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Especial

QUEIMANDO DINHEIRO

Brasil vive epidemia de vício em apostas online

Publicado em 27/09/2024 3:23 - ICL Notícias, Chico Alves (ICL), Leonardo Sakamoto (UOL), Priscila Carvalho (DW) – Edição Semana On

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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O presidente Lula (PT) cobrou do governo providências urgentes para conter o endividamento e o comprometimento da renda da população mais pobre por conta das bets. Entre as medidas estudadas pelo governo, está a proibição do uso do cartão do Bolsa Família para apostas.

O pedido foi originado após divulgação da nota técnica do Banco Central na terça-feira (24), que aponta que beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bi com bets em agosto de 2024.

O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, afirmou que Lula “a regulamentação das bets, coordenada pelo Ministério da Fazenda e Casa Civil, deve conter regra com limite zero para o cartão de benefícios sociais para jogos e controle com base no CPF de quem joga.” Lula, segundo o ministro, defende que o “programa é para alimentação e necessidades básicas’.

O veto ao uso do cartão do Bolsa Família para pagar apostas será possível pelo monitoramento por CPF que está previsto nestas regras e normas para a regulação das bets enviados pelo Ministério da Fazenda ao Congresso.

De acordo com o ministro da Fazenda Fernando Haddad, “você vai ter CPF por CPF de quem está apostando, tudo sigiloso, mas ele vai abrir essa conta. Vamos poder ter um sistema de alerta em relação às pessoas que estão revelando uma certa dependência psicológica do jogo”.

As bets são liberadas no país desde 2018 em lei aprovada no governo Michel Temer (MDB). Jair Bolsonaro (PL) deveria ter regulamentado o mercado em sua gestão (2019-2022), mas não tomou providências para regular o mercado.

No governo Lula, foi criada uma secretaria para cuidar de prêmios e apostas no Ministério da Fazenda para elaborar as leis que vão regulamentar o mercado. A lei das bets só entra em vigor em janeiro de 2025, mas a partir de outubro, os sites que não se cadastraram para serem regularizadas junto à Fazenda deverão ser derrubados.

Pior que crack, bets espremem brasileiro e largam bagaço para Estado cuidar

Vício em crack e em bets e caça-níqueis online destroem vidas, esfarelam famílias e espremem trabalhadores até o bagaço, que, depois, o Estado terá que cuidar. A diferença é que, para conseguir o psicoativo, a pessoa se coloca em risco de ser presa ou coisa pior. E o segundo está a um celular de distância. Não apenas é legal, como há parlamentares, empresários e gente no governo que esfregam as mãos de olho nas possibilidades de receita.

Ofertados em horário nobre na TV, as casas de apostas e os jogos de azar estão onipresentes nas redes sociais, estampam camisas de times de futebol, contam com influenciadores enganando a população com promessas de dinheiro fácil e ajudam até a bancar o jornalismo através de seus anúncios.

A Folha de S.Paulo mostra que os brasileiros devem destinar às casas de apostas, apenas via Pix, um total de R$ 216 bilhões — o estimado originalmente, pelo Ministério da Fazenda, era R$ 150 bilhões. E em uma análise sobre o mercado de jogos de azar e apostas online no Brasil, o Banco Central destacou que 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família destinaram R$ 3 bilhões às casas de apostas virtuais apenas no mês de agosto.

Todos devem ser livres para fazer o que quiserem com o seu dinheiro, mas o poder público e a sociedade não podem fazer cara de paisagem diante de um negócio que vende ilusões para tirar a grana dos cidadãos. Com propagandas reluzentes que trazem gente bonita e conhecida, prometendo mundos e fundos, claro que uma população de trabalhadores empobrecidos tentaria a sorte e se afundaria no azar.

