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Ecologia

Brasil mapeia genomas enquanto tráfico ameaça fauna

Avanço científico convive com captura ilegal de espécies

Publicado em 29/05/2025 11:47 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Enquanto cientistas brasileiros comemoram o sequenciamento inédito de 23 genomas de referência de espécies nativas — ferramenta poderosa para a preservação da fauna —, cresce silenciosamente o comércio ilegal de animais silvestres, como a ararajuba, espécie ameaçada que vira objeto de desejo entre jovens influenciadores digitais. A tensão entre conhecimento científico e cultura de consumo expõe a urgência de políticas integradas que enfrentem tanto a crise da biodiversidade quanto os valores que a colocam em risco.

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O avanço genético como trincheira contra a extinção

O Projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), coordenado pelo ICMBio em parceria com o Instituto Tecnológico Vale de Desenvolvimento Sustentável, alcançou um marco científico: 23 genomas de referência de espécies emblemáticas como a onça-pintada, o peixe-boi-da-Amazônia e a ararajuba — todas sob ameaça crescente no contexto das mudanças climáticas e da degradação de seus habitats.

Esses genomas de alta qualidade representam um salto no entendimento das espécies: revelam padrões de diversidade genética, identificam ameaças evolutivas e subsidiam estratégias de conservação com base em evidências. Segundo a bióloga e geneticista Mayana Zatz, “a genômica aplicada à biodiversidade é a base para políticas públicas efetivas de conservação”. E ela está certa: é com precisão científica que se previne o colapso ecológico.

Ao todo, o projeto já sequenciou 743 genomas de 413 espécies, realizou 336 genomas populacionais e 384 organelares, além de conduzir 114 projetos paralelos que integram análises genéticas ao monitoramento ambiental. Com um orçamento de US$ 25 milhões até 2027, o GBB consolida o Brasil como líder em bioinformática aplicada à conservação — uma resposta estratégica num país que detém a maior biodiversidade do planeta, mas também uma das mais ameaçadas.

Ararajubas domesticadas: vítimas da vaidade digital

Em contraste brutal com esse esforço científico, a ararajuba — uma das estrelas do GBB — se torna símbolo do fracasso moral e cultural que alimenta o tráfico de animais silvestres. No Parque do Utinga, em Belém, duas aves vivem em reabilitação após serem vítimas de captura e posse irresponsável. Sua mansidão, resultado do contato prolongado com humanos, pode impedi-las de voltar à natureza: voam pouco, interagem com pessoas, não sabem mais fugir.

O biólogo Marcelo Rodrigues, do Projeto Ararajuba, alerta: “O excesso de mansidão compromete a libertação das aves. Precisamos ‘desensibilizá-las’ para que sobrevivam”. Essa reabilitação não é apenas física: é também comportamental e, de certa forma, política.

Segundo o Relatório Global sobre Crimes contra Espécies Silvestres, de 2015 a 2021, cerca de 13 milhões de espécimes foram capturados ilegalmente em 162 países. A ararajuba, com seu amarelo vívido e porte exótico, virou protagonista em uma nova frente de ameaça: a vitrine das redes sociais.

O novo perfil do consumidor: jovens, conectados e inconscientes

Como alerta Graciele Braga, coordenadora do Ibama, “a juventude conectada é hoje o principal público consumidor de animais silvestres como pets”. Em busca de originalidade e likes, influenciadores exibem espécies raras como símbolos de prestígio — e contribuem, muitas vezes sem saber, para uma cadeia de sofrimento animal, destruição ambiental e financiamento de redes criminosas.

Essa tendência perversa é alimentada pela dificuldade em distinguir animais silvestres dos domesticados. “É fundamental promover essa diferenciação. O bem-estar da fauna está diretamente relacionado à permanência no habitat natural”, afirma Bráulio Dias, do Ministério do Meio Ambiente.

Não se trata apenas de ignorância, mas de uma lógica de consumo enraizada. Como explica a antropóloga Marisol de la Cadena, em seu estudo sobre ontologias múltiplas (Anthropological Theory, 2015), a relação moderna ocidental com a natureza frequentemente reifica os seres vivos como objetos — pets, decoração, conteúdo —, rompendo os vínculos de alteridade e respeito.

Campanhas, denúncias e a luta pela consciência

Em resposta, o Ibama e o WWF-Brasil lançaram a campanha “Se não é livre, eu não curto”, para conscientizar sobre os impactos do tráfico e da domesticação indevida. A ação se soma aos esforços dos Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), que reabilitaram e soltaram mais de 30 mil animais em 2023.

Mas é preciso mais. A política pública de conservação, por mais avançada que seja tecnicamente, será sempre insuficiente diante de uma cultura que glamouriza a posse e banaliza a vida. O filósofo Jacques Derrida, ao refletir sobre a relação entre humanos e animais, pergunta: “Pode o animal nos olhar?” (L’animal que donc je suis, 2006). A pergunta não é biológica — é ética. O olhar da ararajuba mansa, que não sabe mais fugir, talvez seja o reflexo mais honesto da nossa própria incapacidade de olhar para a vida fora do espelho digital.

Entre o DNA e o desejo, a escolha é civilizatória

O Brasil caminha em duas direções opostas. De um lado, a vanguarda da ciência genética que mapeia a biodiversidade como patrimônio evolutivo e estratégico. Do outro, o retrocesso cultural que transforma animais em fetiches. É o confronto entre a biologia da preservação e a psicologia do consumo, entre a ética ecológica e a estética da posse.

Como afirmou o ecólogo Edward O. Wilson, “a biodiversidade é o tecido que sustenta a vida na Terra — seu empobrecimento é o empobrecimento do futuro” (The Diversity of Life, 1992). A pergunta que fica não é se teremos tecnologia para preservar a fauna. É se teremos consciência e coragem para fazê-lo antes que seja tarde demais.

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