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Ponte Aérea
A propaganda escancarada do CEO da Politico Europe sobre Israel
Publicado em 13/10/2025 3:05 - Raphael Tsavkko Garcia
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Às vezes, é difícil acreditar que certos artigos realmente foram escritos — e publicados. A Politico Europe recentemente veiculou um texto assinado por Mathias Döpfner, seu presidente e CEO, que beira a propaganda política. Trata-se de um exercício sofisticado de manipulação narrativa, centrado na figura de Ofir Amir, um cidadão alemão retratado como vítima do ataque de 7 de outubro em Israel.
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Na versão de Döpfner, Amir é descrito quase como um herói europeu em solo israelense — ou, para sermos mais precisos, palestino. A narrativa sugere que esse cidadão alemão teria mais direito à terra do que a própria população nativa. Não há espaço, no artigo, para contextualizar o conflito ou para mencionar a realidade da ocupação prolongada que afeta os palestinos há décadas.
Döpfner repete, sem questionamento, versões já desmentidas de atrocidades cometidas por militantes do Hamas, como a história de crianças decapitadas — uma alegação que foi amplamente desmentida por veículos internacionais e agências de checagem. Ele afirma que “1.139 pessoas foram assassinadas, entre elas 695 civis, incluindo 36 adolescentes e crianças”. No entanto, omite que grande parte dessas mortes pode ter resultado da chamada “diretriz Hannibal”, uma política controversa das Forças de Defesa de Israel (IDF), que permite o uso de força letal para evitar o sequestro de soldados — ainda que isso signifique sacrificar civis.
Tampouco se menciona o número de palestinos mortos em Gaza desde então, que supera em muito os números israelenses. Para efeito de comparação, 36 crianças mortas representam, tragicamente, um dia relativamente comum sob os bombardeios israelenses em Gaza.
É inegável que a dor de Ofir Amir é legítima — ele foi ferido em um ataque violento. Mas talvez estivesse mais seguro em sua terra natal, a Alemanha, e não em uma região marcada por décadas de colonização e conflito. O artigo de Döpfner tenta, em essência, reforçar a imagem de Israel como eterna vítima, ignorando o poderio militar do país — apoiado e financiado pelos Estados Unidos — e seu histórico recente de ataques que resultaram em milhares de mortes de civis palestinos, incluindo mulheres e crianças.
O texto também desqualifica o reconhecimento da Palestina como Estado soberano, mesmo que 157 dos 193 países membros da ONU já o façam. Döpfner argumenta que esse reconhecimento equivale a apoiar o Hamas, quando, na verdade, a maioria da população palestina não vive sob controle direto da organização. A associação automática entre a causa palestina e o Hamas é uma simplificação perigosa — e bastante conveniente para quem busca minar a legitimidade de um povo inteiro.
Mais preocupante ainda é ver uma publicação jornalística como a Politico abrir espaço para um texto que promove desinformação, distorce fatos e reforça estereótipos. A crítica ao governo israelense ou à ocupação não deve ser confundida com antissemitismo, embora esse argumento seja constantemente utilizado para silenciar vozes dissidentes.
No fim das contas, Döpfner lamenta os crescentes ataques antissemitas no mundo — um fenômeno real e inaceitável — mas falha em reconhecer como a brutalidade do governo israelense pode contribuir para a radicalização e para o aumento do ódio. Transferir toda a responsabilidade às vítimas da ocupação, ignorando os perpetradores da violência, é não apenas desonesto, mas profundamente perigoso.
A dor de Ofir não deve ser ignorada. Mas tampouco deve ser instrumentalizada para justificar o sofrimento de milhares de palestinos. O texto de Döpfner não informa: ele encobre. E, diante do cenário atual, dançar sobre os escombros de Gaza é o que muitos leitores sentiram ao terminar sua leitura.
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RAPHAEL TSAVKKO GARCIA
É jornalista, editor e Ph.D em Direitos Humanos pela Universidade de Deusto.
Raphael Tsavkko Garcia analisa a política no Brasil e no mundo
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