18/05/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Truco, Dotôr!

Publicado em 07/11/2014 12:00 - Rodrigo Amém

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Luciana Silva Tamburini, agente da Operação Lei Seca, foi condenada por dizer ao juiz João Carlos de Souza Corrêa, que “juiz não é Deus”. Ela estava errada. Dentre as atribuições e responsabilidades de seu cargo, não constam sarcasmo e ironia. Não cabe a ela, como autoridade representando o Poder Público, se comportar como uma personagem de sitcom americano e fazer chacota do cidadão. Seja ele quem for.

O juiz João Carlos de Souza Corrêa estava dirigindo um carro sem placa, sem documento e sem carteira de motorista. Também se recusou a fazer o teste do bafômetro. Aparentemente, o meritíssimo não é novato no clube do “você sabe com quem está falando”.

Do embate de duas posturas equivocadas, nasceu o imbróglio que reascendeu a polêmica da cultura da carteirada no Brasil.

Não tem futebol, samba, nem bunda. A verdadeira paixão nacional é o título. O sonho da família brasileira é o filho autoridade.

Não tem futebol, samba, nem bunda. A verdadeira paixão nacional é o título. O sonho da família brasileira é o filho “autoridade”. Num país em que menos de 0,5% da população chega a cursar um doutorado, todo mundo quer ser chamado de doutor. Mas não são os anos de estudo e produção científica que seduzem o imaginário de nossos pais. É a distinção de classe. É a ilusão de superioridade social que só um bom pronome de tratamento pode proporcionar.  Uma herança maldita do império português, que começou a chamar os médicos e juristas patrícios de “doutores” para diferenciá-los dos seus pares brasileiros. Ainda hoje, quem defende a injustificável hábito de chamar bacharéis de doutores apela à “tradição”. É o famoso argumento do “já que está, deixa ficar”.

De posse do seu título, muito brasileiro passa a ter uma visão distorcida de si mesmo e dos outros. Meu pai costumava dizer que “tem gente que sobe na gilete e já quer fazer discurso”. Aí, o seu “poliça” acha que pode tratar o cidadão com escárnio. Aí o cidadão enche o peito e grita: “Você é poliça, mas eu sou juiz!” E o “poliça”: “É juiz mas não é Deus”, num jogo de truco em que só quem perde é a sociedade.

É difícil viver num Estado democrático onde uma parte da população ainda espera o convite para o Baile da Ilha Fiscal.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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