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Especial
A dimensão da seca e dos incêndios que atingem o Brasil
Publicado em 13/09/2024 3:21 - Fabíola Sinimbú (Agência Brasil), Maurício Frighetto (DW), Leandro Prazeres (BBC Brasil) – Edição Semana On
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De janeiro a agosto de 2024 os incêndios no Brasil já atingiram 11,39 milhões de hectares do território do país, segundo dados do Monitor do Fogo Mapbiomas, divulgados na quinta-feira (12). Desse total, 5,65 milhões de hectares foram consumidos pelo fogo apenas no mês de agosto, o que equivale a 49% do total deste ano.
Nesses oito primeiros meses do ano, o fogo se alastrou principalmente em áreas de vegetação nativa, que representam 70% do que foi queimado. As áreas campestres foram as que os incêndios mais afetaram, representando 24,7% do total. Formações savânicas, florestais e campos alagados também foram fortemente atingidos, representando 17,9%, 16,4% e 9,5% respectivamente. Pastagens representaram 21,1% de toda a área atingida.
Para o período, os estados do Mato Grosso, Roraima e Pará foram os que mais atingidos, respondendo por mais da metade, 52%, da área alcançada pelo fogo. São três estados da Amazônia, bioma mais atingido até agosto de 2024. O fogo consumiu 5,4 milhões de hectares do bioma nesses oito meses.
O Pantanal, até agosto de 2024 queimou 1,22 milhão de hectares, um crescimento de 249% nas áreas alcançadas por incêndios, em comparação à média dos cinco anos anteriores. A Mata Atlântica teve 615 mil hectares atingidos pelo fogo, enquanto que na Caatinga os incêndios afetaram 51 mil hectares. Já os Pampas tiveram apenas 2,7 mil hectares no período de oito meses.
Na comparação entre agosto de 2023 e de 2024, os incêndios afetaram 3,3 milhões de hectares a mais este ano, registrando um crescimento de 149%. De acordo com a instituição, foi o pior agosto da série do Monitor de Fogo, iniciada em 2019.
Os estados do Mato Grosso, Pará e Mato Grosso do Sul foram os mais atingidos no mês. Chama a atenção o crescimento de 2.510% sobre a média de agosto de incêndios no estado de São Paulo, em relação a média dos últimos seis anos. Foram 370,4 mil hectares queimados este ano, 356 mil hectares a mais do que nos meses de agosto de anos anteriores.
“Grande parte dos incêndios observados em São Paulo tiveram início em áreas agrícolas, principalmente nas plantações de cana-de-açúcar, que foram as áreas mais afetadas do estado”, destaca a pesquisadora Natália Crusco.
Os biomas Cerrado e Amazônia, foram os que mais queimaram, representando respectivamente 43% e 35% e de toda a área antiqueimada no Brasil no período.
De acordo com a coordenadora técnica do Monitor do Fogo, Vera Arruda, o aumento das queimadas no Cerrado foi alarmante em agosto “O bioma, que é extremamente vulnerável durante a estiagem, viu a maior extensão de queimadas nos últimos seis anos, refletindo a baixa qualidade do ar nas cidades.”
A dimensão da seca e dos incêndios que atingem o Brasil
Rios secam. Ribeirinhos andam por bancos de areia quente onde antes havia água. Brigadistas combatem incêndios em todos os biomas brasileiros. Animais sofrem com a sede e morrem queimados pelo fogo. A fumaça espalha-se pelo país, afetando a saúde de milhões de pessoas e deixando o pôr do sol entre alaranjado e avermelhado. Tudo isso é reflexo da maior seca que atinge o Brasil pelo menos desde 1950.
Profissionais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já percebiam que a seca seria grave neste ano. Na semana passada, divulgaram uma nota confirmando a gravidade do problema a partir de uma série de informações colhidas a partir de 1950. “Olhando dados diferentes nós chegamos à mesma conclusão: é a seca mais extensiva, a mais intensiva e a mais duradoura”, explicou a pesquisadora e especialista em secas do Cemaden, Ana Paula Cunha.