Sob a justificativa de que são um fato consumado, elas não voltarão a ser proibidas, mas serão reguladas. A questão é que uma regulação para ser decente deveria taxar as operações dessas empresas em nível suficiente para garantir recursos para o Sistema Único de Saúde, que já tem problemas para tratar os trabalhadores-bagaço, e a fundos para reparar os danos causados ao tecido social. O que, claro, tornaria o negócio inviável.

O mais urgente, contudo, é proibir anúncios de bets e casas de apostas na TV, no rádio, em sites e portais, nas plataformas digitais. Há projetos de lei tramitando no Congresso nesse sentido. Apenas campanhas de informação sobre bets não vão fazer frente ao bombardeio que elas fazem nas propagandas. O problema é que, quando se fala disso, há os que bradam, indignados, o nome da liberdade. Liberdade para surrupiar, no caso.

Por lei, a propaganda de tabaco é proibida na TV há 20 anos e ninguém morreu por causa disso. Pelo contrário, isso evitou óbitos.

É cômico quando as empresas dizem que têm preocupação com os dependentes em jogos uma vez que a operação desse tipo de empreendimento depende de apostas feitas de forma compulsiva. Tão inútil quando o “beba com moderação” das propagandas de álcool é o “jogue com responsabilidade”, que algumas bets já trazem em seus anúncios.

O uso abusivo em jogo e em drogas deveria ser encarado com uma questão de saúde pública, mas o primeiro é visto como oportunidade pelos parlamentares e o outro, como crime.

Para uma parte dos legisladores que apoiam os jogos de azar online, contudo, desgraça é a maconha, que eles xingam entre um copo de uísque e outro. Na realidade, um usuário frequente de bets pode acabar com a própria vida e a da sua família. O de maconha, na maioria das vezes, acaba com o resto do pudim que estava na geladeira misturando-o com o feijão.

Brasil vive epidemia de vício em apostas online

“Perdi todo meu salário para o Tigrinho. Do mês retrasado para o mês passado, o salário caiu na conta e foi tudo embora em questão de um dia e meio”, disse o mineiro Gustavo Martins, de 28 anos, em uma postagem nas redes sociais em junho deste ano. A publicação, segundo ele, foi um alerta para quem cogita entrar nesse universo de apostas esportivas. Seu primeiro contato com as bets foi há dois anos, em uma brincadeira com os amigos.

No entanto, a vontade de ganhar cada vez mais fez com que o mineiro se tornasse dependente dos jogos de azar. “Quando eu comecei a ganhar dinheiro, a sensação era de total euforia, satisfação e prazer. Comecei com jogos de todos os tipos nas casas de apostas”, conta à DW.

Nos primeiros meses, Martins chegou a faturar R$ 50 mil, mas o desejo era sempre por mais. Por causa dos lucros, cogitou até deixar o emprego e viver apenas com os ganhos. Contudo, as apostas começaram a sair do controle, comprometendo seu salário.

O jovem não é o único a usar parte do orçamento familiar para essa finalidade. Um estudo da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), em parceria com a AGP Pesquisas, mostrou que 63% de quem aposta no país teve parte da renda comprometida com as bets. Outros 19% pararam de fazer compras no mercado e 11% não gastaram com saúde e medicamentos.

Até pouco mais de dois anos atrás, a vida financeira do casal formado pelo policial militar R. F. , de 30 anos, e a mulher, J. M., de 34 anos, era equilibrada. Naquele período ela teve a primeira experiência com aplicativo de bets. Nas jogadas iniciais, ganhou dinheiro. Mas, como sempre acontece, rapidamente as perdas passaram a ser maiores que os ganhos.

J.M. acabou se viciando nesse tipo de aposta. Com isso, as contas da família, que reside em cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, acabaram saindo dos trilhos.

R.F. recorda o momento em que a esposa admitiu o vício. “Ela desmoronou. Chorando, disse que perdeu todo o dinheiro em questão de poucos dias, que o pagamento já tinha sido depositado no jogo, que havia estourado o limite do cartão de crédito”, conta. “Que sensação de angústia senti na hora… porém, vi a vulnerabilidade dela, que tinha tomado um prejuízo de quase R$ 20 mil reais, e a acolhi. Ela prometeu que não se envolveria mais com nenhum jogo”.

