20/06/2024 - Edição 540

Especial

FÉ NA POLÍTICA

Messianismo eleitoral fomenta mistura entre religião e política

Publicado em 31/05/2024 11:19 - Amanda Audi e Danilo Queiroz (Agência Pública), Sebastián Godínez Rivera e Anna Virginia Balloussier, Ana Luiza Albuquerque e Angela Pinho (Folha de SP), Carta Capital

Divulgação Victor Barone - Midjorney

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Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente do Brasil a participar de uma Marcha para Jesus, em 2019. Na ocasião, foi fotografado fazendo gesto de “arminha”, como se estivesse executando alguém que estava no chão. Em 2022, em busca da reeleição (que não veio), ele participou da marcha em Vitória, no Espírito Santo, ao lado do senador evangélico Magno Malta (PL-ES) e outros candidatos que iriam concorrer nas eleições daquele ano. Entre a multidão, era possível ver uma arma gigante e um caixão com o símbolo do Partido dos Trabalhadores (PT). Fazia poucas semanas que um petista havia sido morto por um bolsonarista após uma discussão política.

Para pesquisadores que estudam o desenvolvimento da Marcha para Jesus no país – que é organizada pela Igreja Renascer em Cristo, do apóstolo Estevam Hernandes e da bispa Sônia, desde 1993, e foi crescendo à medida que a população se tornou mais evangélica –, esses acontecimentos são simbólicos de como o evento se consolidou como um palanque político nos últimos anos. Com privilégio mais evidente de políticos de direita e extrema direita.

Este ano, a Marcha para Jesus do Rio de Janeiro teve participação de pré-candidato à prefeitura e ataques ao STF. No ano passado, a Marcha na capital paulista reuniu aproximadamente 3 milhões de pessoas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foi à marcha em São Paulo. Ele respondeu com uma carta em que agradecia pelo “honroso convite” e enviou como representantes a deputada Benedita da Silva (PT) e Jorge Messias, advogado-geral da União, que foi vaiado durante seu discurso. Na edição deste ano, realizada ontem (30), Messias foi novamente o representante do presidente.

A aprovação do governo Lula entre os evangélicos segue baixa. Na opinião de Christina Vital, professora do Departamento de Sociologia e coordenadora do Laboratório de Estudos Sócio-Antropológicos em Política, Arte e Religião da Universidade Federal Fluminense (UFF), a esquerda ainda falha na comunicação com esse público.

“Os políticos religiosos à esquerda que defendem as pautas de interesse direto da maioria da população evangélica encontram grande dificuldade de diálogo com seu próprio grupo religioso, e isso vem favorecendo os políticos e líderes mais à direita”, diz a pesquisadora.

Por outro lado, Raquel Sant’Ana, antropóloga e pesquisadora do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pontua que a direita, nos últimos anos, investiu “sistematicamente recursos, quadros e elaborou projetos que incluem os evangélicos de um modo que a esquerda não faz”.

Sant’Ana pesquisa manifestações evangélicas na esfera pública brasileira. Um dos pontos do seu trabalho é a teologia do domínio, que defende a disputa do poder terreno por aqueles que querem implementar o reino de Jesus na Terra – o que valorizou a atuação de alguns grupos evangélicos na política institucional e na mídia.

“Também é importante notar”, ela continua, “que quem teve os melhores recursos para realizar essa disputa foi quem se associou à ditadura. Muitas concessões de rádios gospel, por exemplo, foram fruto dessa relação. Assim como o acesso a postos importantes na política local. Por outro lado, a esquerda evangélica, desmobilizada durante o regime, priorizou outras frentes de organização política e defendeu durante muito tempo que era necessário separar religião e política, deixando o terreno livre”.

De acordo com Vital, a associação com a direita se intensificou ao longo do tempo. “Embora essa associação já fosse verdadeira durante a Constituinte de 1987, vários parlamentares evangélicos que compunham a chamada ‘bancada evangélica’ votavam em favor de pautas sociais ligadas ao combate às desigualdades sociais, de acesso à saúde e educação”, diz.

