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Ecologia

Plástico em excesso: ONU alerta para crise global

Consumo mundial previsto em 2025 é de 516 milhões de toneladas

Publicado em 05/06/2025 10:13 - Semana On

Divulgação Martine Perret/ONU Meio Ambiente

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O mundo está afogado em plástico — literalmente. Em 2025, a humanidade deve consumir mais de meio bilhão de toneladas do material que, embora tenha revolucionado indústrias e economias, tornou-se símbolo de uma crise ambiental global. É nesse contexto que a Organização das Nações Unidas dedica o Dia Mundial do Ambiente, celebrado nesta quinta-feira (5), à luta contra a poluição plástica. A mobilização antecede uma reunião crucial em agosto, na Suíça, onde representantes de dezenas de países tentarão firmar um acordo internacional inédito para conter o problema.

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Comemorado desde 1972, o Dia Mundial do Ambiente é, nesta edição, uma convocação urgente à ação coletiva. O lema de 2024 — Combater a poluição por plástico — reflete não apenas uma preocupação ambiental, mas uma encruzilhada civilizatória. Segundo dados da ONU, 516 milhões de toneladas de plástico serão consumidas no mundo só neste ano. Até 2060, esse número deve mais que dobrar, ultrapassando 1,2 bilhão de toneladas anuais.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, não economizou em imagens fortes para descrever o cenário. Em sua mensagem oficial, alertou que o plástico já foi encontrado do topo do Everest ao fundo dos oceanos, do leite materno ao cérebro humano, na forma de microplásticos invisíveis, mas onipresentes. “A poluição por plásticos está a sufocar o nosso planeta, prejudicando os ecossistemas, o bem-estar e o clima”, afirmou Guterres.

De fato, os números são contundentes: 11 milhões de toneladas de plástico vazam todos os anos em ecossistemas aquáticos e 13 milhões de toneladas se acumulam nos solos. E apenas 9% de todo o plástico produzido globalmente é efetivamente reciclado. O restante se transforma em resíduos de longa permanência, com impactos sociais, ambientais e econômicos incalculáveis.

Plástico: vilão ou reflexo de uma sociedade descartável?

Longe de demonizar o material em si, a ONU adota uma abordagem mais sofisticada. “O problema não é o plástico, mas seu uso abusivo, descartável e não circular”, como aponta Patrícia Carvalho, coordenadora do Pacto Português para os Plásticos (PPP), em entrevista à Agência Lusa. Ela destaca que o plástico tem usos valiosos — como na medicina, na preservação de alimentos e na indústria de energia —, mas alerta que a má gestão e o consumo irresponsável tornaram o material uma ameaça global.

A ONU segue na mesma linha: reconhece os benefícios do plástico, mas reforça que é preciso transformar o modelo de produção e consumo, adotando o princípio da economia circular. Trata-se de uma mudança de paradigma: reduzir a produção de itens de uso único, ampliar a reutilização, garantir reciclagem efetiva e responsabilizar toda a cadeia — do fabricante ao consumidor final.

Um tratado global à vista?

As discussões em torno de um tratado internacional para combater a poluição plástica devem ganhar fôlego em agosto, quando representantes de dezenas de países se reúnem na Suíça para uma nova rodada de negociações. A expectativa da ONU é firmar um acordo “ambicioso, credível e justo”, que aborde todo o ciclo de vida do plástico, desde a extração das matérias-primas até a destinação final dos resíduos.

Precisamos de um acordo que vá além da boa vontade — que seja vinculante, executável e sensível às desigualdades entre países”, disse Guterres em sua mensagem. A proposta, embora desafiadora, é considerada fundamental por especialistas em meio ambiente, que comparam sua importância à do Acordo de Paris sobre o clima.

O papel da sociedade e da responsabilidade compartilhada

A complexidade do problema exige respostas múltiplas. Segundo Patrícia Carvalho, um dos grandes gargalos está na reciclagem, cujas metas legais, inclusive na Europa, estão longe de serem atingidas. Ela cita avanços pontuais — como a retirada de embalagens escuras, a reformulação de rótulos e a busca por materiais mais simples —, mas reconhece que o setor ainda pode fazer mais.

Outro ponto crítico é o sistema de coleta seletiva, que precisa ser “justo, conveniente e recompensador”, nas palavras de Carvalho. Para ela, é preciso que quem recicla seja beneficiado, e que a ação ambiental seja incorporada ao cotidiano das pessoas como um gesto de cidadania, não de sacrifício.

A responsabilidade, contudo, não é apenas individual. A ONU reforça a necessidade de ações de governos, empresas e organizações, e destaca que políticas públicas, subsídios e legislações regulatórias são essenciais para estruturar o combate à poluição. A mensagem é clara: “A mudança acontece por meio de todos nós”.

Uma crise invisível, mas não inevitável

A presença de microplásticos em tecidos humanos, incluindo placentas, pulmões, intestinos e corrente sanguínea, tem levantado preocupações sérias sobre impactos à saúde. Estudos recentes já investigam possíveis ligações com processos inflamatórios, alterações endócrinas e riscos ao desenvolvimento neurológico. Embora os efeitos de longo prazo ainda estejam sendo mapeados, a escala da exposição é suficiente para acionar alarmes científicos e éticos.

Essa invasão invisível revela algo mais profundo: a crise do plástico é um reflexo da lógica do descarte que rege as sociedades contemporâneas. Como explica o sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos em uma “modernidade líquida”, onde tudo — produtos, pessoas e ideias — se torna obsoleto rapidamente. “O lixo é o subproduto inevitável de uma sociedade voltada para o consumo imediato”, escreveu Bauman em Vida Líquida (2007).

Um novo pacto com o planeta

A celebração do Dia Mundial do Ambiente em 2024 não é apenas uma efeméride ambiental. É um chamado à reconstrução de pactos — com o planeta, com a coletividade, com as gerações futuras. A luta contra a poluição plástica, como destaca a ONU, não será vencida apenas com sacolas reutilizáveis e canudos de inox. Ela exigirá transformação estrutural, vontade política e, sobretudo, um engajamento coletivo que resgate o valor do que é durável, do que é comum e do que é vivo.

Patrícia Carvalho resume com lucidez: “Achar que tudo é mau nos imobiliza. Qualquer ação, em qualquer lugar do mundo, é importante. Nem que seja não colocar um plástico no chão”.

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