A falta de chuvas explica, em parte, outro fenômeno que assola o Brasil: os incêndios. Dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também mostram recordes na série de medições, que teve início em 2012. Neste ano, cerca de 21,7 milhões de hectares foram queimados na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal – uma área maior que o estado do Paraná.
“Estamos em um momento emergencial. Temos que cuidar da saúde, principalmente dos mais vulneráveis, e não piorar a situação. Então, de forma nenhuma fazer nenhum tipo de fogo”, orientou a professora do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB) Isabel Belloni Schmidt.
“Nesta época todas as queimas são humanas. Não existe queima natural na seca. As queimas naturais são por raios e só acontecem quando está tendo chuva,” frisou Schmidt. E as previsões indicam que a situação não deve melhorar até o fim do ano.
O tamanho e a intensidade da seca
A seca atual atinge cerca de 59% do território brasileiro. “Olhando para o gráfico há algumas secas em destaque, como a de 1997 e 1998, que afetou basicamente a região Norte e parte da região Nordeste e foi decorrente de um El Niño. Depois teve a seca de 2015 e 2016, que foi muito extensiva e afetou grande parte do Centro-Norte do país. Agora, na seca que teve início em 2023 e continua até hoje, é a primeira vez que vemos essa condição de Norte a Sudeste do país”, avaliou a pesquisadora do Cemaden.

Outra forma de olhar para o fenômeno é por meio do Índice de Precipitação Padronizado de Evapotranspiração (SPEI, na sigla em inglês). O indicador é medido por dois aspectos: a quantidade de chuva que cai e a quantidade de água que se perde pela evaporação, como do solo e dos rios, e pela transpiração das plantas.
“É um indicador de disponibilidade de umidade, de disponibilidade hídrica. Quanto mais negativo é o índice, menor é a precipitação e maior é a evapotranspiração. Ou seja, causa um balanço negativo de disponibilidade hídrica”, explicou Cunha. Os dados da seca atual, mesmo que parciais, já apresentam valores de SPEI mais negativos, indicando ser a mais intensa e extensa da série histórica.
De acordo com Ana Paula Cunha, a seca deve piorar no Nordeste. “Muito provavelmente os últimos meses serão mais críticos no Nordeste. Vai ser uma seca mais curta, mas pode ter impacto porque a região é mais vulnerável no aspecto socioeconômico e vai coincidir justamente com o início do ciclo agrícola da agricultura familiar”.

A previsão indica uma melhora no cenário apenas na virada do ano. Um dos fatores que deve ajudar é a formação do La Niña, fenômeno natural que gera um resfriamento das águas em uma faixa do Oceano Pacífico e altera as condições climáticas. Com isso, espera-se mais chuva, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.
“Pode ser que com a La Niña as chuvas sejam, pelo menos, dentro da média na maior parte do país. Mas o sinal se inverte para o Rio Grande do Sul, que passou por uma inundação e vai voltar a ter uma seca. Lembrando que o Rio Grande do Sul passou por uma seca muito intensa antes da inundação. O estado ainda estava respondendo quando veio a grande inundação”, analisou a especialista do Cemaden.
Manejo do fogo
Se, no curto prazo, é preciso evitar as queimadas e combater os incêndios, no médio e longo prazo a solução passa por atitudes que gerem um meio ambiente mais equilibrado, como o combate ao desmatamento, sugeriu a professora Isabel Belloni Schmidt. Oito das 12 bacias hidrográficas do Brasil, por exemplo, dependem do Cerrado. Na medida em que a vegetação desse bioma é perdida, por fogo ou por processos agrícolas intensivos, menos água chega ao Pantanal.
A Amazônia também leva água ao Sudeste e ao Sul por meio dos rios voadores. O desmatamento do bioma, portanto, contribui com a seca, agravada pelas mudanças climáticas. Os incêndios e o desflorestamento também estão muito associados, mesmo que os índices estejam caindo na região.
