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Especial
Brasil não pode perdoar quem tenta destruir a democracia
Publicado em 15/11/2024 12:15 - Josias de Souza, Leonardo Sakamoto e Jamil Chade (UOL), Jean-Philip Struck (DW) – Edição Semana On
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Ao se explodir na Praça dos Três Poderes, defronte da sede do Supremo Tribunal Federal, Francisco Walderley Luiz expôs ao país três evidências ruidosas:
1) O dia 8 de janeiro de 2023 não acabou. E acaba de ganhar o adorno tétrico de um cadáver.
2) Ainda impunes, os membros do alto-comando do golpe desfrutam de uma anistia informal que estimula reincidências.
3) A sonhada pacificação do Brasil vai ficando obsoleta antes de acontecer.
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Decorridos um ano e dez meses do fatídico quebra-quebra, foram punidos apenas os bagrinhos que organizaram nas redes sociais uma “festa da Selma”, para “comer o bolo” durante o assalto às sedes dos Três Poderes. Continuam impunes Bolsonaro e seus cúmplices. Inelegível, o mentor da fuzarca perambula pela conjuntura política estalando de pureza democrática.
Juntando-se o debate sobre anistia com a falta de políticos e militares atrás das grades chega-se à mistura que inspira o surgimento do homem-bomba —um patriota catarinense, ex-candidato a vereador pelo PL, que deixou nas redes sociais um rastro pegajoso de ódio às instituições e apreço por teorias conspiratórias. O bolsonarismo se apressa em qualificar qualificar o homem-bomba como maluco.
Em dezembro de 2022, aloprados saídos do acampamento do QG do Exército tentaram invadir a sede da Polícia Federal. Impedidos, promoveram uma arruaça no centro de Brasília. Dias depois, desarmou-se uma bomba plantada por outro maluco num caminhão de combustível, nas cercanias do aeroporto de Brasília. Sobreveio o 8 de janeiro. Uma vez, o flagrante de maluquice é crime. Duas vezes é reincidência. Mais de três vezes é reflexo da impunidade de gente graúda.
Horas antes da explosão na Praça dos Três Poderes, Bolsonaro disse numa entrevista contar com a reversão de sua inelegibilidade. Declarou que será presidenciável enquanto sua “morte política” não for “anunciada para valer”. O homem-bomba morreu ao fazer o que não devia. Seu cadáver convida autoridades brasilienses a refletir sobre a urgência de fazer o que devem. A Procuradoria-Geral da República e o Supremo devem ao país algumas lápides.
– Pela pacificação,
– Lamento e repudio todo e qualquer ato de violência, a exemplo do triste episódio de ontem na Praça dos Três Poderes. Apesar de configurar um fato isolado, e ao que tudo indica causado por perturbações na saúde mental da pessoa que, infelizmente, acabou…
— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) November 14, 2024
Na visão de Bolsonaro, o que houve na praça dos Três Poderes foi “um fato isolado”, provocado por “perturbações na saúde mental da pessoa que, infelizmente, acabou falecendo.” Para o ministro do STF, Alexandre de Moraes: “Não é um fato isolado.” A coisa está conectada com o quebra-quebra do 8 de janeiro, num “contexto que se iniciou lá atrás, no famoso gabinete do ódio.” “Pessoas foram instigadas a agredir”, disse o ministro.
Para Bolsonaro, “já passou da hora de o Brasil voltar a cultivar um ambiente adequado para que as diferentes ideias possam se confrontar pacificamente, e que a força dos argumentos valha mais do que o argumento da força.” Xandão parece preferir que a força do direito prevaleça sobre o direito da força. Informou que “a Polícia Federal está em via de conclusão do inquérito dos autores intelectuais” da tentativa de golpe. Anteviu que está chegando a hora “da responsabilização total de todos aqueles que atentaram contra a democracia.”
