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Ecologia
Sem ação imediata, sobrevivência da própria humanidade estará em risco
Publicado em 12/04/2025 9:18 - Semana On
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A Terra está à beira de um ponto de inflexão. O aquecimento global avança em ritmo alarmante, aproximando o planeta de um cenário comparável à extinção em massa do Período Permiano — a maior já registrada na história da Terra. Ao mesmo tempo, nos manguezais do Pará, no Brasil, aves constroem ninhos com lixo plástico, um retrato eloquente da degradação ambiental que ameaça silenciosamente a biodiversidade. Ambas as cenas, separadas por escalas distintas, convergem para a mesma conclusão: o planeta está colapsando, e os sinais não poderiam ser mais claros.
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No Forecasting Healthy Futures Global Summit, realizado no Rio de Janeiro esta semana, o médico e pesquisador Hugh Montgomery, da University College London, fez um alerta contundente. Um dos autores do Relatório de 2024 sobre Saúde e Mudanças Climáticas da revista científica The Lancet, Montgomery comparou a crise atual à catástrofe do Período Permiano (299–251 milhões de anos atrás), quando cerca de 90% das espécies foram extintas. “A maior e mais rápida extinção que o planeta já viu está em curso — e somos nós que a estamos causando”, afirmou o cientista.
Segundo o estudo, um aumento de até 3°C na temperatura média global, em comparação aos níveis pré-industriais, poderá desencadear consequências catastróficas para a vida na Terra. Em 2024, o planeta já atingiu 1,5°C de aumento — patamar simbólico e perigoso. Caso o ritmo atual de emissões se mantenha, a previsão é de que o aquecimento global atinja 2,7°C até o ano de 2100.
Montgomery destacou que não se trata apenas de uma projeção futura. “Se atingirmos, mesmo que temporariamente, entre 1,7°C e 2,3°C, pode haver um colapso abrupto das calotas polares do Ártico e uma desaceleração da Circulação Meridional do Atlântico, o que alteraria radicalmente o clima global nas próximas duas ou três décadas, elevando o nível do mar em vários metros.”
O custo humano e econômico dessa inação é colossal. A previsão de Montgomery é de que os efeitos das mudanças climáticas possam gerar perdas de até 38 trilhões de dólares anuais na economia mundial a partir de 2049, uma redução de cerca de 20% ao ano no PIB global.
A crise ambiental, porém, não se manifesta apenas nas escalas globais de temperatura ou derretimento das calotas. No Brasil, ela se revela de forma quase poética — e igualmente trágica — nos ninhos azuis do japu-preto, ave típica do litoral paraense.
Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Pará (UFPA) constatou que 97% dos ninhos dessa espécie são feitos com resíduos plásticos, principalmente fibras de pesca deixadas nos manguezais. A pesquisadora Adrielle Caroline Lopes, mestre em oceanografia, explicou em entrevista à Rádio Nacional da Amazônia que o animal tornou-se um bioindicador da poluição costeira, revelando o acúmulo crescente de resíduos na região.
Os efeitos desse fenômeno ultrapassam o campo visual. “O plástico pode afetar diretamente a alimentação, reprodução e sobrevivência das aves e seus filhotes. Pode haver intoxicação, distúrbios hormonais e enredamento fatal”, alerta Lopes. Em campo, a pesquisadora já encontrou caranguejos enredados em plástico, incapazes de se libertar — um retrato dramático do impacto da atividade humana sobre os ecossistemas.
Essa realidade não é exclusiva do Pará. De acordo com relatório de 2022 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), mais de 14 milhões de toneladas de plástico são despejadas nos oceanos todos os anos, e os microplásticos já foram detectados em cadeias alimentares humanas, com possíveis efeitos à saúde que a ciência ainda está começando a compreender.
Ambas as pautas — a extinção global e a degradação local — convergem para uma mesma crise civilizatória: o modelo de desenvolvimento humano atual é incompatível com a manutenção da vida no planeta. Essa constatação não é nova. Desde os anos 1970, pensadores como Ivan Illich e Hans Jonas alertavam sobre os riscos éticos e existenciais de um progresso que despreza seus próprios limites. Jonas, no clássico O Princípio Responsabilidade (1979), defendia que a preservação da humanidade deve orientar qualquer ação tecnológica ou política — uma ideia mais atual do que nunca.
A tragédia ecológica, como observa o filósofo Bruno Latour, não é apenas ambiental: é também política, social e epistêmica. “Estamos enfrentando uma crise de representação: os sistemas políticos não estão preparados para responder a atores não humanos — espécies, rios, florestas, atmosferas — que agora têm voz, embora não falem”, escreveu Latour em Onde Aterrar? (2017).
Essa ausência de resposta se reflete na insuficiência das políticas públicas ambientais, tanto em escala global quanto nacional. No Brasil, embora haja avanços recentes, como o novo Plano de Ação para Prevenção do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), o combate à poluição marinha e costeira ainda é marginal nas agendas políticas.
A situação exige, como defende Hugh Montgomery, não apenas medidas de adaptação, mas ações drásticas de mitigação, com cortes profundos e imediatos nas emissões de gases de efeito estufa. “Não faz sentido focar apenas no alívio dos sintomas quando deveríamos estar buscando a cura”, advertiu o pesquisador.
A frase de Montgomery ecoa como um alerta — mas também como uma convocação. O tempo da negação já passou. Resta agora decidir entre a responsabilidade e o colapso. Como escreveu o historiador Yuval Noah Harari, “a civilização é uma corrida entre educação e catástrofe” (Sapiens, 2014).
A corrida, ao que tudo indica, já começou.