“Muitas vezes você tem o incêndio nas áreas que foram desmatadas anteriormente porque viraram pasto. Então não é automático [a queda do desmatamento e queda dos incêndios]. Por isso há projetos de lei tramitando no congresso para proibir a venda de terras que foram incendiadas. Porque é uma forma de grilagem, de uso da terra”, avaliou Schmidt.

Outra solução para combater os incêndios, após o período de crise, é o Manejo Integrado do Fogo (MIF). Em julho, foi promulgada uma lei sobre o tema e, na terça-feira (10/09), o governo publicou um decreto para a formação de um comitê nacional e do Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal).
Segundo a professora, que coordena a frente de MIF na Rede Biota Cerrado, a prática é uma forma de pensar a paisagem considerando o fogo como um elemento. “No Cerrado, você vai considerar o fogo como um elemento natural e humano, porque as pessoas usam fogo por diversos motivos. Na Amazônia, você vai considerar que o fogo é apenas um elemento humano, mas você vai considerar que ele existe e vai partir dessa perspectiva para planejar o seu ambiente de forma a diminuir incêndios.”
As queimas precisam ser realizadas em períodos mais úmidos para que o fogo seja menos potente e não se alastre de forma incontrolável. Dessa forma, será atingida a vegetação muito seca, chamada de combustível pelos ecologistas, criando mosaicos na paisagem. E, na próxima vez que a área for atingida por um incêndio, não será tão afetada. “Então ela tem formatos muito mais variados e vai funcionar com uma barreira.”
Há outra sugestão que a professora da UnB tem repetido: colocar o tema em pauta nas eleições municipais. “No histórico brasileiro não temos governantes que de fato entendem e colocam o meio ambiente como uma pauta, inclusive porque a sociedade não entende que isso é importante. Mas passar por essa tragédia climática talvez coloque isso na pauta”.
O G20 já sabe: o Agro é Fogo!
Uma reunião promovida pelo G20 em Mato Grosso que tinha como um dos seus objetivos servir como vitrine do agronegócio sustentável do Brasil está tendo como pano de fundo uma tragédia climática de dimensões históricas.
O Brasil realiza, desde ontem (10/9), um encontro de ministros da agricultura de países do G20, grupo das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia e a União Africana. O encontro foi levado para o um resort às margens do Lago de Manso, no município de Chapada dos Guimarães, um conhecido destino turístico de Mato Grosso.
O Estado é dono da maior produção de grãos e do maior rebanho bovino do país. O ministro da agricultura, Carlos Fávaro, deixou claro o que esperava da reunião.
“Vamos mostrar nosso potencial em produzir alimentos de forma sustentável”, disse na segunda-feira (9/9).
Mas a área onde a reunião acontece é uma das muitas do país que está encoberta por fumaça devido às queimadas recordes que atingem o país neste ano.
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Mato Grosso é o campeão no ranking de focos de incêndio neste ano e imagens de satélite vêm mostrando nos últimos dias que enormes partes do Estado, inclusive a região de Chapada dos Guimarães, estão sofrendo com os efeitos das queimadas.
Segundo oficiais do governo, parte considerável desses incêndios está relacionada com o aumento da área de pastagens ou abertura de novas fronteiras agrícolas em biomas como o Pantanal, Cerrado e Amazônia.
De acordo com especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a ocorrência de tantas queimadas na região escolhida para ser a vitrine do agronegócio brasileiro compromete a imagem do Brasil no exterior e serve de alerta. Moradores da cidade onde o evento está sendo realizado dizem esperar medidas para evitar a repetição do cenário atual.
“Vimos à fumaça cobrir a cidade inteira”
De acordo com o governo brasileiro, os principais tópicos da reunião de ministros da agricultura do G20 em Mato Grosso serão: sustentabilidade nos sistemas agroalimentares; ampliação do comércio internacional para a segurança alimentar e nutricional; reconhecimento da agricultura familiar e o papel de camponeses e povos originários para sistemas alimentares; e promoção da integração da pesca e aquicultura nas cadeias globais.
