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Ecologia

Pecuária, mineração e energia empurram Amazônia para ponto de ruptura, diz relatório

Estudo aponta efeito cumulativo que amplia o desmatamento nas grandes florestas tropicais

Publicado em 20/05/2026 9:41 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A combinação entre expansão agropecuária, mineração, exploração de combustíveis fósseis e demanda global por produtos considerados estratégicos para a transição energética está elevando a pressão sobre as florestas tropicais a níveis considerados críticos. Um relatório produzido pela organização holandesa Profundo, a pedido da Rainforest Foundation Norway, alerta que biomas como a Amazônia podem se aproximar de um ponto de ruptura diante do acúmulo de impactos ambientais.

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Segundo a análise, a corrida internacional por minerais críticos, biocombustíveis, celulose e matérias-primas associadas ao consumo “verde” soma novos fatores de pressão a vetores históricos de desmatamento, como pecuária extensiva, monoculturas, exploração madeireira e produção de petróleo. O estudo acompanha tendências de commodities na Amazônia, na bacia do Congo e no Sudeste Asiático — os três maiores blocos de florestas tropicais do planeta.

A avaliação apresentada ao jornal britânico The Guardian sustenta que o problema não está restrito à substituição de uma matriz econômica por outra. Para os autores, a lógica de crescimento contínuo do consumo global amplia a exploração de recursos naturais em escala incompatível com a capacidade de regeneração das florestas.

Ingrid Turgen, da Rainforest Foundation Norway, afirmou ao The Guardian que o acúmulo dessas atividades cria um nível de pressão que os ecossistemas tropicais “não conseguem suportar”. Segundo ela, a ausência de respostas coordenadas dos governos pode levar regiões como a Amazônia a um “cenário bastante sombrio”.

O relatório também chama atenção para os impactos indiretos da mineração, considerados historicamente subestimados. Além da área diretamente desmatada para abertura de minas, os pesquisadores incluem na conta a contaminação de rios, a construção de estradas, a expansão de assentamentos e a instalação de infraestrutura logística, cujos efeitos podem alcançar dezenas de quilômetros além das áreas de extração.

Entre os setores apontados como principais motores da devastação, pecuária, agricultura e mineração de ouro aparecem no topo da lista e devem continuar em expansão nos próximos anos.

No caso brasileiro, o estudo projeta crescimento de 10,2% na produção de carne bovina até 2034. A estimativa é de que essa expansão possa provocar a derrubada de ao menos 57 mil km² de florestas no período. O relatório adverte, porém, que o impacto pode ser ainda maior caso a pecuária continue avançando sobre áreas da Amazônia.

A mineração de ouro também é descrita como um vetor crescente de destruição ambiental. De acordo com os dados apresentados, minas a céu aberto já ocupam cerca de 1,9 milhão de hectares do bioma amazônico. Os pesquisadores identificam ainda uma correlação entre a valorização internacional do ouro e o aumento do desmatamento associado à atividade mineradora na Amazônia brasileira. Mantida a tendência recente, o relatório estima uma perda adicional de 375 km² de floresta até 2028.

A exploração de petróleo, gás e carvão aparece como outro fator de pressão crescente, tanto pelos impactos diretos das operações quanto pela infraestrutura associada. O documento classifica a Amazônia como uma das fronteiras fósseis em expansão mais acelerada do mundo, citando projetos em andamento ou planejados no Brasil, Suriname, Equador, Colômbia e Peru.

Na África Central, a preocupação recai sobre a ampliação da exploração petrolífera em áreas ambientalmente sensíveis. O estudo destaca que a República Democrática do Congo aprovou 52 novos blocos de exploração que abrangem aproximadamente 1,24 milhão de km² nas turfeiras de Cuvette Centrale, região considerada o maior sumidouro terrestre de carbono do planeta.

A pressão sobre as florestas também cresce a partir de setores associados à transição energética. A extração de lítio, níquel e cobalto — minerais essenciais para baterias e veículos elétricos — pode gerar novos ciclos de desmatamento, sobretudo em áreas preservadas e territórios indígenas.

Veera Mo, representante da Rainforest Foundation Norway, afirmou ao The Guardian que os impactos cumulativos da mineração em regiões florestais foram “significativamente subestimados” ao longo dos últimos anos.

O relatório calcula que o desmatamento relacionado à expansão da frota global de veículos elétricos poderá variar entre 1.500 km² e 4.700 km² até 2050. Embora a área represente uma fração do desmatamento global projetado, os autores destacam que a atividade mineradora tende a atingir ecossistemas altamente preservados e comunidades tradicionais de forma desproporcional.

Outro ponto de alerta envolve o setor de biocombustíveis. A análise estima que a demanda global prevista para 2030 exigirá a incorporação de cerca de 52 milhões de hectares adicionais de áreas agrícolas destinadas à produção de soja, palma, etanol e sebo bovino.

No caso específico da soja voltada à produção de combustíveis, os pesquisadores projetam um impacto potencial entre 31,6 mil km² e 35 mil km² de vegetação amazônica derrubada até 2035.

Produtos frequentemente associados a alternativas sustentáveis também entram no radar do estudo. Entre eles estão a viscose — fibra semissintética utilizada pela indústria da moda rápida — e o crescimento do consumo de embalagens e sacolas de papel, cuja origem nem sempre está ligada a cadeias produtivas sustentáveis. A expansão do comércio eletrônico aparece como um dos fatores que impulsionam essa demanda.

Os autores defendem medidas como maior transparência nas cadeias produtivas, fortalecimento da fiscalização ambiental e redução do consumo nos países mais ricos. Para Barbara Kuepper, autora principal do relatório, a reciclagem, embora necessária, não será suficiente para conter a pressão sobre os ecossistemas tropicais.

Ao The Guardian, Kuepper afirmou que o volume global de consumo se tornou o principal eixo do problema, inclusive em setores associados à transição energética. Segundo ela, o nível atual de uso de recursos naturais é excessivo e produz impactos ambientais elevados mesmo em atividades frequentemente apresentadas como sustentáveis.

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