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Ágora Digital

Qual a crítica da esquerda ao identitarismo?

Como escreveu Angela Davis, “não aceitamos apenas ser diferentes; queremos mudar o que nos torna diferentes, em um mundo que gera desigualdades”

Publicado em 31/10/2024 10:50 - Victor Barone

Divulgação Victor Barone - Photoshop

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No cenário atual da esquerda, poucos debates provocam tantas divisões quanto o do identitarismo. A abordagem identitária, com sua ênfase em reconhecer e valorizar identidades de grupos específicos – como raça, gênero e orientação sexual –, visa retificar injustiças históricas ao conferir visibilidade e poder a grupos marginalizados. A ideia, em teoria, parece impecável: tornar explícitas as feridas que o universalismo liberal, em sua suposta neutralidade, ignorou ou camuflou. Contudo, críticos de esquerda alertam que, ao priorizar o reconhecimento identitário em detrimento das lutas econômicas, o identitarismo corre o risco de se tornar uma ferramenta de fragmentação, enfraquecendo o que deveria ser um movimento coeso contra a opressão e exploração capitalistas.

Nancy Fraser, filósofa e teórica feminista, coloca o problema de maneira aguda ao afirmar que “o capitalismo cultural incorporou a diversidade como uma de suas qualidades enquanto ignora as desigualdades econômicas”. Para Fraser, embora o reconhecimento cultural de identidades seja importante, ele é insuficiente se não estiver articulado a uma luta pelo que ela chama de “redistribuição econômica”. Em outras palavras, o identitarismo, ao focar no reconhecimento, é facilmente absorvido pelo neoliberalismo, que se especializou em capitalizar as demandas culturais para manter intactas as estruturas econômicas. Essa absorção resulta em políticas corporativas de “diversidade”, onde empresas defendem o respeito a diferenças internas enquanto perpetuam a exploração trabalhista e a desigualdade social.

Esse processo de “cooptação pelo capitalismo” é outro ponto central na crítica ao identitarismo. Slavoj Žižek, filósofo esloveno conhecido por sua crítica ao capitalismo e à cultura contemporânea, aponta que o identitarismo tende a reproduzir o individualismo liberal, no qual as experiências individuais se tornam o núcleo da política. Ao colocar o sujeito identitário no centro, o identitarismo reforça uma lógica de diferenciação que o próprio capitalismo fomenta. Na visão de Žižek, “é justamente na fragmentação que o capitalismo prospera”, pois esta impede a formação de uma solidariedade baseada na materialidade da vida – aquela que permitiria um movimento coletivo contra as engrenagens do sistema.

Este movimento de particularização das demandas leva a outra crítica frequente: a fragmentação da luta de classes. Para Adolph Reed Jr., pensador marxista, a ênfase nas identidades específicas – e a consequente fragmentação de grupos – afasta a esquerda do seu compromisso fundamental com a justiça econômica. Reed alerta que, ao abandonar o antagonismo capital-trabalho como o eixo central da luta social, o identitarismo oferece soluções paliativas, dando lugar a batalhas que, apesar de legítimas, se limitam ao campo simbólico, sem atacar a raiz das desigualdades materiais. Em seu artigo “The Trouble with Uplift” (2014), Reed sustenta que a esquerda deve se unir na criação de uma política universalista, que inclua, mas não se reduza, às demandas identitárias.

Essas críticas não desconsideram a importância de se combater o racismo, o machismo ou a homofobia. Pelo contrário, entendem que a luta contra opressões identitárias deve ser parte de um projeto mais amplo de transformação social. Angela Nagle, autora de “Kill All Normies”, observa que o identitarismo, em sua forma mais radical, promove uma “cultura do cancelamento” e uma polarização nos debates que não apenas aliena potenciais aliados, mas também silencia vozes discordantes. Nagle argumenta que, ao invés de criar pontes entre grupos oprimidos, a cultura identitária muitas vezes se converte em uma prática de purificação ideológica, onde o diálogo é substituído pela exclusão. Esse fenômeno representa um retrocesso à construção de um movimento coeso e abrangente, que exige alianças entre aqueles que compartilham uma condição comum de opressão econômica e social.

Outro ponto crucial nesta crítica é o risco de desvio de prioridades. Ao concentrar-se na representação e no reconhecimento simbólico, o identitarismo pode desmobilizar a luta coletiva ao transformar questões sociais em “narrativas”. Em seu livro “Capitalist Realism”, o teórico cultural Mark Fisher adverte sobre o perigo da política como performance, onde as batalhas se limitam a demandas por visibilidade em vez de mudanças reais nas condições de vida. O recente episódio envolvendo a “performance” da historiadora Tertuliana Lustosa na Universidade Federal do Maranhão é um exemplo. Fisher sugere que, ao moldar o ativismo em termos de narrativas individuais de opressão, o identitarismo torna-se uma “válvula de escape” para o capitalismo, permitindo que as estruturas de exploração permaneçam inalteradas.

Talvez o ponto de convergência mais forte entre esses críticos esteja no risco de o identitarismo se tornar um substituto da transformação material pela inclusão simbólica. David Harvey, teórico do espaço e das relações de poder, destaca que o foco em identidades pode fazer com que a esquerda perca de vista a batalha mais ampla contra o neoliberalismo. Harvey explica que “o neoliberalismo, ao acentuar a precarização do trabalho e a privatização de direitos, exacerba as desigualdades que muitos movimentos identitários tentam combater”, mas faz isso enquanto habilmente adota o vocabulário do reconhecimento. Assim, o neoliberalismo sobrevive não apesar do identitarismo, mas muitas vezes por meio dele.

Por fim, não se trata de ignorar a importância das pautas identitárias, mas de colocá-las em perspectiva dentro de um projeto mais amplo. A crítica da esquerda ao identitarismo pede, sobretudo, que ele seja integrado a uma luta maior, que combine reconhecimento e redistribuição, identidade e classe. A alternativa seria sucumbir àquilo que Todd Gitlin chamou de “política da impotência”, onde as lutas fragmentadas cedem ao neoliberalismo, enquanto o sistema mantém seu controle sobre as estruturas de poder e riqueza.

Assim, a crítica ao identitarismo deve ser vista não como um apelo para abandonar as lutas contra opressões específicas, mas para transcendê-las em busca de um movimento universalista e solidário. Em tempos de desigualdade crescente, talvez seja o momento de lembrar que, embora a diversidade seja essencial, a unidade é imprescindível para a transformação real. Como escreveu Angela Davis, “não aceitamos apenas ser diferentes; queremos mudar o que nos torna diferentes, em um mundo que gera desigualdades”.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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