que estava assistido por uma advogada designada pela equipe de defesa do ex-presidente.

O conjunto de joias rosé é composto por itens masculinos da marca Chopard, com uma caneta, um anel, um par de abotoaduras, um rosário árabe e um relógio recebidos pelo então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, após viagem a Arábia Saudita, em outubro de 2021.

A análise dos dados coletados pela PF no celular do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro Mauro Cid revelou que o kit foi levado do país, em dezembro de 2022, por meio do avião da presidência da República, e submetido à venda em leilão nos Estados Unidos.

Já o kit ouro branco é composto por um relógio Rolex, caneta da marca Chopard, par de abotoaduras, anel e rosário árabe. O pacote teria sido recebido, segundo a PF, em uma viagem oficial a Doha, no Catar, e em Riade, na Arábia Saudita, em outubro de 2019.

Por que a operação de hoje complica Bolsonaro

A operação deflagrada pela Polícia Federal na investigação sobre o suposto esquema de monitoramento ilegal por meio da Abin tem o potencial de deteriorar a situação de Jair Bolsonaro e de militares de alta patente.

A PF pediu ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes o compartilhamento de provas produzidas em outras três investigações que se converteram em uma dor de cabeça para Bolsonaro: os inquéritos das fake news, dos atos antidemocráticos e das milícias digitais. Moraes acolheu a solicitação.

Os investigadores apontam uma conexão entre os procedimentos. Segundo a PF, as ações clandestinas da Abin Paralela situam-se, potencialmente, “no nexo causal dos delitos que culminaram na tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito”.

Um parecer da Procuradoria-Geral da República endossa essa tese, sob o argumento de que a estrutura infiltrada na agência seria “apenas uma célula de uma organização criminosa mais ampla, voltada ao ataque de opositores, de instituições e de sistemas republicanos”.

A PGR diz especificamente que a atuação dessa organização não se restringia aos episódios relacionados à Abin, “mas que poderia ecoar em outros procedimentos investigatórios”.

Moraes, por sua vez, concordou com essa avaliação e enfatizou, com base no trabalho da PF, que uma organização criminosa utilizou sistema de inteligência da Abin para espionar autoridades que poderiam, em tese, se opor aos interesses do Núcleo Político do esquema, além de monitorar pessoas à frente de investigações contra familiares de Bolsonaro.

Assim, de acordo com o ministro, diante do “escopo de questionar a credibilidade do sistema eleitoral, verifica-se a existência de conexão probatória entre a presente investigação e os procedimentos investigatórios que tramitam nesta Corte“.

A nova operação sobre a possível arapongagem também é uma má notícia — simbólica e juridicamente — para militares graúdos. A decisão de Moraes proíbe o contato dos alvos da ação desta quinta com os investigados na petição relacionada à conspiração golpista de 2022. Entre eles, estão:

Jair Bolsonaro;

o ex-comandante da Marinha Almir Garnier Santos;

o ex-comandante do Exército Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira;

o general e ex-ministro Augusto Heleno, a quem a Abin se subordinava; e

o general e ex-ministro Walter Braga Netto.

A investigação sobre a trama golpista de 2022 está em vias de terminar. Neste caso, a PF pode colar em Bolsonaro os crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa.


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