Mato Grosso foi cuidadosamente escolhido pelo governo brasileiro para sediar a reunião de ministros da agricultura do G20, segundo Carlos Fávaro.
Fávaro, que é senador eleito pelo Estado, disse que Mato Grosso seria uma espécie de “símbolo” do modelo de agricultura do país.
“Estamos no Estado com a maior produção agropecuária do Brasil, o maior rebanho bovino do Brasil […] mas que é o símbolo da preservação ambiental”, disse Fávaro durante a abertura da reunião na terça-feira (10/9).
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado tem o maior rebanho bovino do país, com 34 milhões de cabeças de gado. Além disso, é o maior produtor de soja, milho e algodão.
Especialistas em agronegócio colocam o Estado como o “celeiro” do Brasil.
Por outro lado, o Estado aparece como o segundo maior desmatador da Amazônia (atrás apenas do Pará) no período entre 2022 e 2023.
De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), neste intervalo, o Estado perdeu 2 mil quilômetros quadrados de florestas, uma área maior do que a da cidade de São Paulo.
A situação em 2024 aponta a permanência de um cenário ambiental e climático dramático.
O Estado é o campeão nacional em número de focos de incêndio com 36,4 mil registros entre o início do ano e segunda-feira (9/9), de acordo com o Inpe.
É o maior número para o mesmo período desde 2007. Em relação ao ano passado, o crescimento foi de 215%, praticamente o dobro do crescimento médio registrado no país, que foi de 107%.
O município de Chapada dos Guimarães, onde a reunião do grupo de trabalho está sendo realizada, vem sendo pesadamente atingido pelas queimadas.
Nos últimos dias, brigadistas e bombeiros se mobilizam para controlar duas frentes de incêndio no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, um dos maiores do Brasil.
Na semana passada, as duas frentes estavam prestes a se juntar, desafiando o trabalho das equipes lideradas pelo Instituto Chico Mendes de Meio de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Em nota enviada à BBC News Brasil pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), o órgão disse que o ICMBio vem combatendo os incêndios no parque com 54 pessoas, entre brigadistas, funcionários do parque, voluntários e um avião.
O parque fica a cerca de 40 km da sede do município de Chapada dos Guimarães.
Mesmo defendendo a escolha do local para a reunião, Fávaro reconheceu que as delegações internacionais teriam sido impactadas pelas queimadas em seus trajetos entre Cuiabá e o resort onde o encontro está sendo realizado.
“Apesar das dificuldades momentâneas que o Brasil vive, com as queimadas, com a mudança do clima, vocês puderam perceber isso no transcorrer, na estrada. Mas é uma região em que o turismo é muito importante”, disse. Algumas das queimadas que atingem o Estado vêm afetando o tráfego em rodovias como a que conecta Cuiabá ao local da reunião.
“Beleza virou carvão”
Moradores de Chapada dos Guimarães ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que não foram apenas os membros das delegações internacionais que foram afetados pelas queimadas.
“Aqui nós vimos a fumaça cobrir a cidade inteira. Isso afeta a vida dos moradores e também a economia local, já que alguns atrativos turísticos foram fechados devido aos incêndios”, disse a bióloga Juliana Bonanomi, que vive na cidade.
A antropóloga Suzana Hiroka disse ter visto impactos em diferentes áreas da cidade por conta das queimadas.
“Na saúde, as queimadas acentuaram as doenças respiratórias. Quem tem asma ou bronquite está muito mal. As pessoas têm muita dor de cabeça, rouquidão ou nariz escorrendo. As mulheres e crianças são muito afetadas”, disse.
Hiroka destacou ainda os efeitos das queimadas na economia da cidade.
“Chapada vive do turismo. As queimadas fizeram o parque fechar vários pontos. A cidade vivia da sua beleza cênica, mas agora, essa beleza virou carvão”, disse.
