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Ecologia

O alto custo do negacionismo climático de Donald Trump

Desmonte ambiental nos EUA pode gerar impactos econômicos e sociais irreversíveis

Publicado em 22/03/2025 11:36 - Semana On

Divulgação Reprodução

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No primeiro dia de seu retorno à Casa Branca, Donald Trump não perdeu tempo em concretizar sua agenda de desmonte ambiental. Em um movimento que chocou cientistas, ambientalistas e líderes internacionais, declarou “emergência energética nacional” e assinou ordens executivas para desmantelar regulamentações ambientais, suspender licenças para energia eólica offshore e desidratar subsídios para energia limpa.

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A guinada climática dos EUA, que já haviam atingido recordes de produção de petróleo e gás sob Joe Biden, pode ter consequências devastadoras não apenas para o planeta, mas para os próprios americanos. Segundo especialistas, o negacionismo climático do governo Trump poderá custar trilhões de dólares à economia dos EUA e comprometer sua posição geopolítica.

Entre as medidas mais impactantes, Trump determinou a suspensão de todas as novas licenças para parques eólicos em áreas offshore e ordenou cortes de 20 bilhões de dólares em subsídios para energia limpa. A justificativa? Segundo ele, as regulamentações ambientais são “onerosas e ideologicamente motivadas” e prejudicam a “eletricidade confiável e acessível” baseada em combustíveis fósseis.

Os números, no entanto, desmontam essa narrativa. A Administração de Informações sobre Energia dos EUA aponta que, em 2024, os preços médios da eletricidade estavam mais baixos e estáveis do que no ano anterior. Isso se deve não apenas à queda no preço do gás natural, mas ao avanço da energia renovável e ao aumento da capacidade de armazenamento de baterias. Além disso, o setor de energia renovável emprega três vezes mais trabalhadores do que a indústria de combustíveis fósseis, e seu crescimento tem sido duas vezes mais rápido do que a média do mercado de trabalho americano.

A decisão de Trump ignora uma tendência econômica inegável: o setor de energia limpa foi responsável por mais da metade do crescimento do investimento privado nos EUA nos últimos anos. Após a Lei de Redução da Inflação (IRA), de 2022, o investimento em fabricação de energia limpa e tecnologia de transporte atingiu 89 bilhões de dólares – mais de quatro vezes os investimentos feitos nos dois anos anteriores à aprovação da lei.

Mesmo estados republicanos, que apoiaram a agenda de Trump, foram beneficiados por esses investimentos. A Geórgia, por exemplo, conquistou mais de 43 mil empregos verdes e 30 bilhões de dólares em investimentos em energias renováveis desde 2022. Mas agora, com o desmonte dessas políticas, essas oportunidades podem desaparecer.

A conta da inação climática: um desastre econômico anunciado

Ao retirar os EUA do Acordo de Paris pela segunda vez, Trump enviou um sinal preocupante ao mundo: os esforços globais para conter o aquecimento podem ser minados por seu governo. Um estudo do Boston Consulting Group alerta que, se a temperatura global subir 3°C até 2100 – o dobro da meta estabelecida em Paris –, a produção econômica acumulada pode ser reduzida entre 15% e 34% até o final do século. Isso representa um prejuízo trilionário que pode afetar todas as nações, inclusive os próprios Estados Unidos.

Os desastres naturais, amplificados pelas mudanças climáticas, já estão cobrando um preço alto. Nos últimos dez anos, eventos extremos custaram mais de 2 trilhões de dólares à economia global, segundo a Câmara de Comércio Internacional. Apenas os incêndios florestais que devastaram Los Angeles em janeiro deste ano geraram prejuízos de 164 bilhões de dólares.

Além disso, o custo líquido da inação climática pode chegar a 27% do PIB acumulado globalmente, o que, segundo a Boston Consulting, seria suficiente para erradicar a pobreza extrema no mundo. Ignorar essa realidade significa colocar em risco o próprio crescimento econômico dos EUA.

A “política do atraso” e a resistência judicial

Corey Bradshaw, professor de ecologia global da Universidade Flinders, na Austrália, é categórico ao afirmar que a narrativa de Trump sobre os cortes climáticos impulsionarem a economia é enganosa. “O custo de vida crescerá e as oportunidades de renda diminuirão”, disse à Deutsche Welle. Para ele, Trump está investindo em um setor de combustíveis fósseis moribundo, enquanto o resto do mundo avança rumo à economia verde.

Mas nem tudo está perdido. Especialistas acreditam que as ações de Trump podem ser freadas nos tribunais. David Bookbinder, diretor do Environmental Integrity Project, lembra que, durante seu primeiro mandato, Trump tentou revogar regulações ambientais e fracassou em muitos processos judiciais. “A Agência de Proteção Ambiental (EPA) não pode simplesmente revogar regulações sem seguir um processo legal detalhado”, afirmou.

Porém, mesmo que parte dessas políticas seja revertida pela justiça, o atraso já causará danos irreparáveis. A analista de energia solar Sylvia Levya Martinez alerta que os cortes na Lei de Redução da Inflação podem interromper o boom da energia limpa nos EUA. “Se muitas dessas políticas forem eliminadas ou significativamente alteradas, isso será devastador para o crescimento contínuo do setor”, afirmou.

Os EUA na contramão do mundo

A postura de Trump coloca os Estados Unidos na contramão das maiores economias do mundo. Enquanto China e União Europeia avançam com investimentos robustos em energia limpa e tecnologia sustentável, os EUA podem perder sua competitividade global. A transição energética já não é apenas uma questão ambiental, mas também geopolítica e econômica.

O novo governo americano parece ignorar o fato de que, além de ser um imperativo moral e ambiental, a transição energética também é uma oportunidade econômica. O desmonte das regulamentações climáticas não apenas compromete a luta global contra o aquecimento, mas pode deixar os EUA para trás na economia do futuro.

Enquanto os tribunais avaliam os impactos das medidas de Trump, o mundo observa. O custo do negacionismo climático não será medido apenas em aumento de emissões ou catástrofes ambientais. Ele estará presente na desaceleração econômica, na perda de empregos e no enfraquecimento da liderança global dos Estados Unidos. O preço a ser pago pelo retrocesso pode ser muito mais alto do que seus idealizadores imaginam.

O PARADOXO


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