O duelo entre Bolsonaro e Alexandre de Moraes antecipa as duas consequências práticas das explosões que estremeceram a conjuntura política na noite de quarta-feira: 1) A proposta de anistia dos condenados do 8 de janeiro descerá à sepultura junto com o homem-bomba; 2) Bolsonaro e seus cúmplices ficaram mais próximos de um encontro com incontornáveis sentenças condenatórias.
Para Bolsonaro, pau que bateu em Adélio não bate em Francisco
Bolsonaro se esforçou nos últimos seis anos para ligar Adélio Bispo ao PSOL, mesmo que o criminoso tivesse se desfiliado do partido em 2014 – quatro anos antes da facada que deu no então candidato à Presidência em 6 de setembro de 2018.
Agora, com Francisco Wanderley Luiz, que foi candidato a vereador pelo PL e se explodiu tentando mandar Alexandre de Moraes e o STF pelos ares, cumprindo um antigo sonho de extremistas, Jair frisou ao portal Metrópoles que ele entrou no partido um ano depois que o unabomber catarinense disputou a eleição pela mesma agremiação em 2020.
E, na nota que publicou em sua conta no X/Twitter, Bolsonaro defendeu que o caso configura “um fato isolado” e que “ao que tudo indica, causado por perturbações na saúde mental da pessoa”. Vale para Francisco, não vale para Adélio.
A ex-esposa do chaveiro que se matou com uma das bombas que explodiu na praça dos Três Poderes afirmou à Polícia Federal que ele planejava um ataque ao STF desde que Jair perdeu a eleição de 2022. Fazia buscas no Google para viabilizar o atentado, cujo objetivo era matar o ministro Alexandre de Moraes, principal inimigo da extrema direita por seu papel fundamental no bloqueio do golpe bolsonarista.
Enquanto isso, vão surgindo indícios de que Francisco, apesar de ter agido sozinho e ter problemas mentais, planejou a ação incitado pelo discurso do ódio proferido pelo bolsonarismo radical e acreditava ser uma peça importante na “revolução”. Tal qual milhares de seguidores de Jair que irromperam a praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, depredaram as sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, e acreditavam que seriam seguidos pelas Forças Armadas.
Francisco apontou jornalistas e políticos da direita liberal como comunistas, criticava generais legalistas e sugeriu o 15 de novembro deste ano para começar uma revolução no Brasil – mesma data que foi aventada, em 2022, por militares golpistas para uma insurreição, segundo informações obtidas pela investigação da Polícia Federal.
O irônico é que exaustivas investigações da Polícia Federal, que foram chanceladas pela Justiça, apontaram que Adélio não era peça de nenhuma conspiração contra Bolsonaro, mas uma pessoa com graves problemas psicológicos. O ex-presidente nunca aceitou isso e, sistematicamente, culpava a esquerda por atentar contra sua vida.
Agora, apesar dos indícios de que Francisco Wanderley Luiz seguia um caminho traçado por líderes da extrema direita, com sucessivos planos contra a vida de Alexandre de Moraes e a integridade do STF, Jair pede paz e calma.
“Já passou da hora de o Brasil voltar a cultivar um ambiente adequado para que as diferentes ideias possam se confrontar pacificamente, e que a força dos argumentos valha mais que o argumento da força”, disse ele. Cinicamente, ignora que seus discursos contando mentiras sobre o processo eleitoral e a constante incitação contra Alexandre de Moraes, tiveram tração na mente de Francisco.
Essa tirada de corpo não é à toa, mas preocupação com o impacto pelas explosões desta quarta. Sob a justificativa de “pacificar” o país, Bolsonaro vinha convencer a turma que faltou às aulas de História que o melhor é um arranjo de anistia para não puni-lo pelos crimes que cometeu. Até o chaveiro-terrorista aparecer.
Como o bolsonarismo se radicalizou contra o STF
Brasília, quarta-feira (13/11). Um homem com explosivos presos ao corpo se aproxima da sede do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao se deparar com seguranças, ele detona um dos explosivos junto à nuca e acaba morrendo. Pouco antes, seu veículo havia explodido a algumas centenas de metros.
