13/06/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Vai ter golpe

Publicado em 27/02/2015 12:00 - Rodrigo Amém

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Eu ainda era criança quando, recém saído da (tão saudosa para alguns) ditadura, me deparei com a primeira denúncia de corrupção governamental. Milhões foram desviados desta ou daquela autarquia. E eu pensei: “Como é que milhões somem? Ninguém deu falta? O Brasil deve ser muito rico!” Cid Moreira fez o possível para acalmar meu inquieto e inocente espírito infantil. “O governo lançará uma rigorosa investigação para averiguar os fatos e punir os culpados”, garantiu-me a futura voz de Deus.

De lá pra cá, milhões desaparecidos viraram bilhões. E as investigações se sucederam em exercícios de frustração e esquecimento. Pouca gente, se alguém, foi punida. E volta e meia, aquela vozinha inocente que eu costumava ter volta a sussurrar: “Devemos ser muito ricos”.

Que esperança podemos ter de alcançar um ideal comum se não conseguimos um consenso nem sobre as cores de um vestido?

Nem o topo da pirâmide dos bilionários do mundo reage com tanta indiferença à dilapidação do próprio patrimônio quanto o brasileiro. O máximo que nos permitimos é usar o novo fato como arma em uma sórdida guerra ideológica, onde só me incomoda o roubo perpetrado por aquele que pertence ao "outro lado”. Somente o cinismo dos ricaços pode exigir as cabeças de toda a esquerda de forma indistinta enquanto Malufs e Sarneys da vida tomam cafezinho em seus gabinetes.

Eu não acredito numa solução pacífica e democrática para os problemas do Brasil. Aliás, para os problemas de país nenhum. As “nações civilizadas” que tanto invejamos conquistaram uma noção de comunidade que nos falta. Um senso comum que é infinitamente mais sofisticado que essa distorção manipuladora de patriotismo que sacode as arquibancadas a cada quatro anos. Mas essa conquista não foi de graça. Veio do derramamento de sangue, da necessidade de cooperação para sobrevivência.

Historicamente, o Brasil desfilou, indolente, da monarquia à democracia. Sempre embalado pela turma do “deixa disso”, pelo discurso do “muda para ficar como está”. Uns tempos atrás, fingimos acreditar num impeachment que nunca ocorreu. Agora, parece que vamos, mais uma vez, “mudar para deixar como está”.

Acho que vai ter golpe, sim. De esquerda e de direita, alternadamente, até o fim dos dias. Além do mais, que esperança podemos ter de alcançar um ideal comum se não conseguimos um consenso nem sobre as cores de um vestido?

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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