Contradição e oportunidade
O climatologista Carlos Nobre foi um dos autores do Quarto Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU), que recebeu o Nobel da Paz em 2007, disse à BBC News Brasil que a realização da reunião dos ministros da agricultura do G20 é um momento de definição.
“Precisamos saber se o agronegócio vai continuar dizendo que não tem responsabilidade nenhuma no que está acontecendo no Brasil e no mundo ou se vamos ver alguma mudança nas políticas e uma indução de novas práticas que visem uma agricultura de baixo carbono”, disse à BBC News Brasil.
Segundo ele, historicamente, o agronegócio no Brasil tenta se eximir das responsabilidades pelas mudanças climáticas apesar de ser, na avaliação de Nobre, um dos principais responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa do Brasil.
Nobre afirmou que, em sua opinião, a realização desta reunião no atual contexto de queimadas fora de controle mancha a imagem do país.
“A imagem do país já está manchada porque todos os dados do Inpe apontam que essas queimadas foram causadas pela ação humana. Não estamos falando de descargas elétricas. Estamos falando de atividades criminosas”, disse o climatologista.
A diretora-executiva do Instituto Centro de Vida (ICV), Alice Thuault, disse à BBC News Brasil esperar que as condições nas quais a reunião acontece possa sensibilizar os participantes. O ICV é uma organização não-governamental que atua na defesa do meio ambiente em Mato Grosso há 33 anos.
“É uma tragédia o que está acontecendo aqui, mas acho que é importante que essa reunião seja realizada nesse contexto, nessa espécie de ‘pé do vulcão’. É importante que os participantes vejam claramente os impactos das mudanças climáticas em um local que é sempre apontado como um exemplo do agronegócio”, disse à BBC News Brasil.
Para a moradora de Chapada dos Guimarães Suzana Hiroka, o suposto foco em sustentabilidade da reunião de ministros da agricultura é uma contradição.
“É uma contradição porque Chapada dos Guimarães é um município de monocultura. Temos aqui grandes plantações de soja, algodão e o pequeno agricultor que faz a agricultura mais sustentável praticamente não aparece”, disse.
Alice Thault resume suas expectativas em relação à reunião em meio à fumaça.
“Estou torcendo para que as questões sobre o clima estejam, de fato, na pauta do encontro e que essa experiencia, por assim dizer, imersiva, valha alguma coisa”, disse.
A BBC News Brasil enviou questionamentos aos ministérios das Relações Exteriores (MRE), da Agricultura (Mapa) e do Meio Ambiente (MMA). Também foram enviadas questões à Secretaria de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso (Sema-MT).
Apenas o MMA respondeu informando sobre as condições do combate ao incêndio no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Nenhum dos outros órgãos enviou respostas.
O que é o G20
O G20 é um fórum internacional que reúne as principais economias do mundo, incluindo 19 países, a União Europeia e a União Africana. Oficialmente, o objetivo do grupo é promover a cooperação econômica global, comércio internacional e estabilidade financeira.
O grupo foi criado em 1999 e, mais recentemente, passou a abordar, também, temas relacionados às mudanças climáticas e segurança alimentar, duas das principais plataformas do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em 2023, o Brasil assumiu a presidência do G20 pela primeira vez e vem realizando uma série de reuniões preparatórias para a grande cúpula de chefes-de-Estado do grupo que será realizada entre os dias 18 e 19 de novembro, no Rio de Janeiro.
O Grupo de Trabalho do G20 sobre Agricultura é uma subdivisão do G20 e a reunião realizada em Chapada dos Guimarães é uma das que antecedem a cúpula principal de novembro.
“Resgatar os animais do Pantanal é salvar o futuro”
Em uma manhã de sol forte no fim de junho, profissionais especializados em resgate de animais andaram 12 quilômetros pelo Pantanal atingido por incêndios na região de Corumbá (MS). Duas horas após o início da caminhada em meio à fuligem e vegetação queimada, encontraram um grupo de macacos bugios com filhotes no alto de um ipê-roxo.