Nas horas seguintes, começam a surgir detalhes do seu perfil: um aparente radical de extrema direita de 59 anos, identificado como Francisco Wanderley Luiz, que já havia sido candidato a vereador pelo PL de Jair Bolsonaro e cujas redes sociais continham mensagens agressivas contra o STF e políticos tradicionais, além de propagarem teorias conspiratórias populares em círculos de ultradireita.
Os indícios apontam que se trataria da ação de um lobo-solitário, sem participação de outras pessoas. Questionado sobre o atentado, Jair Bolsonaro minimizou o episódio como um “fato isolado”, enquanto aliados do ex-presidente tentaram refutar ligações com o bolsonarismo.
No entanto, o atentado suicida ocorreu após uma longa sequência de seis anos de ofensivas do bolsonarismo contra o STF, que entre 2018 e 2024 elegeu o tribunal como um dos principais inimigos do movimento. Ofensas, hostilização e propagação de fake news por parte de bolsonaristas contra o tribunal e diversos ministros foram rotina nos últimos anos.
Também não é a primeira vez que a sede é alvo de um ataque. O tribunal já havia sido seriamente danificado em janeiro de 2023 por uma turba de bolsonaristas, no que até então era encarado como o clímax da campanha da extrema direita contra o tribunal.
Foi nesse contexto que ocorreu o ataque suicida executado por Francisco Wanderley Luiz. Segundo o site G1, sua ex-mulher contou à polícia que ele alimentava a fantasia de assassinar o ministro do STF Alexandre de Moraes, que desde 2019 é visto como o “inimigo número 1” do bolsonarismo no Judiciário.
Ao comentar sobre as explosões de quarta, Moraes afirmou: “O que aconteceu ontem não é um fato isolado do contexto. (…) mas o contexto se iniciou lá atrás, quando o ‘gabinete do ódio’ começou a destilar discurso de ódio contra as instituições, contra o STF, principalmente contra a autonomia do Judiciário”.
Veja abaixo outros episódios de tensão entre o bolsonarismo e o STF nos últimos anos:
2018: Vídeo de Eduardo Bolsonaro sobre fechar STF com um “um soldado e um cabo”
O STF já colecionava episódios de tensão com parte da direita antes da ascensão do bolsonarismo, que envolviam apoiadores da Lava Jato acusando o tribunal de leniência com acusados de corrupção e até mesmo uma mensagem do general Villas Bôas publicada em 2018 que foi encarada como uma tentativa de pressão sobre os ministros para que eles não tomassem uma decisão favorável ao ex-presidente Lula.
Mas os primeiros choques com o bolsonarismo logo vieram. Durante a campanha presidencial de 2018, o então deputado Jair Bolsonaro defendeu um aumento no número de vagas do STF, no que foi visto como uma estratégia para aumentar a presença da extrema direita na Corte.
Na mesma campanha, um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro, foi gravado num cursinho lançando a ideia de que o tribunal poderia ser facilmente fechado por apenas “um soldado e um cabo”. “Se prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular a favor do ministro do STF, milhões na rua?”, disse Eduardo.
As falas do vídeo foram repudiadas por ministros do STF, mas eram um sinal do que estava por vir.
Ainda durante a campanha de 2018, um coronel reformado apoiador de Bolsonaro publicou uma série de vídeos com ataques a membros do STF e apologia a um golpe de Estado. A maior parte dos xingamentos foram direcionados a Rosa Weber, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No ano seguinte, Correia foi denunciado pelo Ministério Público.
2019: STF abre inquérito das fake news e se torna alvo permanente do bolsonarismo
Após a posse de Jair Bolsonaro, nas primeiras semanas de 2019, o novo governo protagonizou uma série de conflitos contra a Câmara Federal, mas logo o STF se tornou o principal alvo.
