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Ecologia

O império do plástico e a energia do lixo

Enquanto cresce a produção global de plásticos, cidades brasileiras testam soluções energéticas sustentáveis

Publicado em 17/04/2025 1:18 - Semana On

Divulgação Foto: CentCoop

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Se por um lado a humanidade se tornou dependente de um material que simboliza o avanço tecnológico do século XX, por outro, os mesmos plásticos que moldaram a modernidade agora ameaçam o futuro do planeta. À medida que negociações globais caminham para estabelecer um tratado internacional sobre a poluição plástica, cidades brasileiras como Fortaleza, Caucaia e Seropédica apontam uma saída promissora para um dos maiores dilemas da contemporaneidade: transformar lixo em energia limpa. Mas enquanto as soluções locais brilham, o jogo geopolítico global e a ausência de políticas públicas estruturadas ameaçam a eficácia dessas iniciativas.

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Criado para durar, mas muitas vezes usado por segundos, o plástico se tornou a epítome do capitalismo de consumo. Hoje, ele representa não apenas uma ameaça à saúde humana e aos ecossistemas, mas um vetor significativo da mudança climática. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a produção de plástico poderá triplicar até 2060 se as atuais tendências continuarem. Cerca de 50% desse volume deve acabar em aterros sanitários, enquanto menos de 20% será reciclado. Estima-se ainda que os plásticos reciclados representem apenas 12% do total consumido até lá.

Ainda mais preocupante: a produção de plástico poderá consumir até 31% do orçamento de carbono restante do planeta para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C, conforme o Acordo de Paris. O alerta foi feito em relatório da International Energy Agency (IEA), que destaca a insustentabilidade do atual modelo baseado na petroquímica — responsável por 99% dos plásticos do mundo.

Os impactos não são apenas ambientais. A exposição a microplásticos e toxinas liberadas na cadeia de produção atinge principalmente populações vulneráveis: trabalhadores da reciclagem, comunidades empobrecidas, crianças e mulheres. Trata-se de um fenômeno que a filósofa política Nancy Fraser classificaria como uma “injustiça ambiental estrutural” — quando os mais frágeis pagam o preço pelo estilo de vida das elites globais.

O lobby que sabota a mudança

Enquanto a crise ecológica avança, as negociações para um tratado internacional de combate à poluição plástica enfrentam forte resistência. A reunião do Comitê Intergovernamental de Negociação (INC), ocorrida em abril de 2025, em Ottawa, evidenciou o conflito: países produtores de petróleo e empresas petroquímicas insistem em limitar o acordo à gestão de resíduos, evitando qualquer limitação à produção de plástico.

Segundo análise do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira (IEEFA), mesmo diante de riscos econômicos e ambientais evidentes, as grandes empresas do setor continuam a investir na expansão da produção de plásticos, numa tentativa de manter lucros e adiar o inevitável colapso de um modelo que já se mostra insustentável.

Essa postura é coerente com o que o sociólogo Ulrich Beck chamou de “sociedade de risco”: vivemos numa era em que os próprios mecanismos que geraram riqueza e progresso estão, agora, ameaçando a continuidade da vida humana na Terra — e ainda assim, são mantidos por inércia política e interesses privados.

Lixo como solução: a experiência brasileira

No Brasil, onde o desafio da destinação do lixo urbano é histórico, algumas cidades estão virando esse jogo. Desde 2018, Fortaleza e Caucaia (CE) operam usinas que transformam resíduos orgânicos em biogás — uma alternativa energética renovável que, purificada, resulta no biometano. Este pode substituir o gás natural em veículos, indústrias e redes de distribuição, sem necessidade de adaptações.

A unidade cearense, gerida pela empresa Marquise Ambiental, já produz até 100 mil metros cúbicos de biometano por dia, suprindo cerca de 15% da demanda de gás do estado. No Rio de Janeiro, a cidade de Seropédica abriga o maior aterro sanitário da América do Sul, que recebe 10 mil toneladas de resíduos por dia. Lá, a empresa Gás Verde transforma o lixo em energia elétrica e combustível renovável, numa operação que também reduz significativamente as emissões de metano — um gás 27 vezes mais poluente que o CO₂, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

“O Brasil tem uma grande oportunidade nesse sentido, pois ainda possui muitos lixões a céu aberto que podem ser transformados em aterros sanitários com geração de biogás”, afirma Marcel Jorand, CEO da Gás Verde. A professora Mona Lisa Moura, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), reforça que o país tem vocação natural para liderar essa transição, dada sua vasta produção agropecuária e abundância de resíduos orgânicos.

Barreiras à expansão

Apesar do potencial promissor, os entraves são consideráveis. De acordo com a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), quase dois mil lixões ainda estão ativos no Brasil, contrariando a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que previa seu fim até 2024. Apenas 58,5% dos resíduos urbanos têm destinação correta.

Um dos principais desafios é o financiamento: muitos municípios não cobram pela coleta e tratamento de resíduos, inviabilizando investimentos em infraestrutura. “Enquanto água, luz e telefone são cobrados, o lixo ainda não tem um modelo de financiamento sustentável”, aponta Pedro Maranhão, presidente da Abrema. Além disso, a bitributação sobre materiais recicláveis torna a reciclagem economicamente desvantajosa — uma distorção que precisa ser corrigida para estimular a economia circular.

A expansão do biometano também depende da existência de gasodutos, que hoje se concentram no litoral, dificultando a viabilidade em regiões do interior. Para cidades menores, soluções individuais são inviáveis. “É preciso criar consórcios regionais que otimizem a logística e permitam escala”, recomenda Carlos Silva Filho, da International Solid Waste Association (ISWA).

Uma encruzilhada civilizatória

A história humana está repleta de encruzilhadas morais e políticas. O plástico e o lixo são apenas sintomas de uma crise mais profunda: a dissonância entre um modelo de produção infinita e os limites físicos de um planeta finito. A filósofa Hannah Arendt já advertia que a tecnologia, sem responsabilidade política, pode se tornar uma força destrutiva. E é exatamente isso que está em jogo.

A oportunidade está posta. O biogás pode se tornar uma peça-chave na transição energética do Brasil, contribuindo para a redução das emissões, o aproveitamento de resíduos e a geração de empregos verdes. Ao mesmo tempo, o tratado internacional sobre plásticos, se efetivo e vinculante, pode representar um marco civilizatório: a primeira grande contenção legal de um sistema produtivo predatório.

Mas será preciso vontade política, engajamento da sociedade e coragem para enfrentar os lobbies da morte — aqueles que preferem um mundo sufocado por plástico e carbono a uma economia baseada na sustentabilidade e na justiça intergeracional.

Como disse recentemente o secretário-geral da ONU, António Guterres: “Estamos em guerra contra a natureza. E a natureza está contra-atacando com força e fúria.”

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