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Ecologia
Com aumento de 79% nas áreas queimadas em 2024, Autoridade Climática enfrenta resistências
Publicado em 26/01/2025 12:28 - Semana On
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O Brasil encerra 2024 com um registro sombrio: 30,8 milhões de hectares de seu território consumidos pelo fogo – uma área maior que o território da Itália e o maior volume desde 2019. Os números, divulgados pelo Monitor do Fogo do MapBiomas, não apenas denunciam a fragilidade das políticas ambientais do país, mas também ilustram como as mudanças climáticas e as ações humanas interagem para ampliar a destruição. Contudo, as chamas que devoram florestas, savanas e culturas agrícolas não são um episódio isolado. Elas refletem décadas de negligência ambiental, disputas políticas internas e um sistema de governança que ainda não assimilou a complexidade da crise climática global.
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No coração dessa devastação está a Amazônia, bioma que representa 58% da área queimada em 2024, com 17,9 milhões de hectares atingidos, dos quais 6,8 milhões eram de formações florestais. Esse impacto é duplamente preocupante: primeiro, porque a Amazônia desempenha papel essencial na regulação do clima global, funcionando como um “sumidouro de carbono”; segundo, porque o fogo, como explica o pesquisador Felipe Martenexen, “não faz parte da dinâmica natural da floresta”, sendo introduzido por ações humanas. Em outras palavras, o avanço das queimadas é um sintoma visível da degradação ambiental e do desmonte institucional.
Além da Amazônia, o Cerrado também viveu sua pior crise desde 2019, com 9,7 milhões de hectares consumidos, 85% deles de vegetação nativa. Historicamente adaptado ao fogo, o bioma agora enfrenta uma destruição que supera sua capacidade de regeneração, impulsionada por práticas agrícolas intensivas e pelas mudanças climáticas. O que antes era parte de uma dinâmica ecológica, agora é amplificado por escolhas econômicas que ignoram os limites ambientais.
O contraste com o Pampa é significativo. Enquanto o sul do Brasil registrou a menor área queimada desde 2019, graças às chuvas abundantes decorrentes do El Niño, os outros biomas, como o Pantanal e a Caatinga, somaram perdas significativas. O desequilíbrio ilustra o impacto crescente das mudanças climáticas, que alteram padrões históricos e expõem as fragilidades de uma política ambiental fragmentada e reativa.
O dilema da governança climática
No campo político, a destruição ambiental de 2024 expôs as falhas estruturais da gestão climática no Brasil. A promessa de criação da Autoridade Climática, feita por Lula em sua campanha de 2022, transformou-se em um dos “carrapichos” que o presidente se comprometeu a remover ao proclamar 2025 como “o ano da colheita”. Contudo, a colheita esperada é prejudicada por uma série de entraves políticos e administrativos.
O projeto, defendido pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, propunha uma autarquia independente para gerenciar riscos climáticos e prevenir desastres, com foco na coordenação entre diferentes níveis de governo e setores econômicos. Entretanto, a proposta encontrou resistência dentro do próprio governo. Rui Costa, chefe da Casa Civil, sintetizou o ceticismo ao ironizar: “Se criar uma autoridade resolvesse o problema, Europa e Estados Unidos já teriam extinguido os incêndios florestais”. Essa postura reflete uma visão que subestima o papel estratégico de instituições climáticas robustas, ao mesmo tempo que expõe as disputas internas que paralisam iniciativas fundamentais.
A paralisação da Autoridade Climática é emblemática de um padrão recorrente na política brasileira: grandes promessas ambientais que se chocam com a realidade da burocracia e dos interesses contraditórios. Às vésperas de sediar a COP30, em Belém, o Brasil enfrenta um paradoxo: como ser líder no combate global às mudanças climáticas enquanto suas florestas ardem e as políticas internas permanecem engessadas?
Contexto histórico e global
O dilema brasileiro não pode ser compreendido isoladamente. A relação entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental é um dos grandes desafios do século XXI. Desde a Revolução Industrial, o crescimento econômico global tem sido construído à custa de ecossistemas inteiros, e o Brasil, com sua vasta biodiversidade e papel estratégico no clima global, está no epicentro desse conflito. Como notou o economista e ambientalista Nicholas Stern em seu famoso relatório de 2006, “as mudanças climáticas representam a maior falha de mercado da história”. No Brasil, essa falha é agravada por fatores políticos e históricos.
Nos anos 1990, o país foi elogiado por seu protagonismo na ECO-92 e pela criação de políticas inovadoras, como o Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA). No entanto, as duas décadas seguintes foram marcadas por avanços e retrocessos. Se por um lado o Brasil conseguiu reduzir o desmatamento em 80% entre 2004 e 2012, por outro, a pressão por commodities agrícolas e a flexibilização de leis ambientais reverteram parte dessas conquistas. A devastação registrada em 2024 é, portanto, fruto de escolhas que priorizam o curto prazo em detrimento da sustentabilidade.
Globalmente, as expectativas sobre o Brasil são altas. Com a COP30, o país tem a oportunidade de reafirmar seu papel como líder ambiental. Porém, como afirmou a cientista política Elinor Ostrom, vencedora do Prêmio Nobel de Economia, “a governança ambiental bem-sucedida exige ações coordenadas em múltiplas escalas”. Sem integração entre o local, o nacional e o global, qualquer discurso climático corre o risco de se tornar vazio.
Um futuro em disputa
A devastação ambiental de 2024 deve ser vista como um alerta. Ela revela não apenas os impactos das mudanças climáticas, mas também as escolhas políticas e econômicas que amplificam a destruição. A promessa de 2025 como “o ano da colheita” só será cumprida se o governo for capaz de superar disputas internas, fortalecer instituições ambientais e implementar uma política climática que seja ao mesmo tempo ambiciosa e realista.
O Brasil está diante de uma encruzilhada. Pode continuar refém de um modelo que vê a natureza como recurso infinito ou assumir um papel de liderança no enfrentamento da crise climática global. Para isso, será necessário abandonar a visão de curto prazo que tem dominado a política nacional e adotar uma abordagem integrada e de longo prazo, que valorize a preservação ambiental como base para o desenvolvimento sustentável.
As chamas que consomem as florestas brasileiras são um reflexo das chamas que ameaçam o futuro da humanidade. A questão que permanece é: estaremos dispostos a apagar esses incêndios antes que seja tarde demais?
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