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Ecologia
Pesquisadores alertam: sem mudança radical nas políticas de proteção, espécie se tornará apenas memória
Publicado em 02/02/2025 11:15 - Semana On
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Na semana passada, um vídeo viralizou nas redes mostrando uma mulher matando uma onça-parda a tiros. Eula Pereira da Silva cometeu o crime no dia 16 de dezembro, enquanto estava de férias em Alto Longá, no Piauí, onde seus pais moram. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ela foi multada em R$ 20 mil. No vídeo que chocou internautas, que estava em cima de uma árvore. A onça ainda tenta resistir, mas é atacada pelos cães que estavam com a mulher, e a pauladas, pelo pai de Eula, e não sobrevive. O caso é apenas um entre muitos que ameaçam a existência destes animais tão majestosos.
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Em todoo país, as populações de onças estão sob ameaça constante, seja da caça indiscriminada, de atropelamentos, ou de perseguição de produtores rurais. As onças-pintadas do Contínuo de Paranapiacaba, por exemplo, uma das áreas mais preservadas de Mata Atlântica no estado de São Paulo, estão sob risco iminente de extinção, mostra reportagem da Agência Pública. Nos últimos dez anos, a população desses felinos sofreu uma queda alarmante de 77%, segundo estimativas exclusivas obtidas pela Agência Pública junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A principal causa da redução: a caça.
Com mais de 7 mil quilômetros quadrados de área protegida, o Contínuo de Paranapiacaba abrange regiões do Vale do Ribeira e do Alto Paranapanema. A área é composta por parques estaduais, áreas de proteção ambiental, estações ecológicas e florestas privadas. É nesse cenário que o projeto “Onças-Pintadas do Contínuo de Paranapiacaba”, criado em 2006 pelo ICMBio, monitora os felinos e avalia sua sobrevivência.
A onça-pintada, considerada um predador de topo da cadeia alimentar, exerce um papel essencial na regulação do ecossistema da Mata Atlântica. No entanto, a espécie está classificada como “criticamente em perigo” nesse bioma, devido à perda de habitat, conflitos com humanos e, especialmente, à caça.
Densidade populacional em colapso
De 2009 a 2011, os pesquisadores estimaram que havia uma média de 0,66 onça a cada 100 quilômetros quadrados na região. Esse índice já era considerado extremamente baixo. Porém, a nova estimativa, que abrange o período de 2020 a 2023, revela uma situação ainda pior: atualmente, existem apenas 0,14 onça por 100 quilômetros quadrados, uma redução de mais de 50% na densidade populacional em pouco mais de uma década.
Na prática, seria necessário percorrer 700 quilômetros quadrados — área equivalente à cidade de Salvador — para encontrar uma única onça-pintada. Em comparação, no Pantanal, a densidade populacional chega a sete onças por 100 quilômetros quadrados, evidenciando o colapso populacional no Contínuo de Paranapiacaba.
Caça e impunidade
A morte do macho RonRon, uma das onças monitoradas pelo projeto, exemplifica o drama enfrentado pelos pesquisadores. RonRon, que estava no auge de sua vida reprodutiva, desapareceu misteriosamente em outubro de 2023. Segundo a bióloga Beatriz Beisiegel, coordenadora do projeto, há indícios de que ele tenha sido assassinado por um fazendeiro da região. “Se um bicho desapareceu, tem altíssima probabilidade de ter sido morto por um ser humano”, lamenta.
Uma investigação chegou a ser aberta pela Polícia Federal, mas foi arquivada pelo Ministério Público Federal (MPF) devido à falta de provas conclusivas, já que o corpo do animal nunca foi encontrado. O caso ilustra a dificuldade de punir crimes ambientais no Brasil. “Desde 2019, perdemos ao menos uma onça por ano no Contínuo. Com uma população tão pequena, cada animal morto tem um impacto devastador”, alerta Beisiegel.
A falta de apoio institucional para investigar e prevenir a caça é outro ponto crítico. Segundo a pesquisadora, as penas previstas pela Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) são brandas e muitas vezes consideradas de “menor potencial ofensivo”, não resultando em detenção ou multas significativas. Em 2017, uma onça-pintada foi assassinada na região, e os criminosos chegaram a publicar vídeos zombando do crime. “A sensação de impunidade alimenta a continuidade dessas práticas”, critica Beisiegel.
Mortes nas redes e punições leves
Casos semelhantes ocorrem em outros biomas brasileiros. Em janeiro de 2024, uma mulher assassinou uma onça-parda na Caatinga e exibiu o feito nas redes sociais. O Ibama aplicou três multas que somaram R$ 20 mil, mas para especialistas, o valor é irrisório diante da gravidade do crime.
Além da caça, os conflitos agrários e a invasão de áreas protegidas também afetam a biodiversidade local. Beisiegel relembra o caso de 2020, quando um vigilante do Parque Estadual Intervales foi assassinado por garimpeiros. O crime, que foi relatado pela revista piauí, permanece sem solução até hoje, refletindo a falta de prioridade na proteção desses territórios.
Para a bióloga, sem medidas urgentes, como o reforço da fiscalização, a punição efetiva de crimes ambientais e a ampliação de projetos de educação ambiental, o destino das onças-pintadas na Mata Atlântica pode ser selado nas próximas décadas. “O que vemos hoje é um processo de extinção em câmera lenta, causado pela negligência e pela falta de respeito ao meio ambiente”, conclui.
Impacto ambiental e econômico
A extinção das onças-pintadas não representa apenas uma perda ecológica. A ausência desses predadores pode gerar desequilíbrios na cadeia alimentar, aumentando a população de herbívoros e degradando ainda mais o ecossistema da Mata Atlântica. Além disso, a região, que depende do ecoturismo e da preservação da biodiversidade, pode sofrer impactos econômicos duradouros. O alerta dos pesquisadores é claro: sem uma mudança radical nas políticas de proteção, a onça-pintada se tornará apenas uma memória no maior bioma tropical do mundo.
Características da espécie
A onça-pintada é o maior felino das Américas podendo chegar a 135 kg, e assim como o Leão, o Tigre e o Leopardo, as onças-pintadas emitem uma série de roncos muito fortes que são chamados de esturro.
Possui pelagem amarelo-dourado com pintas pretas na cabeça, pescoço e patas. Nos ombros, costas e flancos tem pintas formando rosetas que têm, no seu interior, um ou mais pontos.
A ocorrência desses felinos em uma região indica que ele ainda oferece boas condições que permitam a sua sobrevivência.
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