13/04/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Você já desenhou Maomé hoje?

Publicado em 08/01/2015 12:00 - Rodrigo Amém

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Radicais islâmicos assassinaram cartunistas de um jornal satírico francês. Um novo capítulo numa luta histórica que é central na trajetória da condição humana: a sofisticação criativa contra a ignorância raivosa. A pena contra a espada. Historicamente, a principal arma daqueles que temem a evolução de nossa espécie rumo à iluminação intelectual tem sido o terror em suas diferentes formas de expressão.

Mas como podemos derrotar o terrorismo? O terrorismo é a ignorância alimentada pela miséria, armada de testosterona e blindada pela superstição.  Tudo o que o terrorista quer é a legitimação de seu sistema de valores. Um sistema onde o reconhecimento do valor de um homem não se dá através de sua vida, mas de sua morte. Ser mártir, para o terrorista, não só é a única forma de salvação divina, como também é a única forma atingir qualquer forma de relevância, de exercer qualquer impacto durante sua miserável existência terrena. Terrorismo é, de certa forma, uma violenta combinação de vaidade e desespero.

A melhor postura contra a barbárie é não acatar suas demandas. Não respeitar suas exigências. Ser irreverente diante da ameaça.

Não há muito que se possa fazer contra um terrorista. A morte, ele crê, é uma recompensa. Na pior das hipóteses, é o fim de uma vida sem perspectivas. Na melhor, é a promessa de um paraíso onde ele será lembrado como algo além de mais um rosto miserável na multidão. De uma forma ou de outra, sua execução teria o impacto de rebaixar o ocidente ao seu obscurantismo medieval. Para sua causa, a morte é lucro.

Os cartunistas franceses foram mortos porque fizeram charges com a imagem de Maomé. Se respondermos ao ataque transformando charges satirizando religiões como um tabu, eles vencem e a violência é legitimada como forma de discurso. O terror terá conseguido sacralizar o Islã mesmo entre os “infiéis”. Os assassinos serão aclamados como exemplo para outros famintos de atenção e relevância.

Jornalistas usam muito displicentemente uma palavra poderosa: irreverência. Dizem que todo mundo engraçado (ou nem tanto) é irreverente. Ser irreverente significa não reverenciar. Não aceitar. Questionar. A melhor postura contra a barbárie é não acatar suas demandas. Não respeitar suas exigências. Ser irreverente diante da ameaça.

A solução não é menos irreverência. É mais. Porque, para o terrorista, a pior tortura é a irrelevância de sua existência. A praga que assombra a sua alma é sua própria insignificância. A solução é um mundo em que Maomé é tão caricaturado, reproduzido e ridicularizado quanto Ronald McDonald. Ou Jesus Cristo. 

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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