De lá para cá a vida pareceu voltar aos eixos e o casal planejou a gravidez da segunda filha. A menina nasceu no dia 21 de agosto deste ano.

R.F. descobriu recentemente, no entanto, que ao contrário do que tinha prometido, a esposa continuava dominada pelo vício em bets. Isso causou brigas e desestabilizou a relação.

“Um dia levantei cedo, com a minha sogra gritando desesperadamente e me pedindo ajuda: minha esposa havia surtado, não queria amamentar a nossa bebê recém-nascida, estava procurando a minha arma para tirar a própria vida, procurava facas, pegou uma sacola de remédios e correu para dentro do carro para se intoxicar”, lembra. “Caí na real, as coisas estavam indo muito mal”.

A gravidade da situação ficou mais clara quando ele soube o tamanho da dívida da mulher (ela contabiliza cerca de R$ 650 mil perdidos em apostas). “Meu Deus, naquele momento quem queria tirar a própria vida era eu”, diz.

A esposa de R.F. atualmente está em tratamento psicológico e a mulher decidiu contar em detalhes ao ICL Notícias a experiência traumatizante com as bets. A intenção é alertar outras pessoas e evitar que se viciem.

A seguir, os principais trechos do depoimento de J.M. sobre as drásticas mudanças que o vício em aplicativos de apostas causou na sua vida e na de sua família:

No início, o sonho

“Comecei a jogar nessas plataformas através de um amigo do meu serviço que já jogava. Na época era a Blaze, ele me apresentou e falou que estava ganhando dinheiro, que era muito fácil jogar. Me mostrava vídeo de gente que estava ganhando dinheiro e até uma planilha que era chamada planilha de gerenciamento de banca. A gente depositava um dinheiro ali na plataforma e ia jogando. Eu fiquei empolgada com esse jogo, cheguei aqui em casa contei para o meu esposo, falei que esse amigo estava ganhando dinheiro, mostrei pra ele, abri a plataforma aqui e depositei parte do meu salário.

Comecei a jogar nessa plataforma e cheguei a ganhar até um dinheiro, sabe? Eu me empolguei e pensei comigo: “É agora que eu mudo de vida. Vou mudar a vida da minha família, não vou precisar trabalhar mais. Vou mudar a vida da minha mãe, porque minha mãe era dona de casa. É separada e passava uns perrengues, então eu achava que ia mudar a vida da minha mãe com esse tipo de jogo, né?”.

Ganha e perde

“E aí comecei a jogar, comecei a empolgar, porque eu ganhava dinheiro e perdia. Ganhava num dia, ganhava no outro dia, no terceiro dia ganhava, no quarto dia eu já perdia. E aí eu fui depositando o meu salário, porque eu não aceitava que eu tinha perdido, eu queria recuperar. Depositava o meu salário, perdia o meu salário todo, aí pegava o empréstimo aqui no banco, colocava dentro da plataforma e ia jogando. Novamente, ganhava um dinheiro e perdia. Aí pegava o empréstimo em outro banco, jogava lá na plataforma o empréstimo. Perdi o dinheiro todo.

E nisso bate um desespero porque eu tinha prometido pagar viagem para o meu esposo, pagar hospedagem, gasolina. Mas eu tinha perdido o dinheiro todo. Como eu ia falar isso pra ele? Na véspera da viagem ele me questionou: cadê esse dinheiro que eu tinha ganhado? E eu já não tinha mais dinheiro nenhum”.

