23/04/2024 - Edição 540

Ecologia

Em “alerta final”, IPCC pede ação para evitar colapso climático

Estudos aponta para gravidade das mudanças climáticas. Biomas como a Floresta Amazônica, barreiras de corais e até cultivo de alimentos ficam em xeque

Publicado em 21/03/2023 10:01 - Jamil Chade (UOL), Gabriel Valery (RBA) – Edição Semana On

Divulgação Pixabay

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Um novo informe publicado nesta segunda-feira pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) detalha que os seres humanos são responsáveis por praticamente todo o aquecimento global durante os últimos 200 anos. O documento ainda lança um “alerta final”: ou a comunidade internacional toma iniciativas imediatas, ou um colapso climático não conseguirá ser evitado.

Mas garante: existem tecnologias e recursos suficientes para reverter a crise. Ainda há tempo. Mas o prazo está se esgotando rapidamente.

Segundo os cientistas, mais de 3 bilhões de pessoas vivem em locais “altamente vulneráveis” às mudanças climáticas e poderiam sofrer consequências devastadoras nas próximas décadas.

Entre 2030 e 2035, o mundo viverá os primeiros anos com temperaturas acima de 1,5 grau Celsius, em comparação à Era pré-industrial. Ainda que os últimos oito anos tenham sido o período mais quente da história já registrada, a ONU estima que eles serão considerados no futuro como “anos frescos” em comparação ao que vem pela frente.

O mesmo informe ainda destaca como a taxa de aumento de temperatura no último meio século é a mais alta dos últimos 2.000 anos e como as concentrações de dióxido de carbono estão no seu ponto mais alto em pelo menos dois milhões de anos.

“A humanidade está sobre gelo fino – e esse gelo está derretendo rapidamente”, afirmou o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. “A bomba de tempo climática está fazendo tic-tac”, disse.

Guia sobre como desarmar a bomba

Apesar do alerta, o relatório do IPCC é considerado como uma guia sobre como desarmar a bomba climática. “É um guia de sobrevivência para a humanidade. Como mostra, o limite de 1,5 graus é alcançável”, disse Guterres.

De acordo com as conclusões, ações climáticas são necessárias em todas as frentes. “Tudo, em todos os lugares, tudo de uma só vez”, afirmou a ONU.

Para a entidade, é necessário um Pacto de Solidariedade Climática. O acordo terá de incluir:

Aceleração nos prazos para zerar emissões líquidas até 2050, sempre respeitando as capacidades de cada país.

Na prática, isso significa que os líderes dos países desenvolvidos devem se comprometer a chegar a zerar as emissões o mais próximo possível de 2040

Já os líderes das economias emergentes devem se comprometer a alcançar o mais próximo possível do zero líquido até 2050.

“Este é o momento para que todos os membros do G20 se unam em um esforço conjunto, reunindo seus recursos e capacidades científicas, bem como suas tecnologias comprovadas e acessíveis através dos setores público e privado para tornar a neutralidade de carbono uma realidade até 2050”, defendeu Guterres.

“Cada país deve ser parte da solução. Exigir que os outros se movam primeiro só garante que a humanidade venha em último lugar”, disse.

O pacto ainda prevê:

– Nenhuma nova exploração de carvão e a eliminação gradual do carvão até 2030 nos países da OCDE e 2040 em todos os outros países.

– Acabar com todo o financiamento público e privado internacional do carvão.

– Garantir a geração líquida de eletricidade zero até 2035 para todos os países desenvolvidos e 2040 para o resto do mundo.

– Cessar todo o licenciamento ou financiamento de petróleo e gás novo – de acordo com as conclusões da Agência Internacional de Energia.

– Interromper qualquer expansão das reservas existentes de petróleo e gás.

– Mudando os subsídios dos combustíveis fósseis para uma transição energética justa.

– Estabelecendo uma redução global da produção existente de petróleo e gás compatível com a meta global de 2050 de zero líquido. “Apelo também aos CEOs de todas as empresas de petróleo e gás para que sejam parte da solução”, disse Guterres.

