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Comportamento

Luz na tela, escuro no sono

Uso de celular na cama aumenta risco de insônia em 59% e reforça impactos na saúde mental

Publicado em 05/04/2025 10:57 - Semana On

Divulgação Semana On

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Na era digital, o gesto aparentemente inofensivo de checar o celular antes de dormir se transformou em um problema de saúde pública. Um novo estudo revela que apenas uma hora de exposição a telas na cama pode aumentar em 59% o risco de insônia e comprometer a qualidade do sono em jovens adultos. Em meio à hiperconectividade, o descanso virou um luxo ameaçado por luzes artificiais, notificações incessantes e hábitos que desafiam os limites do corpo humano.

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Num tempo em que o mundo cabe na palma da mão, o sono — uma necessidade biológica básica — tornou-se vítima colateral da vida online. O mais recente alerta vem de um estudo publicado no periódico científico Frontiers in Psychiatry, conduzido com mais de 45 mil jovens adultos noruegueses, que aponta para uma relação direta entre o uso de telas na cama e distúrbios do sono: uma hora de exposição reduz, em média, 24 minutos do tempo total de sono e eleva em 59% as chances de insônia.

Os dados foram extraídos da pesquisa Saúde e Bem-estar do Estudante, conduzida em 2022 na Noruega, e se somam a uma ampla literatura científica que vem alertando para os riscos da hiperexposição digital noturna. A pesquisadora Gunnhild Johnsen Hjetland, do Instituto Norueguês de Saúde Pública, é categórica: “O tipo de atividade de tela não parece importar tanto quanto o tempo total gasto com telas na cama” — ou seja, não importa se o usuário está assistindo a um documentário, navegando no Instagram ou ouvindo um podcast: o problema está na substituição do descanso pelo consumo digital.

A cultura digital noturna, muitas vezes justificada como forma de relaxamento, na verdade impõe ao cérebro estímulos que prolongam o estado de vigília. Segundo a Fundação Nacional do Sono, dos Estados Unidos, um terço dos adultos relata algum grau de insônia, sendo que metade afirma que o problema impacta negativamente suas atividades diurnas. No Brasil, os dados da Associação Brasileira do Sono apontam que cerca de 73 milhões de pessoas têm dificuldades para dormir.

Embora populares, as explicações que culpam a luz azul do celular por enganar o corpo e induzi-lo a permanecer acordado não contam com tanto respaldo empírico quanto se imagina. A intensidade da luz e o tempo de exposição são, segundo os especialistas, mais determinantes que o comprimento de onda. Aplicativos ou óculos que bloqueiam luz azul, portanto, têm efeito limitado. “Mais eficaz é reduzir o brilho da tela ou, preferencialmente, evitar o uso”, resume Hjetland.

Além da luz e do tempo, o conteúdo consumido tem papel significativo. Filmes de terror, debates tóxicos nas redes sociais ou qualquer conteúdo emocionalmente perturbador podem ativar o sistema de alerta do cérebro, liberando cortisol — o hormônio do estresse — e inibindo o sono profundo e a fase REM, essenciais para a consolidação da memória e o equilíbrio emocional.

Do ponto de vista sociológico, vivemos o que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chama de “sociedade do desempenho”, onde a exaustão é estetizada e a vigilância é internalizada. Não dormir virou quase um símbolo de produtividade ou resistência. Mas o preço disso é alto: a privação de sono está associada ao aumento de quadros de ansiedade, depressão, déficit de atenção e queda na imunidade, além de comprometer o aprendizado e a função cognitiva.

Estudos conduzidos por instituições como a Universidade de Harvard e a Organização Mundial da Saúde reforçam essa correlação. Segundo a OMS, distúrbios do sono são hoje um dos principais fatores de risco para doenças mentais. A Harvard Medical School aponta que adolescentes que não dormem o suficiente apresentam desempenho escolar significativamente inferior, além de maior propensão ao uso de substâncias.

A recomendação dos especialistas é clara: telas fora da cama. Reduzir o tempo de uso antes de dormir — idealmente entre 30 e 60 minutos —, desabilitar notificações e adotar rituais de relaxamento são medidas eficazes. Leitura em papel ou em e-readers sem luz artificial, por exemplo, demonstraram efeitos positivos na indução ao sono. “A mudança de hábito é uma intervenção simples, de baixo custo e alto impacto na qualidade de vida”, conclui Hjetland.

Nesse cenário, o desafio não é apenas individual, mas coletivo. Reeducar os hábitos digitais exige políticas públicas de saúde, campanhas de conscientização e, sobretudo, uma reflexão sobre o modelo de sociedade que estamos construindo — uma sociedade onde a conexão permanente vem custando cada vez mais caro ao bem-estar humano.

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