19/05/2024 - Edição 540

Re-existir na diferença

Sonho com serpentes

A repetitiva tormenta capitalista

Publicado em 14/06/2023 1:47 - Túlio Batista Franco

Divulgação Chantal Powell

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Sueño con serpientes
Con serpientes de mar
Con cierto mar, ay
De serpientes, sueño yo
Largas, transparentes
Y en sus barrigas llevan
Lo que puedan arrebatarle al amor.

Oh, la mato y aparece una mayor
Oh, con mucho mas infierno en digestion

(Silvio Rodrigues)

Sueño con serpientes é uma música composta pelo cubano Silvio Rodriguez em 1974, e nos fala de uma metáfora, na qual o autor tenta eliminar a serpente, mas ela sempre renasce, e aparece como uma serpente maior, mais robusta, capaz de causar-lhe mais sofrimento e dor. Este é um movimento repetitivo, que obsessivamente faz com que ele fique prisioneiro da serpente, buscando matá-la e ela renovando-se infinitamente.

A música me faz lembra a tormenta na qual vivemos desde sempre, na atividade cotidiana de lutar contra um sistema que faz jorrar sofrimento por todos os lugares da vida. O capitalismo não é apenas um regime econômico, mas ele se manifesta na carne, ossos e na alma de cada pessoa. Marcado sobretudo por uma enorme capacidade de se transmutar, modificar, e em nova roupagem, como um camaleão que no permanente mimetismo, simula folhas secas, verdes, troncos e gravetos. A camuflagem é a nova estética que engana, seduz, captura, e assim, mantém o infinito ciclo de opressão.

Byung-Chul Han no seu livro “Psicopolítica – O neoliberalismo e as novas técnicas de poder”, compara a sociedade disciplinar característica do capitalismo industrial a uma “toupeira”, que vive em espaços reclusos como escolas, prisões, manicômios, hospitais, fábricas, etc…. Esse modelo de disciplina dos corpos, é substituído nos tempos atuais por eficazes dispositivos de controle, que ocorrem em sistemas abertos, não mais em territórios fechados, mas em fluxos. Da toupeira à serpente, diz o autor, sobre esta capacidade de mutação do capitalismo para manter sua perspectiva de acumulação ilimitada: _ “a passagem da toupeira para a serpente não é uma irrupção padra uma forma de vida completamente diferente, mas uma mutação, um agravamento do próprio capitalismo”.[1]

O mundo assim se apresenta, quanto mais lutamos, mais formas o capitalismo inventa para continuar sua sina de perpetuar-se. Mas, na canção de Silvio Rodrigues a serpente acaba morta por uma verdade que lhe é introjetada no corpo, ao engolir o protagonista. O capitalismo no final da história perece sob a força e potência da vida verdadeira, uma nova perspectiva de construção do mundo. Podemos manter a esperança.

Esta al fin me engulle
Y mientras por su esofago paseo
Voy pensando en que vendra
Pero se destruye
Cuando llego a su estomago
Y planteo con un verso
Una verdad

 

[1] 2018. Pág. 30.

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Emerson Merhy, Túlio Franco, Ricardo Moebus e Cléo Lima


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