“Mas, com o fortalecimento de um perfil de evangélicos empresários dos setores principalmente de comunicação, segurança, agronegócio, saúde e educação, o posicionamento político e o alinhamento com interesses de partidos à direita e liberais em termos econômicos foi se tornando orgânica, de modo que observamos nas votações desses parlamentares posicionamentos contrários às demandas sociais de suas bases”, afirma.

De evento evangelístico a palanque

A Marcha para Jesus se autodenomina como “maior evento popular cristão do mundo”. Ela se afirma como uma clara demonstração da capacidade de mobilização e da força da população evangélica no país. Este ano, ao menos 13 mil caravanas de fiéis de diferentes denominações evangélicas e estados participaram da edição da capital paulista, com caminhada da Luz até a praça Heróis da FEB, onde um palco com megaestrutura de som e luz estará montado para shows de música gospel.

Em suas mais de quatro décadas, a Marcha para Jesus deixou de ser apenas um evento de música e oração, como demonstra a ativa participação de políticos que figuram no trio principal, comandado pelo apóstolo Estevam Hernandes e pela bispa Sônia e nos discursos feitos no palco.

No Brasil, a primeira Marcha para Jesus, realizada em São Paulo em 1993, reuniu 350 mil pessoas. A pesquisadora Raquel Sant’Ana explica que o crescimento do evento coincide com a chamada “explosão gospel” nos anos 1990 e a consolidação da Frente Parlamentar Evangélica no Legislativo.

“Esses movimentos ofereceram um repertório comum de músicas, programas de televisão e agenda política, que passou a circular além das igrejas específicas, por um público amplo”, explica.

Nos anos 2000, a marcha já tinha virado um megaevento. “A partir de 2013, com o retorno das mobilizações de rua como modelo de ativismo político e a maior organização da chamada nova direita, as atividades de preparação da marcha, com caravanas de bairros e de igrejas, a elaboração de cartazes próprios, camisas de movimentos com pautas próprias e outros modos de manifestação do público passaram a ser mais comuns”, diz a pesquisadora.

Foi durante esse período que a Igreja Renascer tornou-se pouco a pouco um conglomerado de mais de 800 templos, escolas, gravadoras e emissoras de rádio e TV. Hoje, o apóstolo Estevam Hernandes preside e é sócio de seis organizações, sendo duas empresas de publicidade, uma de empresários evangélicos ligados à Renascer, uma produtora musical, um instituto teológico e a Marcha para Jesus.

Foi durante a reeleição de Lula à Presidência, em 2009, que a celebração passou a ser incluída no calendário oficial do país. A lei, sancionada pelo presidente, é de autoria do senador Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), que já foi um dos bispos da Igreja Universal, presidida pelo seu tio Edir Macedo.

Já em São Paulo, estado que representa o centro da Marcha para Jesus no país, no ano passado o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sancionou uma lei que declara o evento como patrimônio cultural de natureza imaterial do estado.

Em campanha este ano, Tarcísio mais uma vez estará presente no evento, acompanhado do prefeito da cidade, Ricardo Nunes (MDB), que acena para o eleitorado evangélico numa tentativa de se reeleger. A confirmação deles se deu a partir de postagens nas redes sociais, inclusive, convidando a população para participar.

Nesse sentido, as edições dos anos 1990 eram apenas uma aposta, dialogavam com a mobilização nacional gerada com o impeachment do presidente Collor, mas ainda eram muito identificadas com a Igreja Renascer em Cristo, não havia adesão de um público e um arco de alianças abrangente como o de hoje.

A “explosão gospel”, como a pesquisadora Magali Cunha chama o desenvolvimento da indústria cultural evangélica nos anos 1990, e a consolidação da Frente Parlamentar Evangélica deram essas condições, pois ofereceram um repertório comum  músicas, programas de TV e agenda política que passou a circular além das igrejas específicas, por um público amplo.

Isso deu às versões do evento nos anos 2000 um perfil muito bem-sucedido como megaevento musical. A partir de 2013, com o retorno das mobilizações de rua como modelo de ativismo político e a maior organização da chamada nova direita, as atividades de preparação da marcha com caravanas de bairros e de igrejas, a elaboração de cartazes próprios, camisas de movimentos com pautas próprias e outros modos de manifestação do público, paralelas à programação do palco, passaram a ser mais comuns.