Em março do mesmo ano, após perfis bolsonaristas direcionarem ataques contra ministros do STF e pedirem o fechamento do tribunal, o então presidente da Corte, Dias Toffoli, anunciou a abertura de um inquérito para investigar a existência de fake news, ameaças e denunciações caluniosas, difamantes e injuriantes contra membros da corte e de seus familiares.
Seria o “inquérito das fake news”, que passaria a ser comandado por Alexandre de Moraes para investigar o chamado “gabinete do ódio” bolsonarista. Nos meses seguintes, o inquérito começaria a se aproximar de diversos aliados do presidente. Em maio do mesmo ano, Bolsonaro endossou a primeira manifestação de rua que teve o STF como alvo.
2020: Bolsonaro prestigia manifestação contra o STF
Em meio à pandemia, Jair Bolsonaro sobrevoou a Esplanada dos Ministérios para prestigiar uma manifestação contra o STF e o Congresso. Depois, desceu e caminhou para cumprimentar apoiadores. Na manifestação, placas afirmavam: “Supremo é o povo” e “abaixo a ditadura do STF”.
No mesmo ano, o STF abriu um novo inquérito, desta vez para investigar atos antidemocráticos. Uma decisão do ministro Alexandre de Moraes que barrou a posse do delegado Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal também fez com que as redes bolsonaristas continuassem a concentrar seus ataques contra o ministro.
No mesmo ano, durante uma sessão plenária, Moraes leu algumas ameaças recebidas pelos integrantes da corte. “Que estuprem e matem as filhas dos ordinários ministros do STF’, citou o ministro. Outra ameaça dizia, segundo Moraes: “Quanto custa atirar à queima-roupa nas costas de cada filho da puta ministro do STF (…)?”.
2020: Ato e ataque do grupo “300” contra STF
Ainda em maio de 2020, um acampamento liderado pela ex-feminista e militante de extrema direita Sara Geromini, também conhecida como Sara Winter, foi instalado no Eixo Monumental de Brasília. O grupo, autointitulado “300 do Brasil” – embora só poucas dezenas de fato participassem do movimento –, passou a organizar simulações de treinamento militar e protestos regulares contra o Congresso e o STF. Paralelamente, Winter publicou ataques nas redes contra ministros.
No final de maio de 2020, usando máscaras, membros do acampamento organizaram uma marcha com tochas em volta do STF, numa ação que parece ter sido inspirada na infame marcha neonazista que ocorreu em Charlottesville, nos EUA, em 2017.
Duas semanas depois, membros dos “300” dispararam fogos de artificio diretamente contra a sede do STF. “Vocês vão cair. Nós vamos derrubar vocês, seus comunistas”, dizia uma mensagem com imagens do ataque distribuída pelo grupo. Dois dias depois, Winter foi presa.
2021: Daniel Silveira é preso após atacar e ameaçar ministros
Em fevereiro de 2021, o deputado bolsonarista Daniel Silveira foi preso por ordem do ministro Alexandre de Moraes, pouco depois de publicar um vídeo em suas redes sociais com ataques virulentos ao Supremo. Em cerca de 20 minutos de vídeo, Silveira usou palavras como “vagabundo”, “filha da puta”, “bosta” e “idiota” para se referir aos ministros.
Ele ainda manifestou desejo de que os juízes da corte fossem agredidos fisicamente e fez apologia ao AI-5, o ato institucional publicado pela ditadura em 1968, que resultou no fechamento do Congresso e na suspensão do habeas corpus, entre outras medidas autoritárias.
O deputado também acusou – sem provas – ministros da Corte de trabalharem para organizações criminosas, venderem sentenças e até de terem pênis pequeno.
Silveira já era investigado no âmbito dos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos que foram abertos pelo STF entre 2019 e 2020.