Começa o descontrole

“Já tinha estourado meu limite de cartão de crédito. Já tinha pegado empréstimo com dois bancos. Já estava com o nome sujo. E aí foi aquele desespero, ele ficou nervoso. Me fez prometer que eu nunca mais ia jogar nessa plataforma. Eu fiquei desesperada, comecei a chorar pensando no que eu tinha feito, pensando no dinheiro que eu tinha perdido, porque foi muito dinheiro. Juntando os dois bancos acho que que foram mais de R$ 15 mil. Prometi pra ele que eu não ia jogar. Só que passou um tempo e eu fiquei com isso na cabeça, que eu tinha perdido esse dinheiro. Que eu tinha que recuperar esse dinheiro, não podia ficar assim. E aí eu liguei pra o meu pai, peguei um empréstimo com ele e joguei lá na plataforma. Perdi todo o dinheiro que o meu pai me emprestou.

Porque eu até ganhava um dinheiro, só que eu já não estava conseguindo parar de jogar. Eu ganhava, me empolgava e queria jogar mais e mais. Queria ganhar mais e mais. Não me contentava com o equivalente a R$ 500. Eu queria ganhar R$ 1 mil, R$ 2 mil, R$ 3 mil no mesmo dia. Então, eu não tinha o controle de parar.  E aí perdi o dinheiro todo do meu pai”.

Dinheiro da mãe

“Minha mãe estava recebendo um dinheiro de herança. E aí eu liguei pra ela e pedi dinheiro emprestado. Contei que nessa plataforma dava pra ganhar dinheiro e ela também acreditou. E aí me emprestou. Perdi o dinheiro da minha mãe todo. Na época, foram uns R$ 25 mil que ela me emprestou. Não conseguia contar pra ela que eu tinha perdido esse dinheiro. Não conseguia contar. Porque minha mãe sempre passou muita dificuldade, porque ela se separou, nunca trabalhou. E o dinheiro que ela recebeu de herança eu perdi.

O empréstimo do meu pai foi em torno de uns R$ 35 mil. Na época eu falei com ele que estava comprando um lote, se ele podia me ajudar que eu ia pagar, óbvio. Eu não paguei. Não consegui pagar porque perdi dinheiro todo. Inclusive tem um ano mais ou menos que a gente não conversa por causa dessa dívida que eu tenho com ele.

Com a minha mãe, o primeiro empréstimo foi de R$ 25 mil. Porém ao todo minha mãe me passou mais de R$ 350 mil. Literalmente perdeu a herança dela toda toda porque eu falava que estava devendo a agiota e no desespero ela me passava. Todo dia eu falava: ‘Ó, mãe, o agiota pediu mais, o agiota está me me ameaçando, está me fazendo chantagem, está me extorquindo’. Ela foi passando o dinheiro todo pra mim”.

Coração apertado

“Em relação ao meu sentimento com o meu esposo, eu ficava com o coração apertado, ficava com o remorso. Mas eu não podia parar de jogar, porque queria recuperar o dinheiro da minha mãe que eu tinha perdido, recuperar o dinheiro do meu pai, pagar aos meus tios.

Então eu tinha que jogar escondido dele, mas ficava aqui com o coração apertado com remorso. Tanto que quando  ele ia trabalhar eu ficava no meu quarto aqui, chorando a noite toda. Eu chegava do serviço e só queria ficar no meu quarto chorando, falando ‘meu Deus, o que que eu estou fazendo? Mas eu preciso jogar porque eu preciso recuperar’.

O meu sentimento era esse: não posso fazer isso com as pessoas, eu não posso sair devendo às pessoas. Então, ao mesmo tempo era o remorso que me corroía, que me corrói até hoje, porque eu não paro de pensar nisso até hoje. A médica até me passou um remédio pra eu tomar, um antidepressivo, porque eu estou amamentando e meu leite começou a secar”.