A marcha de São Paulo, em especial, que sempre valorizou a institucionalidade e a participação de representantes dos executivos municipal, estadual e nacional, independentemente do seu espectro político, é tratada como uma prova da relevância do evento. A necessidade de respeitar e orar pelas “autoridades” é sempre defendida pelos apresentadores e pela organização. O que não quer dizer que o público não tenha suas próprias ideias e medidas do respeito devido (ou não) a esses políticos. Em 2018, por exemplo, a participação de Jair Bolsonaro, ainda na condição de parlamentar e candidato, inspirou algumas vaias, junto aos gritos de “mito” e aplausos.

“Nas marchas para Jesus sempre esteve presente a ideia de criar um Brasil para Cristo com hegemonia evangélica”, explica. “No entanto, desde o governo passado, as marchas para Jesus foram se tornando não só um evento religioso e cultural, mas também político, ainda que vários evangélicos que frequentam resistam a isso”, completa.

Religião e populismo

Durante a segunda década do século 21 vimos a ascensão do populismo em vários países. Diferente dos perfis tradicionais de mão dura, que lutam pelo livre mercado e pela família, os personagens atuais somaram uma nova variável: a religião. Desde a origem dos Estados-nação, a fé está presente, mas agora ela imita a política, e é por isso que cunhei o termo messianismo eleitoral.

Ao longo da história, a religião foi a pedra angular dos sistemas monárquicos, inclusive em grandes tratados como o “Leviatã” de Hobbes, o “Segundo Tratado sobre o Governo Civil” de Locke, os “Seis Livros da República” de Jean Bodin, a “Suma Teológica” de São Tomás de Aquino e a “Cidade de Deus” de Santo Agostinho. O que esses textos têm em comum é que conceberem o mandato divino como a fonte do poder político.

A palavra messianismo tem uma carga ligada à salvação, à redenção e ao renascimento de um ser ou nação. Também está relacionada a uma cosmovisão em que uma pessoa muda o rumo de uma sociedade através do cumprimento de uma missão divina. Em termos dogmáticos, independente da religião, um Deus ou entidade suprema vem à Terra para limpar os pecados das pessoas.

Em alguns casos, a adjetivação de certas lideranças com essa palavra implica uma carga pejorativa; no entanto, para os fins do texto, o conceito se refere a políticos que usam a religião como estratégia para consolidar seus projetos políticos. Da mesma forma, esses personagens listam uma série de soluções para problemas como pobreza, insegurança, violência, crise econômica e democrática, mas nunca mencionam as políticas públicas, os recursos e a estratégia a seguir.

Esses líderes apelam ao mimetismo entre eles e o que chamam de “o povo”, que pode ser entendido como uma massa ou setor da população que os apoia e respalda em suas propostas. Na ciência política, falar de povo é entendido como um conceito vazio, como diria Jacques Rancière, em que ninguém pode explicar suas características. No entanto, concluiu-se que essa palavra pretende homogeneizar e apagar as diferenças de cidadania.

Ora, povo e religião têm uma relação simbiótica, pois as escrituras religiosas falam do povo de Deus, da opressão do povo santo ou da libertação do rebanho sagrado (sinônimo de povo). Nesses tempos, os líderes carismáticos construíram uma cosmogonia religiosa como um Jesus revolucionário e rebelde, de acordo com Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela, que consideram esse personagem um lutador de esquerda.

Outro exemplo pode ser encontrado no México com Andrés Manuel López Obrador, que deu conotações religiosas ao seu partido, Morena, que foi fundado em 12 de dezembro de 2014, o dia da Virgem de Guadalupe. Da mesma forma, em seus discursos, fez uso de elementos religiosos, como o Sagrado Coração de Jesus, para enfrentar a pandemia de Covid-19; também mencionou que é melhor ter um par de sapatos em vez de vários, já que se peca por soberba e é melhor viver na pobreza de forma digna.

Há outros exemplos, como o lema “Deus, pátria e família” de Jair Bolsonaro (PL) no Brasil para atrair o voto evangélico, apelando à família tradicional e ao nacionalismo brasileiro. Após sua derrota nas urnas em 2022, seus apoiadores oraram perto de quartéis militares e pediram a Deus um golpe de Estado para evitar a ascensão de Lula da Silva.