“A árvore pegou fogo, mas eles estavam bem no topo e se salvaram. Praticamente não tinham comida e nem se moviam”, relatou a médica-veterinária Paula Helena Santa Rita.
Santa Rita ficou feliz ao encontrar os animais vivos. Mas logo sentiu um desespero: como conseguiria ajudar aqueles animais ariscos? Situações como essa tornaram-se rotina na vida da médica-veterinária, bióloga e professora da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Ela é coordenadora operacional do Grupo de Resgate Técnico Animal Cerrado Pantanal (Gretap).
Vinculado ao governo do Mato Grosso do Sul, o Gretap é formado por órgãos governamentais, instituições privadas e entidades do terceiro setor. Surgiu em 2020, quando o Pantanal sofreu com os maiores incêndios de sua história e pelo menos 17 milhões de animais morreram. Desde então o grupo vem salvando a fauna.
Em maio, a equipe forjada no fogo teve um novo desafio. Foi chamada pelo governo do Rio Grande do Sul para atuar no resgate de animais nas inundações que assolaram o estado. Em 18 dias, os sete membros do grupo que atuaram em solo gaúcho socorreram, atenderam, vacinaram ou deram comida para cerca de 5 mil animais, principalmente cães e gatos.
Voltaram do Sul com uma cuia de chimarrão e dez quilos de erva-mate, presente dos gaúchos. Chegaram em Mato Grosso do Sul no dia 2 de junho e, no dia 20, já estavam em campo novamente. Agora para monitorar, avaliar e resgatar os animais dos incêndios que mais uma vez assolam o Pantanal.
Animais mortos, bugios ilhados
A temporada do fogo no Pantanal preocupa porque iniciou mais cedo e mais intensa neste ano. Considerando os primeiros seis meses, 2024 bateu o recorde de focos de incêndio segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – a medição ocorre desde 1998. Foram 3.538 focos, 39% a mais que no mesmo período de 2020. E a época mais crítica ainda está por vir, de agosto a outubro.
Walfrido Moraes Tomas liderou o estudo publicado na Scientific Reports que estimou em cerca de 17 milhões de animais vertebrados mortos diretamente pelos incêndios de 2020. De acordo com o pesquisador da Embrapa Pantanal, ainda não é possível estimar o impacto do fogo na fauna neste ano. “No entanto, sabemos que os incêndios causam impactos, como mortes direta e indiretas pelo fogo, degradação de habitats naturais, depleção de recursos, aumento da predação, perda de ninhos”, explicou.
Santa Rita disse que a situação ainda não pode se comparar a de 2020. Mas há muitos animais mortos, principalmente répteis, como cobras e jacarés, anfíbios, como sapos e rãs, e aves. Os bichos morrem incinerados, por excesso de calor ou mesmo pela inalação de fumaça.
No caso dos bugios encontrados no ipê-roxo no fim de junho, eles praticamente não tinham o que comer e poderiam ser vítimas de predadores. A família era formada por dois machos, três fêmeas e dois filhotes recém-nascidos. A informação de que os animais estavam em perigo fora dada por catadores de iscas das matas pantaneiras.
Ao chegarem ao local, os especialistas avistaram os bugios. Com binóculos, drone e paciência, analisaram a situação. “Nós não derrubamos [capturamos] todos os animais que encontramos”, explicou Santa Rita. “A gente faz uma avaliação clínica e categoriza o bicho. A proposta é intervir o mínimo possível na vida dos animais silvestres.”
A conclusão foi de que a melhor estratégia seria fornecer alimentos, como frutas e leguminosas, e monitorar a situação daqueles animais por meio de armadilhas fotográficas. No fim de junho e início de julho, o Gretap atendeu de forma semelhante outras três famílias de bugios. A equipe de sete profissionais, que se revezam de tempos em tempos, segue na região para avaliar a situação desses e de outros animais.