2021: mais presos por ameaçar ministros
No mesmo ano, Moraes expediu mais dois mandados de prisão preventiva contra dois apoiadores de Bolsonaro que publicaram ameaças. Um deles, chegou a afirmar sobre a existência de uma suposta premiação em dinheiro para quem matasse Moraes. “Tem um empresário grande aí que está oferecendo. Tem até uma grana federal que vai sair o valor pela cabeça do Alexandre de Moraes, vivo ou morto, para quem trazer ele”, disse o suspeito.
O outro preso, falou em matar o ministro e sua família: “Filha da Puta, terça-feira vamos te matar e toda sua família seu vagabundo. Advogadinho de merda do PCC, sou Policial Militar e nós militares te eliminaremos.”
2021: Bolsonaro lidera manifestação contra o STF
Em uma sequência de ataques que se estendeu por meses em 2021, Bolsonaro acusou o TSE, que é institucionalmente ligado ao STF, de fraude eleitoral e distribuiu ataques a diferentes ministros do tribunal, chegando a xingar Luís Roberto Barroso de “filho da puta” em público e a associar falsamente o ministro à pedofilia. No total, apenas em 2021, Bolsonaro fez pelo menos 21 ataques públicos ao sistema eleitoral, mantendo sua base agitada contra o TSE.
Ainda em 2021, Bolsonaro se tornou alvo de quatro novos inquéritos no STF e um no TSE. Bolsonaro respondeu redobrando os ataques. Em agosto, apresentou um inédito pedido de impeachment contra o ministro Moraes – rejeitado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.
Bolsonaro também chegou a organizar um desfile de blindados na Praça dos Três Poderes no que foi visto como uma tentativa de intimidação contra o STF e o Congresso, mas o episódio chamou mais a atenção pela obsolescência dos veículos e pela fumaça emitida.
Em setembro, em discursos diante de milhares de apoiadores em Brasília e São Paulo, Bolsonaro fez ameaças golpistas contra o STF e exortou desobediência a decisões da Justiça.
Em uma ameaça direta ao então presidente do Supremo, Luiz Fux, Bolsonaro disse: “Ou o chefe desse Poder [Fux] enquadra o seu [ministro Alexandre de Moraes] ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”. No mesmo dia disse que “qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá, a paciência do nosso povo já se esgotou”.
2022: Ex-deputado Roberto Jefferson resiste à ordem de prisão pelo STF e atira em policiais
Em outubro de 2022, pouco antes do segundo turno presidencial, o STF determinou uma nova detenção do ex-deputado de extrema direita Roberto Jefferson (PTB), que cumpria prisão domiciliar.
A ordem foi motivada pela insistência de Jefferson de descumprir várias medidas cautelares impostas para a garantia da prisão domiciliar, que incluíam a proibição de receber visitas sem prévia autorização, usar redes sociais e conceder entrevistas. A gota d’água ocorreu quando Jefferson publicou em redes sociais uma série de ofensas à ministra do STF Cármen Lúcia.
Quando policiais se dirigiram à residência de Jefferson, o ex-deputado respondeu com tiros de fuzil e granadas, ferindo dois agentes.
Após um cerco que se estendeu por oito horas, o aliado do presidente Jair Bolsonaro concordou em se entregar.
2022: Ministros hostilizados em Nova York
Em novembro de 2022, bolsonaristas hostilizaram publicamente ministros do STF de semana em Nova York, onde os membros da Corte participavam de uma conferência.
Vídeos gravados por bolsonaristas mostraram que os manifestantes dirigiram a hostilidade em diferentes momentos e pontos da cidade aos ministros Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso. Moraes teve que ser escoltado ao sair de um restaurante. Já Barroso foi abordado quando caminhava. Gilmar, quando saia de um hotel.
2022: tentativa de ataque terrorista em Brasília
Em dezembro de 2022, quando bolsonaristas permaneciam acampados em frente a bases do Exército país afora para pressionar por um golpe de Estado na esteira da derrota de Bolsonaro na eleição presidencial, a Polícia Civil do Distrito Federal prendeu um homem suspeito de plantar um artefato explosivo nos arredores do aeroporto de Brasília.