Por outro lado, nos Estados Unidos, Donald Trump implementou ritos religiosos ao terminar seus comícios para atrair o voto evangélico. O trumpismo conseguiu transformar a paixão política em devoção à sua personalidade; seus apoiadores acreditam fervorosamente que o ex-presidente tem uma missão, que é tornar os Estados Unidos grande novamente.

Ao revisar outros populistas fora do continente americano, encontramos, por exemplo, Narendra Modi na Índia, que busca consolidar um modelo de democracia hindu, dando prioridade às pessoas dessa religião e deixando de lado outras religiões. Na Turquia, o projeto de Recep Tayyip Erdogan é abolir o Estado laico para erguer uma democracia islâmica que sustente suas práticas autoritárias.

Para entender esse novo fenômeno, é necessário observar a crise da democracia que foi estudada por cientistas políticos como Adam Przeworski, John Keane, Pippa Norris e Arent Liphart. Esses autores analisaram a insatisfação com o pluralismo, o diálogo e a política tradicional: o mal-estar se generalizou a ponto de os cidadãos não confiarem mais nos políticos ou partidos tradicionais. Esse é o ponto crucial do motivo pelo qual a fé se tornou um motor de campanhas e candidatos outsiders ou autoritários.

As religiões se tornaram uma ferramenta para que os eleitores voltem a acreditar nos candidatos. Ao longo do século 20, a presença de um líder carismático, como diria Max Weber, bastou para seduzir as massas em várias partes do mundo. Agora, no entanto, o populismo se misturou à religião para sacralizar a política e transitar de um modelo de confiança e vigilância no qual os políticos são responsabilizados para um modelo no qual os cidadãos se tornam crentes em um personagem.

Precisamos repensar a erosão democrática e o desgaste do modelo de prestação de contas, que está sendo substituído por dogmas. Um dos problemas que concebo é que os novos autoritarismos usam a religião como base de seu poder e, assim, tentam dotar os políticos de misticismo, de modo que a base social se torne crente.

A política não é uma questão de fé; é para isso que servem as igrejas ou os templos, não os políticos. Entretanto, quando o dogma prevalece sobre a razão, a política e a cidadania perdem terreno e as sementes do fanatismo são plantadas. Um país fanático por uma pessoa ou líder abre a porta para a violência e a censura com base no fato de que apenas um ponto de vista é permitido.

Influência de religião no mandato é admitida por mais deputados, mostra pesquisa

Nove em cada dez deputados federais são cristãos, e suas crenças vêm se esparramando pela atividade parlamentar mesmo na esquerda, grupo que até pouquíssimo tempo atrás se dizia mais imune à influência religiosa no dia a dia do Congresso.

É o que indica uma pesquisa da Genial/Quaest feita entre abril e maio com 183 (35%) dos 513 representantes da Câmara. A amostra respeitou proporções regionais e ideológicas da Casa —quantos são de esquerda, centro ou direita. A margem de erro é de cinco pontos percentuais para mais ou para menos.

Os deputados federais são 60% católicos e 30% evangélicos. O restante se divide entre quem tem outra (3%) ou nenhuma (6%) religião, e o 1% que não soube ou quis responder.

Entre os que professam uma fé, 67% afirmam que ela influencia seu trabalho em Brasília, enquanto 23% negam a hipótese e 9% dizem que depende do tema. Um salto se comparado com a pesquisa realizada pelo instituto em agosto de 2023, quando 44% responderam que a religiosidade contaminava sua trilha parlamentar, 39% refutavam essa ideia e 15% diziam depender do que está em jogo.

A identidade evangélica aumenta as chances do deputado admitir que a crença intervém no expediente: 81%. Noves meses atrás, metade desse grupo respondeu o mesmo. Entre católicos, a proporção é de 61% agora e 41% no levantamento anterior.

