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Ecologia
O mundo supera pela primeira vez o limite de 1,5 ºC, expondo a negligência de líderes globais e a desigualdade que amplifica a crise climática
Publicado em 11/01/2025 10:46 - Semana On
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O ano de 2024 será lembrado como um marco sombrio na história da humanidade: pela primeira vez, a temperatura média global superou o limite crítico de 1,5 ºC em relação à era pré-industrial. O anúncio do Copernicus Climate Change Service (C3S) nesta semana confirmou o pior cenário que cientistas vêm alertando há décadas. Esse marco, combinado com eventos climáticos extremos em várias partes do mundo, sinaliza que o planeta pode estar à beira de um ponto sem retorno. Contudo, não é apenas a inércia que nos trouxe até aqui, mas também a ação deliberada – e a omissão – de lideranças políticas e econômicas que continuam a lucrar enquanto o mundo queima.
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Desde o início dos registros climáticos, a influência humana sobre o aquecimento global é inegável. A queima de combustíveis fósseis permanece como o maior fator de emissões de gases de efeito estufa, intensificada por fenômenos naturais como o El Niño. Segundo a cientista Samantha Burgess, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas, “as temperaturas recordes de 2024 causaram ondas de calor sem precedentes e chuvas torrenciais, infligindo sofrimento a milhões”.
Mas o problema não se limita aos números. Como afirmou Rowan Sutton, do Centro Hadley do Met Office, “cada fração de grau centígrado a mais aumenta o risco de ultrapassar pontos de inflexão que podem transformar o mundo”. Entre eles, o colapso do bioma da Amazônia e das calotas de gelo da Groenlândia e da Antártica, que acelerariam ainda mais o aquecimento global.
Um mundo de desigualdades expostas
Embora o impacto climático seja global, seus efeitos são distribuídos de forma desigual. Dados da organização Oxfam revelam que o 1% mais rico do mundo é responsável por dois terços das emissões de carbono, enquanto as comunidades mais pobres são as primeiras a sofrer as consequências. Incêndios devastadores no Pantanal, inundações no Rio Grande do Sul e tempestades tropicais nas Filipinas destacam como as populações vulneráveis já estão enfrentando uma vida em colapso.
No entanto, soluções sustentáveis não podem ser alcançadas sem enfrentar essas desigualdades. Transferir a responsabilidade para indivíduos – como trocar sacolas plásticas por reutilizáveis – é insuficiente. A crise climática exige mudanças estruturais profundas, como taxação de grandes fortunas, fim de subsídios a combustíveis fósseis e investimentos massivos em energias renováveis.
Negacionismo: de raiz e “light”
A ascensão de lideranças como Donald Trump nos EUA ou políticos brasileiros que promovem a exploração de novas jazidas de petróleo em pleno século XXI evidencia uma face explícita do negacionismo climático. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, alerta que, se nada for feito, o mundo pode atingir um aquecimento de 3,1 ºC até o fim do século – um cenário de extinção em massa.
Mais perigoso, no entanto, é o “negacionismo light”. Esses líderes dizem acreditar nas mudanças climáticas, mas defendem que a transição pode ocorrer sem mudanças profundas na economia. Usam discursos que vinculam exploração de petróleo à redução da pobreza – enquanto os lucros desse setor dificilmente beneficiam os mais pobres. Essa retórica alimenta a inação coletiva, enquanto “eventos extremos” se tornam o novo normal.
O Brasil diante do espelho climático
O Brasil, com sua biodiversidade incomparável, poderia liderar a agenda climática global. No entanto, permanece dividido entre as pressões do setor de petróleo e a urgência de preservar a Amazônia. A exploração de petróleo na costa do Amapá, defendida por alas tanto da direita quanto da esquerda, escancara contradições que vão além de ideologias políticas.
Embora o atual governo tenha reduzido o desmatamento na Amazônia em 2022 e 2023, ações como o subsídio a termelétricas a carvão e gás enfraquecem os esforços. Sediar a COP-30 em Belém oferece ao Brasil uma oportunidade de liderar com soluções concretas, mas o desafio é monumental. Como enfatiza o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “não há justiça ambiental sem justiça social”.
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