Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Comportamento
Nascido como fórum de apoio, movimento se tornou um polo global de misoginia
Publicado em 12/04/2025 9:07 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O ressentimento virou discurso, o discurso virou comunidade e a comunidade, radicalização. No submundo virtual dos chamados incels — os “celibatários involuntários” —, frustração amorosa se converte em ideologia, e a misoginia encontra terreno fértil em plataformas digitais populares entre adolescentes. A série Adolescência, que viralizou ao retratar esse universo, escancara uma realidade preocupante: o ódio de gênero, gestado em fóruns digitais, já está no Brasil — mais forte, mais acessível e mais invisível do que nunca.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
O termo incel surgiu de forma quase inocente nos anos 1990. Foi cunhado por Alana, uma jovem canadense que, enfrentando dificuldades nos relacionamentos, criou o Projeto de Celibato Involuntário da Alana — um espaço para partilhar solidão. Mas o que era um fórum de apoio emocional acabou cooptado por homens frustrados e ressentidos. “É como ser a cientista que descobriu a fissão nuclear e depois descobre que ela está sendo usada como uma arma de guerra”, disse Alana ao The Guardian em 2018.
Hoje, incels formam comunidades digitais que orbitam ao redor de arquétipos caricatos — Chads, os homens desejados; Stacys, as mulheres supostamente promíscuas; e eles próprios, os “rejeitados”. É um mundo onde as mulheres são vistas como causadoras da infelicidade masculina, e onde a linguagem da derrota amorosa se mistura ao discurso de ódio. O crescimento dessa subcultura já preocupa governos. Em 2022, o Serviço Secreto dos EUA classificou o extremismo incel como uma ameaça nacional.
O fenômeno no Brasil: entre o ressentimento e o radicalismo
Segundo um relatório de 2023 do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, os incels integram uma das principais fontes de discurso de ódio e extremismo digital no Brasil. A pesquisadora Bruna Camilo, da PUC-MG, monitorou interações entre incels brasileiros no Telegram entre 2021 e 2022 e alerta: “São grupos organizados, que entendem que a mulher é o grande problema da sociedade”. Sua radicalização, explica ela, se intensifica conforme os direitos das mulheres avançam, o que é interpretado como ameaça à masculinidade tradicional.
Os brasileiros replicam a ideologia vinda dos Estados Unidos, mas adaptam o vocabulário: criam gírias locais, demonstram admiração a figuras como Olavo de Carvalho e encontram inspiração em episódios de violência, como o feminicídio de Eloá Pimentel, retratado em comunidades incel como um “ato exemplar” diante da rejeição — um sinal trágico e perturbador do grau de distorção emocional e moral envolvido.
Os fóruns incel migraram para plataformas como Discord, TikTok, YouTube e Instagram, alcançando sobretudo jovens e adolescentes em busca de pertencimento. Mas nem sempre o rótulo “incel” é assumido abertamente. “Eles não se chamam incels nas redes grandes, mas replicam toda a terminologia, todo o vocabulário de ódio”, explica Camilo.
O ciclo de frustração e adoecimento
Apesar da virulência de parte do discurso, estudos mostram que muitos incels estão em profundo sofrimento psíquico. Pesquisa da Universidade de Swansea, no Reino Unido, apontou prevalência elevada de depressão severa, ansiedade, solidão e até traços de autismo entre membros autodeclarados incels. “Eles parecem ter erros de pensamento específicos sobre os relacionamentos sexuais que podem afetar seus relacionamentos interpessoais”, afirmou Andrew Thomas, coautor do estudo, à imprensa britânica.
Diferentemente de abordagens puramente repressivas, especialistas defendem políticas públicas de saúde mental e educação emocional como caminho mais eficaz para lidar com a questão. O relatório da União Europeia de 2021, por exemplo, recomendou o desenvolvimento de espaços online alternativos onde meninos e jovens homens possam discutir temas como rejeição, desejo e vergonha sem recorrer à misoginia.
Machosfera e ultradireita: os fios de uma mesma rede
Os incels são parte da chamada machosfera — um ecossistema digital onde prosperam narrativas hipermasculinas, antifeministas e ultraconservadoras. Esse ambiente é também, frequentemente, uma porta de entrada para a radicalização política à direita. Como já alertava o sociólogo francês Gérald Bronner, em seu livro Apocalipse Cognitivo (PUF, 2021), a arquitetura das redes sociais favorece a amplificação de ideias extremas e recompensa o discurso mais inflamado. “A democracia é a vítima silenciosa desse processo”, escreve Bronner.
A influência da extrema direita no crescimento do movimento incel no Brasil não é coincidência. O culto à virilidade, o desprezo pela equidade de gênero e a retórica do ressentimento social compõem o caldo ideológico comum que conecta esses discursos. Essa convergência exige vigilância institucional — algo que, até o momento, carece de respostas estruturadas por parte do Estado brasileiro. Questionado pela reportagem, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania não respondeu até o fechamento deste texto.
A adolescência como terreno fértil
Não por acaso, a série Adolescência toca um nervo exposto: o momento da vida em que se formam as identidades sociais e afetivas. É justamente nessa fase que muitos jovens se veem vulneráveis à promessa de acolhimento — ainda que distorcido — oferecida pelas comunidades incel. Como lembra a cientista política Bruna Camilo, “é o menino desajeitado, que não sabe se comportar na época de namoro, que vai procurar na internet alguma forma de aceitação”.
É nesse vazio que o extremismo encontra espaço. A falta de políticas públicas voltadas à saúde mental, a ausência de espaços educativos sobre masculinidades e o desmonte de políticas sociais criam o ambiente propício para a ascensão desse tipo de ideologia. E os efeitos vão além do mundo digital: alimentam violências reais, silenciam o debate público e fragilizam os fundamentos de uma sociedade democrática.