Como é de se esperar, parlamentares de direita, mais inclinados a discursos religiosos, são mais suscetíveis a inseri-los em seu exercício político. O que chama atenção, mais uma vez, é como essa predisposição disparou de agosto para cá: se antes 56% do bloco a assumia, hoje são 77%. Entre deputados de centro, o galope foi de 45% para 73%.

Vêm desses dois estratos o grosso das bancadas evangélica e católica do Congresso.

Na esquerda, a bola é dividida: 48% rejeitam a ingerência da fé em decisões parlamentares, e 46% afirmam que sim, isso acontece —os outros 6% analisam caso a caso. Como era na última pesquisa: apenas 25% admitiam participação da fé no ofício, 54% descartavam a premissa e 21% diziam depender.

A dilatação da influência da fé no Congresso não espanta especialistas da área. Agora, o porquê dos números inflarem tanto em tão pouco tempo é uma resposta ainda em aberto.

“Difícil saber ao certo o que está acontecendo, mas especulo que a pauta religiosa entrou de vez na vida política, e os parlamentares estão expressando isso”, diz o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest. “Minha percepção é que os deputados estão reagindo ao crescimento no volume de debates sobre valores religiosos na sociedade. E estão sentindo a necessidade de expressar tais valores na sua atividade.”

“O ponto chave”, segundo Ana Carolina Evangelista, diretora-executiva do Iser (Instituto de Estudos da Religião), “seria refletir sobre o que está se sedimentando nesta legislatura em seu segundo ano de mandato, num contexto de grande mobilização da religião no debate público e nas diversas agendas políticas no país”.

É possível que estejamos observando a calcificação “de um uso tático da religião pela direita”, diz a cientista política. A esquerda, por sua vez, teria sentido necessidade de reagir “ao que a direita tem conseguido comunicar e sensibilizar nas suas bases parlamentares ao fazer isso”.

Para a antropóloga Livia Reis, do Iser, não chega a ser novidade ver deputados de esquerda acionando a gramática religiosa, “embora com o sinal inverso”, defendendo, por exemplo, igualdade de direitos entre religiões. “Nos últimos 40 anos, temos a emergência das identidades culturais na luta por direitos, e a identidade religiosa não está apartada disso. Esse é o lugar a partir de onde grupos políticos estão reivindicando direitos, obviamente com lugares distintos e, no caso das religiões, muitas vezes assimétricos.”

A fatia parlamentar influenciada por uma crença inchou rápido demais, o que de certo causa estranhamento, mas a tendência em si faz sentido, de acordo com o cientista político Vinicius do Valle. “Está tendo um entendimento progressivo na sociedade de que manifestar religiosidade é importante.”

O eleitorado não costuma dar moral para um governante descrente. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) protagonizou um dos episódios mais simbólicos dessa cobrança por fé ao perder a prefeitura paulistana, em 1985. A derrota foi em parte creditada à fama de ateu. Em 1994, agora em campanha presidencial, FHC fez questão de declarar que “sempre acreditou em Deus”.

Os petistas Lula e Dilma Rousseff também tiveram que prestar contas sobre seu cristianismo. Em 2010, sua primeira eleição, Dilma era vista com desconfiança por responder em sabatina à Folha de SP três anos antes, quando questionada se acreditava em Deus: “Eu me equilibro na questão”. Presidenciável, disse que vencer um câncer a havia reaproximado da fé e defendeu um retorno aos “valores éticos e morais”. Nada que impedisse que fosse fustigada por errar o sinal da cruz em visita a uma igreja.

Mesmo o agnóstico Getúlio Vargas teve que fazer concessões à então toda-poderosa Igreja Católica, nomeando Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil em 1931.

Ex-presidente da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) diz “falar o óbvio”, de que “é impossível separar o ser humano de suas crenças”, e acha bom que colegas “estejam deixando as máscaras de lado”.

Aliado do pastor Silas Malafaia, aponta ainda “uma enorme confusão” no conceito de Estado laico. Ele não pressupõe vácuo religioso. Teria como prerrogativa, isso sim, “respeitar e proteger todas as religiões” sem ser um “Estado ateu, apesar de ser dever do Estado também respeitar e proteger os ateus”.

Para Chico Alencar, deputado do PSOL-RJ que se define como cristão “de formação católica, recebido na comunhão anglicana e cada vez mais ecumênico”, a pesquisa Genial/Quaest revela aspectos positivos e negativos.