Para ele, governos devem ainda detalhar claramente os cortes de emissões reais para 2025 e 2030, e os esforços para mudar os modelos de negócios para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e aumentar a escala da energia renovável.

A transformação ainda precisa ocorrer no transporte marítimo, aviação, aço, cimento, alumínio, agricultura.

Mudanças climáticas deixam biomas próximos de ponto sem retorno

Biomas em todo o mundo podem chegar em breve ao chamado ponto de inflexão. Na prática, isso significa que os danos provocados pelas mudanças climáticas serão irreversíveis. Estudo recente publicado na revista científica Reviews of Geophysics coloca a Floresta Amazônica e recifes de corais, como a Grande Barreira de Corais na Austrália, no rol de atingidos. Mas outras autoridades, como o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, atestam a informação.

No último dia 12, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) divulgou dados preocupantes envolvendo as mudanças climáticas e ameaças ao cultivo de alimentos no Brasil. O levantamento conjunto com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) estima aumento na temperatura em regiões cultiváveis no país de até 2,8°C até 2050. Isso em um cenário onde a produção de feijão, por exemplo, terá de crescer 44% para dar conta da demanda nacional.

Desafios urgentes

Os desafios são urgentes. O governo brasileiro atua para reverter um cenário de descontrole no desmatamento, herdado do ex-presidente Jair Bolsonaro. A tarefa é ingrata e os índices de devastação seguem elevados. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou que fevereiro bateu o recorde de desmatamento de toda a série histórica para o período, iniciada em 2015. O aumento alarmante do desmatamento, especialmente nos últimos quatro anos, colocou o Brasil como quinto maior emissor de gases do efeito estufa no mundo.

Enquanto isso, seguem os efeitos de uma geopolítica desastrosa. Por exemplo, a guerra entre Rússia e Ucrânia leva a comunidade europeia a reativar usinas termoelétricas a carvão. Trata-se do modal energético mais prejudicial ao meio ambiente. Além disso, outro estudo encomendado pelo governo alemão, divulgado nesta semana, aponta que o país gastará cerca de € 1 trilhão para mitigar efeitos das mudanças climáticas até 2050.

Mudanças climáticas

Uma corrente científica ganha força nos últimos anos entre os geólogos, o conceito do Antropoceno. Trata-se de uma nova era geológica na Terra, caracterizada pela influência do homem nos ecossistemas e nas demais organizações planetárias. O termo, criado pelo químico Paul Crutzen, Nobel de Química de 1995, leva como ponto básico de inflexão os disparos das primeiras bombas atômicas, além da queima intensiva de combustíveis fósseis. Ou seja, reflexo da evolução tecnológica e da expansão populacional da humanidade, fatores que podem levar a sociedade à maior crise de sua história.

De acordo com o estudo, coordenado por 12 pesquisadores de Brasil, Canadá, China, Estados Unidos e Reino Unido – publicado na Reviews of Geophysics –, as mudanças antropogênicas, ou seja, aquelas causadas pelo homem, são notáveis e crescentes. Entre elas, destaque para 10:

– Mudanças em correntes oceânicas;

– Liberação de metano do assoalho marinho (fundo do oceano);

– Perda de grandes camadas de gelo;

– Liberação de carbono de camadas congeladas do solo;

– Mudanças nas florestas boreais;

– Alterações em ventos de monções (associados à alternância entre a estação das chuvas e a estação seca);

– Dispersão de nuvens estratos-cúmulos (que se formam abaixo dos 2 mil metros de altitude);

– Perda do gelo do Ártico no verão;

– Transformações na Floresta Amazônica;

– Branqueamento de corais de águas rasas.

“Essas mudanças podem afetar ecossistemas de modo sem precedentes. Talvez não na nossa geração, mas seguramente na de nossos filhos e netos”, explica a pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e a coautora do estudo, Liana Anderson, na National Geografic. “Então, é uma responsabilidade muito grande que a gente precisa incorporar como sociedade e como prática diária, de repensar nossas ações, nossas decisões.”


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