O suspeito era um empresário de 54 anos do Pará, que, segundo a polícia, confessou a intenção de detonar o artefato no aeroporto. O suspeito ainda estava em posse de um arsenal de duas espingardas, um fuzil, dois revólveres, três pistolas, centenas de munições e uniformes camuflados.
Embora o caso não fosse exatamente um ataque direto ao STF, o episódio mostrou que alguns apoiadores de Bolsonaro estavam dispostos até mesmo a recorrer a atos de terrorismo na esteira da derrota em 2022.
2023: Ataque de 8 de janeiro deixa sede do STF em ruínas
Uma semana após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, milhares de bolsonaristas que não aceitavam o novo governo e a derrota de Jair Bolsonaro no pleito de 2022 se dirigiram a Brasília. Outros já se encontravam num acampamento instalado em frente à sede do comando do Exército na capital.
No dia 8 de janeiro, num episódio que levantou suspeitas de cumplicidade e omissão por parte da cúpula de segurança do Distrito Federal, a turba de bolsonaristas seguiu desimpedida para as sedes dos Três Poderes. Os bolsonaristas acabaram invadindo o Congresso, o Palácio do Planalto e a sede do STF, numa aparente tentativa de provocar uma “intervenção militar” que poderia levar Bolsonaro de volta ao poder.
O prédio mais vandalizado foi de longe a sede do STF. Os golpistas destruíram o plenário da Corte, vandalizaram gabinetes e obras de arte. Os prejuízos passaram dos R$ 11 milhões só na sede do Tribunal. Em vídeos, bolsonaristas que destruíram o prédio também xingaram ministros. “Um bombardeio não teria resultado no dano que a Suprema Corte teve”, disse o senador Randolfe Rodrigues ao inspecionar os danos.
2023: Barroso é hostilizado em Miami
No início de janeiro de 2023, o ministro Luís Roberto Barroso disse ter sido hostilizado por manifestantes bolsonaristas no aeroporto de Miami. Dino chamou os manifestantes de “extremistas”. Vídeos mostraram Barroso no salão de embarque do aeroporto, enquanto era vaiado e xingado de “ladrão” e “lixo”.
2023: Alexandre de Moraes é hostilizado em Roma
Em julho de 2023, Alexandre de Moraes e sua família afirmaram que foram hostilizados no aeroporto de Roma por um trio de brasileiros. O episódio envolveu até mesmo intercalação física entre o filho de Moraes e um dos membros do trio.
Um ano depois, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou um empresário, sua esposa e o genro do casal pelo caso. Eles foram acusados de crimes de calúnia e injúria. Um deles também foi denunciado por injúria real (com violência), por suspeita de agredir o filho do ministro.
2024: Suspeitos de ameaçar família de Moraes são presos
Em maio de 2024, a Polícia Federal prendeu dois irmãos suspeitos de ameaçarem a família do ministro Moraes. Entre eles estava um fuzileiro naval da ativa.
A investigação começou depois que e-mails anônimos começaram a chegar ao STF, com mensagens falavam em bombas e sobre o itinerário da filha do ministro Moraes.
2024: ataque suicida em frente ao STF
Em novembro de 2024, duas explosões foram registradas nas proximidades de um anexo da Câmara dos Deputados e da sede do STF em Brasília, num aparente atentado suicida cometido por um radical de extrema direita.
Nas suas redes, o autor havia publicado meses antes uma foto em que aparecia no interior do plenário do STF, com a mensagem “deixaram a raposa entrar no galinheiro”.
Sem anistia. Pela memória, pela verdade e pela justiça. Pelo futuro.