De bom, mostra que a fé “não está dissociada da vida”. Vira problema, contudo, quando “as preocupações de cristandade, entre aspas”, servem de desculpa para “reproduzir mandatos, ter prestígio, poder e voto, e isso ofende a ideia do Estado laico”.

Frei Betto: ‘A religião, como a política, serve para libertar e serve para oprimir’

O frade dominicano e escritor Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto afirma que a extrema direita aliena parte da população utilizando da religião. No passado, com as Marchas da Família com Deus. Hoje, com as Marchas para Jesus e religiosos extremistas.

“A religião, como a política, serve para libertar e serve para oprimir. Depende de como é aplicada. Na época de Jesus quem tinha o poder político tinha um poder religioso e vice-versa. A direita descobriu sempre isso, de que a religião é um fator forte de domesticação e mobilização popular. Para nós, progressistas, a religião deveria ser aquilo que foi na prática de Jesus e dos seus apóstolos: um fator de libertação e de despertar a consciência crítica. É preciso levar a sério um trabalho político com a esfera religiosa”, explica.

É preciso combater o ‘uso abusivo’ da religião na política, diz Barroso

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, criticou nesta sexta-feira 8, o “uso abusivo” da religião nas eleições.

“Precisamos combater a captura da religião para servir a causas políticas temporais e não espirituais, a instrumentalização de líderes religiosos para captar votos e dizer ‘o meu adversário é o demônio, quem votar nele não vai para o céu’. É uma forma bárbara, anticristã, de lidar com a religião”, afirmou o ministro.

A fala aconteceu durante uma aula magna na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Ele defendeu que a fé deve ficar restrita à vida privada das pessoas em vez de se estender para um “uso abusivo” por parte de líderes políticos.

Durante o evento, Barroso relembrou os atos golpistas do 8 de Janeiro e disse que ficou surpreso ao ouvir relatos sobre pessoas que, depois de quebrar e invadir os prédios públicos, se ajoelhavam para rezar.

“Fiquei imaginando que estranha mistura seria essa da religião com ódio, porque a religião verdadeira é o oposto do ódio, da violência. É a capacidade de lidar com o outro, mesmo quando ele tiver um comportamento absurdo, para compreendê-lo e convertê-lo”, afirmou.

69% em SP discordam de misturar política e religião

Pesquisa Datafolha mostra que 69% dos moradores da cidade de São Paulo dizem discordar da afirmação de que política e religião devem estar juntas para a capital paulista melhorar.

Estão em desacordo total com a frase 55% dos entrevistados, enquanto 14% discordam em parte. Outros 20% manifestam concordância total com a afirmação, e 10%, parcial. Há ainda 1% que não concorda nem discorda, e 1% que não sabe. A pesquisa foi realizada na cidade de São Paulo nos dias 7 e 8 de março, com 1.090 entrevistas de eleitores. A margem de erro é de três pontos para mais ou para menos.

A Constituição brasileira prevê a laicidade do Estado, ou seja, a separação entre Estado e Igreja e a liberdade para todas as religiões. Ainda assim, especialistas alertaram durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro sobre o fortalecimento do nacionalismo cristão –ideologia que conecta a identidade da nação à religião cristã.

A mistura de política com religião também foi defendida pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em discurso durante ato a favor do ex-presidente na avenida Paulista, no último dia 25.

“Por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderia misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço”, afirmou Michelle. “Chegou o momento da libertação. Eu creio em um Deus todo-poderoso capaz de restaurar e curar nossa nação.”

Não à toa, a concordância com a afirmação de que política e religião devem andar juntas para São Paulo é maior entre bolsonaristas (40%) do que entre petistas (28%).

A adesão à tese também é maior entre os menos instruídos: 44% dos que têm ensino fundamental, ante 18% dos que têm o superior e também entre os de menor renda (37% dos que ganham até dois salários mínimos, contra 15% dos que recebem mais de dez salários).

Não foram encontradas pelo Datafolha diferenças significativas de concordância ou discordância em relação a essa afirmação entre católicos e evangélicos.


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