Empréstimo da amiga

“Você se torna uma pessoa viciada ali no jogo. Além de pegar dinheiro com outros familiares, peguei também com amigas minhas. E aí foi que virou pesadelo: a amiga minha chegou a pegar empréstimo porque achava que eu estava devendo a agiota. Com medo de eles fazerem alguma coisa comigo, pegou um empréstimo no banco para mim e me passou. Eu perdi totalmente o controle. E aí virou essa bola de neve. Quando eu vi eu já tinha pegado emprestado com mais de dez pessoas dinheiro. E eram valores altos.

Cheguei a inventar muita história, muita coisa por causa desse jogo. Porque além do vício de jogo você fica viciada em mentir para as pessoas também. Isso me levou a ficar viciada em mentir para conseguir pegar dinheiro emprestado. Mas a minha intenção não era dar golpe em ninguém, era pegar dinheiro emprestado, levantar um dinheiro dentro da plataforma para pagar a outras pessoas. Só que não conseguia, eu perdia. Tinha um dia que a plataforma me tirava tudo de uma vez. O que eu consegui juntar em uma semana, no outro dia a plataforma me tirava o dinheiro todo. E aí batia aquele desespero. Eu não sabia o que fazer. Foi assim, por exemplo, que perdi todo dinheiro da minha mãe dentro das plataformas. Hoje ela vive aqui comigo e com meu esposo. Sem nenhum dinheiro, sem dinheiro pra comprar remédio, os remédios dela”.

“Pensei em tirar minha vida”

“Eu pensei até em tirar minha vida. Eu cheguei a pegar duas vezes a arma do meu esposo e colocar na minha cabeça, só que eu já estava grávida. E aí eu não conseguia. Não conseguia. Porque eu pensava na minha filha, na minha outra filha também, que precisa de mim. E aí depois que eu ganhei minha segunda filha, minha bebezinha, eu surtei aqui em casa.

Uma vez, desesperada, peguei o celular do meu esposo e ele tinha uma economia lá dentro do banco dele, e transferi tudo para a minha conta para recuperar de novo o dinheiro da minha amiga. Ela financiou a casa dela e precisava ter o nome limpo, ter o limite dela do cheque especial. Foi aí que estourou a bomba aqui em casa, porque eu transferi o dinheiro do meu esposo para a minha conta para tentar levantar um dinheiro, pra pagar a minha amiga. Só que eu perdi tudo”.

R$ 650 mil perdidos nas bets

“Eu tenho até medo de fazer as contas, sabe? Mas, por alto, pelo que calculei mais ou menos, foram em torno de uns R$ 650 mil perdidos. Juntando todos os empréstimos com banco, com as pessoas, com a minha mãe, com meu pai, com meu esposo, foi em torno disso — ou mais. Tenho todos os comprovantes aqui que eu depositei nas plataformas. Inclusive, a gente até entrou em contato com o advogado aqui para ver se conseguia ir na Justiça e tentar recuperar parte do dinheiro. Mas ele falou que é muito difícil, que infelizmente não vai dar em nada.

Recado a quem pensa em jogar

“A mensagem que eu deixo para as pessoas é que fujam desses jogos. Não tenham nem o primeiro contato com esses jogos. Não caiam nessa. No início parece muito inocente mas ele te leva para o fundo do poço — e leva junto seus amigos, as pessoas que estão próximas de você. Esse jogo é pior do que um traficante de drogas, é pior. O jogo vicia.

Você fala ‘ah, é só por diversão, é só de vez em quando’. Não, quando você vê não consegue mais parar, você perdeu o controle.

Toma esse meu relato como exemplo porque destruiu a minha vida, abalou a vida da minha família, eu ainda nem sei como que vou pra pagar todas as pessoas. Eu acho que vou trabalhar trinta anos e não vou conseguir pagar tudo que estou devendo. Só fico pensando o que que eu vou fazer. Então não caiam nessa gente, não caiam. Tigrinho, essas coisas. Isso é tudo enganação. É enganação. Ninguém vai ficar rico com isso”.