O Brasil tem, neste momento, uma oportunidade histórica: mostrar ao mundo como se socorre uma democracia atacada por tentativas de golpe, mentiras sistemáticas, manipulação da opinião pública e uma rede internacional de extrema-direita inspirada pelo trumpismo. Mas o sucesso dessa missão passa, necessariamente, por uma decisão clara e inegociável: rejeitar a anistia.
A inelegibilidade de Jair Bolsonaro acendeu uma faísca de esperança, principalmente entre aqueles que acreditam no esgotamento de sua trajetória política. Mas é preciso mais. Embora o afastamento do ex-presidente seja uma medida relevante para a saúde das instituições, não podemos nos contentar apenas com isso. A democracia brasileira precisa de algo mais profundo e transformador: verdade, memória e justiça.
A verdade é essencial para que o Brasil evite reviver os horrores do passado – seja como tragédia, seja como farsa. É o direito da população de compreender o que aconteceu enquanto o poder foi instrumentalizado para interesses escusos, enquanto decisões resultaram na morte de milhares de pessoas durante a pandemia, enquanto a dor de milhões era desprezada em nome de um projeto de poder.
A busca pela verdade não é mera formalidade. É o que oferece dignidade às vítimas e resgata a integridade de uma sociedade dilacerada. Assim como as famílias em cenários de guerra buscam respostas para o paradeiro de seus entes queridos, o Brasil precisa saber por que tantas vidas foram abreviadas de forma criminosa.
O ataque à democracia em 8 de janeiro de 2023, com a destruição de símbolos republicanos no coração do poder, é outro marco que exige explicação. Os ecos daquela violência ainda reverberam, lembrando-nos de que a reconstrução democrática está longe de ser concluída.
Preservar a memória coletiva é um ato de resistência. Para que a história não se repita, é necessário narrar os fatos com honestidade, documentar os erros e educar as próximas gerações. Entre 2019 e 2023, o Brasil enfrentou isolamento internacional, desprezo pela ciência e pela vida humana. Esse capítulo precisa ser conhecido e ensinado, para que as covas abertas durante a pandemia não sejam tratadas como meros números ou fatalidades inevitáveis.
Há lições na história que nos ensinam o peso da memória. A Alemanha, por exemplo, investe diariamente na conscientização sobre os horrores do nazismo, promovendo debates abertos e educação sistemática sobre os perigos de ideologias autoritárias. Essa prática, longe de ser revanchista, é um compromisso ético com as gerações futuras.
No Brasil, a memória não deve apenas recordar as vítimas, mas também expor os atos de quem tentou romper o pacto democrático. É um caminho doloroso, mas indispensável para a reconciliação e a cicatrização de feridas históricas.
No entanto, a verdade e a memória, por si só, não bastam. Justiça, como dizia Freud, é “o primeiro requisito da civilização”. Mas justiça não é vingança. É o reconhecimento de que há vítimas, de que direitos foram violados e de que é preciso proteger o futuro.
A democracia não morre apenas em golpes de Estado cinematográficos. Ela sucumbe em pequenos atos, muitas vezes imperceptíveis: decretos no Diário Oficial, invasões de terras indígenas, a normalização da mentira como estratégia política, a banalização do ódio. Ela morre quando os responsáveis por esses atos não são responsabilizados, quando a impunidade se torna a norma.
Desta vez, não há espaço para anistia. Não se trata de reviver o passado com olhos vingativos, mas de construir um futuro onde a democracia esteja protegida de seus algozes.
No dicionário da democracia, verdade, memória e justiça são capítulos indissociáveis. Esses conceitos, escritos com o sangue das vítimas, têm como objetivo resgatar sociedades mergulhadas na violência e devolvê-las ao caminho da paz.
Rejeitar a anistia é um compromisso com a democracia brasileira, uma declaração de que erros graves não serão varridos para debaixo do tapete. É uma mensagem clara ao mundo: o Brasil é capaz de enfrentar seus fantasmas e liderar pelo exemplo.
Sem anistia. Pela memória, pela verdade e pela justiça. Pelo futuro.
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