Onças resgatadas em 2020
Neste ano, o Gretap não precisou capturar nenhum animal. Mas, às vezes, esse recurso é necessário, como ocorreu em 2020. Brigadistas que combatiam o fogo viram uma onça-pintada debilitada e avisaram a força-tarefa. O grupo encontrou o animal e o observou durante 28 horas até ter certeza de que o atendimento seria necessário.
A onça havia se abrigado em uma casa abandonada, mesmo refúgio usado por outra onça. E além de precisarem socorrer os dois felinos, o rifle que usariam para sedar os animais falhou. Recorreram a uma zarabatana – uma arma onde o dardo é lançado por sopro.
Os animais foram transportados pela Força Aérea Brasileira para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras) em Campo Grande. Como havia apenas uma gaiola na aeronave, uma das onças – sedada – seguiu viagem nos pés de Santa Rita. Uma delas morreu, mas a outra se recuperou e foi reintroduzida na natureza. O projeto Felinos Pantaneiros monitorou o bicho por um ano e meio e descobriu que ele procriou com mais de uma fêmea e deixou filhotes.
Seres irracionais
Enquanto as mudanças climáticas causadas pelo homem geram extremos como incêndios e inundações, os desastres naturais também mostram os extremos da relação dos humanos com os animais. No Rio Grande do Sul, os membros do Gretap puderam perceber essa contradição.
Em uma das tentativas de resgate, encontraram um cachorro morto afogado que estava preso a uma corrente. “Não sei o que passa na cabeça do ser humano. Acho que o irracional somos nós”, refletiu Santa Rita.
Por outro lado, a médica-veterinária ficou tocada pela história de uma senhora. Ela, junto com os filhos, teve que sair da casa inundada, mas não conseguiu levar o gato de estimação.
Tentou voltar algumas vezes à residência, mas não conseguia achá-lo. Até que encontrou a equipe do Gretap. Uma médica-veterinária especialista em pequenos animais conseguiu resgatar o bicho, assim como outros quatro animais de seus vizinhos.
Resgate da cultura
Na avaliação de Walfrido Moraes Tomas, “houve uma melhora substancial nas estratégias de combate aos incêndios” em relação a 2020. Mas na sua avaliação é preciso reforçar a educação. “O fator humano é o desencadeador potencial dos incêndios. Neste sentido, é o ponto mais crítico dos fatores que interagem para resultar em incêndios catastróficos. É onde a atuação das instituições públicas e privadas deve ser mais fortalecida, de forma a sensibilizar as pessoas quanto aos efeitos e custos do fogo errado e do combate aos incêndios”.
Segundo Tomas, tanto as cheias como o fogo são importantes no Pantanal. Mas o pesquisador defende o resgate da cultura pantaneira. “É preciso resgatar o conhecimento tradicional do uso do fogo, que está sendo perdido. Trata-se da queima ‘no cedo’ (ao final das chuvas, com a vegetação campestre ainda verde) ou ‘no tarde’ (após as primeiras chuvas no final do ano), bem como queima de macegas e campos, nunca florestas.”
Tomas disse admirar o trabalho do Gretap. “É preciso esclarecer o público que é humanamente impossível atender animais atingidos numa escala como a dos incêndios do Pantanal. A fração atendida pode ser ínfima em relação à dimensão da tragédia, mas ele se reveste de um componente ético fundamental. Atender animais feridos nos incêndios, o máximo que a capacidade permitir, é louvável e merece todo apoio.”
Santa Rita vê a atuação da equipe como um trabalho de formiguinha perto da destruição que o Pantanal vive. Ela espera que o maior empenho das instituições públicas e privadas neste ano dê resultado. “Mas estamos nos organizando para minimizar o impacto e tentar conservar o máximo a biodiversidade desse bioma”, disse. “Se um filhote, como do bugio, chegar na fase adulta e se reproduzir, nós ganhamos. Resgatar os animais é salvar o futuro.”
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