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Ecologia
Mudanças climáticas e práticas humanas insustentáveis ameaçam bilhões de pessoas e os ecossistemas do planeta
Publicado em 30/03/2025 12:38 - Semana On
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A Terra está ficando mais seca. E os lagos, mais mortos. Em um cenário global marcado pelo avanço das mudanças climáticas e por práticas humanas insustentáveis, dois processos silenciosos e devastadores se intensificam de forma simultânea: a desertificação das terras e a desoxigenação dos ecossistemas de água doce. O resultado é uma erosão profunda das bases da vida — do solo que alimenta à água que sustenta. Estudos recentes mostram que a seca permanente já afeta 40,6% da superfície do planeta e coloca em risco a segurança de mais de 2 bilhões de pessoas, enquanto o oxigênio dos lagos desaparece numa velocidade superior à dos oceanos, ameaçando toda a biodiversidade aquática.
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Seca não é desertificação. A distinção, feita pela cientista climática Michela Biasutti, do Observatório Lamont-Doherty, é crucial: “O solo pode estar improdutivo durante uma seca, mas isso não significa que ele esteja desertificado. A desertificação é uma transformação permanente, em que a terra não consegue mais se regenerar mesmo após o retorno das chuvas”. (Lamont-Doherty Earth Observatory, 2023). Ainda assim, a combinação de eventos extremos climáticos e manejo predatório está acelerando a transição da seca temporária para a degradação permanente.
Segundo a Convenção das Nações Unidas para Combater a Desertificação (UNCCD), entre 25% e 35% das áreas áridas do planeta — onde já vivem 2,3 bilhões de pessoas — estão em processo de desertificação. A cifra é alarmante, considerando que as terras áridas cobrem mais de 40% da superfície terrestre (exceto a Antártida). E a projeção para 2100, caso o ritmo atual se mantenha, é ainda mais inquietante: até 5 bilhões de pessoas poderão viver em zonas secas.
Os vetores dessa degradação são amplamente conhecidos: mudanças climáticas, desmatamento, agricultura industrial, superextração de água e crescimento urbano desordenado. Mais de 24 bilhões de toneladas de solo fértil são perdidas anualmente, enquanto aquíferos inteiros, como os do Mar de Aral, são exauridos até se transformarem em desertos salinizados, como o Aralkum. No Brasil, vastas regiões do semiárido, do Cerrado e até da Amazônia vêm sendo pressionadas por essas mesmas dinâmicas.
Água sem oxigênio: os lagos agonizam em silêncio
Enquanto os solos se tornam pó, a água se transforma em um meio hostil à vida. Um estudo recente publicado na revista Science Advances (Kun et al., 2024) analisou dados de mais de 15 mil lagos em todo o mundo nas últimas duas décadas e chegou a uma conclusão perturbadora: 83% desses ecossistemas perderam níveis significativos de oxigênio dissolvido (OD) na superfície — um processo conhecido como desoxigenação.
A causa? O aquecimento global reduz diretamente a solubilidade do oxigênio na água. Segundo os autores, essa perda de solubilidade explica 55% da queda no OD. A eutrofização — excesso de nutrientes oriundos de esgoto ou fertilizantes — responde por cerca de 10%. As ondas de calor, cada vez mais frequentes e intensas, agravam o problema, com reduções súbitas de até 7,7% nos níveis de oxigênio em comparação com períodos climáticos médios.
A importância disso não pode ser subestimada. Ecossistemas de água doce dependem do oxigênio para sustentar a vida aeróbica. Sua perda compromete desde algas até peixes e aves, com impactos em cascata sobre populações humanas que dependem desses corpos d’água para abastecimento, alimentação e lazer. A desoxigenação, como a desertificação, tem também um componente social: prejudica comunidades vulneráveis e empurra populações para zonas urbanas, aumentando a pressão sobre cidades e recursos.
Desertos avançam, cidades resistem
Apesar da gravidade do cenário, os exemplos de resistência se multiplicam. Na China, o projeto de restauração do Planalto de Loess conseguiu reverter décadas de degradação por meio da ação conjunta do Estado e das comunidades locais — com o uso de terraços, barragens e reflorestamento adaptado ao bioma local. Já na África, a “Grande Muralha Verde” — ambicioso projeto que busca reflorestar 8.000 km do Sahel — sofreu reveses iniciais, mas passou a adotar um modelo baseado na participação comunitária, uso de espécies nativas e gestão local da água e do solo.
Em regiões urbanas, surgem alternativas inovadoras. Iniciativas como a Trees in Dry Cities Coalition, no Senegal, e as miniflorestas de Akira Miyawaki — áreas de vegetação nativa plantadas densamente em espaços pequenos — mostram que até mesmo nas cidades é possível restaurar microclimas, resfriar o ambiente, melhorar o solo e aumentar a biodiversidade.
Combater a desertificação e a desoxigenação exige mais do que tecnologia
A desertificação e a perda de oxigênio nos lagos não são apenas crises ambientais — são sintomas de um modelo civilizatório em exaustão. “Os pobres são os que mais sofrem com a degradação da terra, porque são os mais dependentes dela”, adverte a UNCCD. E o mesmo vale para a água.
As soluções exigem um pacto multissetorial: Estados, comunidades, organizações internacionais e o setor privado precisam atuar de forma coordenada. Desde a adoção de práticas agrícolas regenerativas (como o plantio direto e a agrofloresta) até o investimento em tecnologias de monitoramento da aridez, tudo precisa convergir para um modelo de gestão sustentável e inclusivo. Conhecimento tradicional, ciência de ponta e ação política precisam caminhar juntos.
Como conclui o estudo de Shi Kun e Zhang Yunlin: “A desoxigenação dos lagos é um sinal da urgência com que precisamos repensar nossa relação com os ecossistemas de água doce” (Science Advances, 2024).
A Terra seca e os lagos sufocam. Mas a restauração ainda é possível. O desafio é gigantesco, mas não intransponível. O tempo, no entanto, é curto — e a ação precisa ser profunda, coletiva e justa. Não há espaço para soluções superficiais em um planeta que perde solo, água e ar.
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