Como reconhecer a dependência em jogos

Martins precisou perder o salário para notar que sofria com um transtorno. “Eu não me satisfazia em fazer R$ 200 ou R$ 300 por dia. Eu queria sempre fazer R$ 10, 20 mil todos os dias, então, às vezes, eu fazia mil reais e, ao invés de sacar, tentava mais e acabava que saía sem nada”, relembra.

Assim como ele, muitos brasileiros demoram a perceber a dependência. Segundo os especialistas, como os jogos e aplicativos estão instalados no celular e o aparelho é usado com frequência, fica cada vez mais difícil reconhecer a adicção.

O vício em apostas online não afeta apenas o comportamento dos jogadores, mas também altera o funcionamento do cérebro de forma semelhante a outras dependências químicas, como drogas e álcool. Segundo Luciana Becker, psicóloga e especialista em Transtornos Adictivos pela PUC Rio, o sistema de recompensa cerebral é diretamente impactado pelo jogo patológico.

“Quando uma pessoa ganha ou está prestes a ganhar, o cérebro libera grandes quantidades de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à satisfação. Esse aumento gera uma sensação de euforia, incentivando o jogador a buscar repetir a experiência”, explica Becker.

Contudo, o problema se agrava com o fenômeno conhecido como tolerância. “Assim como ocorre com substâncias psicoativas, o cérebro passa a exigir apostas maiores para atingir o mesmo nível de prazer. Isso leva a um comportamento compulsivo, com os jogadores assumindo riscos cada vez mais altos”, detalha a especialista.

Esse ciclo de dependência compromete a capacidade de tomar decisões racionais, perpetuando o comportamento adictivo. Em alguns casos, pode demorar muito tempo para que familiares e o próprio jogador percebam que o hábito está saindo do controle.

“O jogador patológico apresenta uma incapacidade de controlar o impulso de jogar, mesmo quando o jogo faz com que ele tenha tido, por exemplo, perdas financeiras significativas, prejuízos nas relações pessoais e problemas no trabalho”, pontua Becker. O estresse por não jogar, mentiras e outros prejuízos na rotina também indicam a compulsão.

Desafio de saúde pública

Desde a regulamentação das apostas online em 2018, pelo então presidente Michel Temer, a prática de jogos de azar cresceu de forma expressiva no Brasil. Hoje, o país ocupa a terceira posição mundial em consumo de casas de apostas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Inglaterra, de acordo com dados da Comscore, empresa especializada em análise de dados.

O aumento desse hábito tem gerado preocupação entre especialistas da saúde, que veem o jogo como uma questão de saúde pública. Bruna Lopes, psicóloga e pesquisadora do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso (Proamiti), da Universidade de São Paulo (USP), afirma que a busca por tratamento de problemas relacionados a jogos de azar triplicou desde a liberação.

“Tem sido uma epidemia. O perfil inclui pessoas mais jovens, vulneráveis, sem parceiro e em condições socioeconômicas mais baixas. Também observamos associação com episódios de depressão e ansiedade”, explica Lopes.

Essa escalada nos números também foi confirmada pelo psiquiatra Marcelo Santos Cruz, coordenador do Programa de Estudos e Assistência ao Uso Indevido de Drogas e vice-diretor do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele destaca que o problema não se limita aos jogadores, mas afeta profundamente suas famílias. Além disso, a falta de regulamentação efetiva e políticas públicas claras agrava o cenário. “O que vemos é um crescimento enorme dessas atividades, tanto nos jogos de celular quanto nas apostas esportivas, e muito pouco controle governamental. Isso é extremamente preocupante do ponto de vista da saúde mental”, alerta o psiquiatra.

Tratamento e ajuda

Para que alguém consiga deixar a compulsão em bets, o tratamento deve ser multidisciplinar. É preciso que o indivíduo receba um acolhimento e não sofra julgamentos e estigmas. Para aqueles que conhecem alguém em situação semelhante, a recomendação é promover conversas abertas e empáticas.

Martins chegou a ouvir de pessoas próximas e de seus familiares que aquilo era “safadeza” e frescura. Foi só depois de se abrir para a irmã e para o pai, que ele conseguiu ser ouvido e segue em acompanhamento com um psicólogo e psiquiatra. “Tomo remédio controlado para evitar impulsos. Não tenho acesso ao meu dinheiro, que é totalmente gerido ainda pelo meu pai”, conta.

Para dar início a um tratamento adequado, o primeiro passo é que a pessoa tome iniciativa e queira receber ajuda. Também é recomendado usar aplicativos que bloqueiam sites de casas de apostas e cancelar ou excluir o cadastro para não receber nenhum tipo de notificação. “É importante trabalhar os gatilhos e fazer com que a pessoa consiga acessar outras atividades prazerosas”, reforça Lopes.

O tratamento deve ser feito com um psicoterapeuta especializado em terapia cognitivo comportamental, e que possa direcioná-lo nas ações cotidianas, com o intuito de diminuir os riscos da prática. Em alguns casos, o uso de medicação também é indicado.

Caso o indivíduo não tenha recursos para fazer um tratamento privado, o recomendado é procurar Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem atendimento gratuito e que pertencem ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Existem ainda grupos de mútua ajuda, como os Jogadores Anônimos e os Devedores Anônimos, que podem auxiliar no processo. “Há muitos recursos e é importante que a pessoa e as famílias saibam que podem e devem buscar ajuda quando se identificarem em uma situação desse tipo”, reforça Cruz.

Bets precisam ser proibidas de anunciar na TV e patrocinar time de futebol

É uma brincadeira de mau gosto que anúncios de bets, multicoloridos, trazendo sorridentes influenciadores, prometendo mundos e fundos, sejam encerrados com o alerta “jogue com responsabilidade”. Qualquer tigrinho com problemas de cognição sabe que as casas de apostas lucram exatamente com o comportamento compulsivo promovido por elas mesmas. É tipo um traficante na “cracolândia” vender uma pedra e alertar: fume com moderação.

O Congresso Nacional não deveria ter aprovado o funcionamento desse tipo de empresa sem a previsão de cobrança de impostos do tamanho do buraco na saúde pública e nas famílias que isso. E sem a proibição de anúncios e patrocínios que bombem o nome das bets. Ações tomadas agora não vão corrigir o estrago causado, mas podem mitigá-lo.

Há projetos apresentados para proibir a propaganda desses caça-níqueis digitais na TV, no rádio, nas redes sociais, nos portais e sites, como os da deputada Gleisi Hoffmann e do senador Randolfe Rodrigues. Se o vício em crack, que faz tão mal quanto, como escrevi aqui ontem, não pode ser incentivado no intervalo da novela, o das apostas também não.

Mas os legisladores também precisam proibir o patrocínio de bets a times de futebol. Hoje, a maioria da série A do Campeonato Brasileiro ostenta uma variedade de nomes de casas de aposta no peito de dos jogadores, vistos como exemplos e heróis por muita gente.

“Ah, mas isso vai cortar recursos e inviabilizar o esporte!”, defendem alguns. Bem, amo o futebol, mas se ele se tornou algo que só vai funcionar se ajudar a promover a pilhagem de trabalhadores, então o futebol é que é inviável.

Ninguém aqui está falando em proibir a operação das casas de apostas até porque o gênio já saiu da garrafa, a pasta deixou o tubo, e qualquer outra analogia que represente a irreversibilidade do fato consumado. Mas é possível reduzir o tamanho do estrago se a preocupação com a saúde pública falar mais alto que o lobby da jogatina.

Há duas décadas, não convivemos mais com anúncios de tabaco na TV, apesar de cigarro ser vendido normalmente. Tampouco, Marlboro estampa camisas de times de futebol. E ninguém morreu por isso. Pelo contrário.


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