13/06/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Precisamos de uma bandeira vermelha

Publicado em 04/07/2015 12:00 - Rodrigo Amém.

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Quando os primeiros automóveis começaram a travessar as cidades britânicas, a população teve medo, como é de se esperar da sociedade sempre que uma inovação tecnológica traz consequências desconhecidas à sua porta. A opinião pública teve medo. Medo que as crianças fossem ceifadas por aquelas diligências fantasmas, que os cavalos fugissem em disparada assustados pelo barulho, pela fumaça, pela inexplicável andar da carruagem, por assim dizer. O parlamento inglês fez o que as autoridades fazem quando sua sociedade teme alguma coisa. Criaram novas leis.

Nascia a Lei das Locomotivas em Estradas, em 1861. Sim, pensava-se, na época, que automóveis eram trens fora dos trilhos, apenas.  Em 1865, depois de uma revisão, a lei passou a se chamar Lei da Locomotiva. Mas, para o povo, o nome que colou foi Lei da Bandeira Vermelha.

De acordo com a revisão, todo veículo motorizado precisava ser operado – obrigatoriamente – por três pessoas: o piloto, o copiloto e um homem carregando uma bandeira vermelha e um lampião.

No espírito de respeito à liberdade de expressão, talvez fosse sensato instituir uma bandeira vermelha nas redes sociais. Antes de um comentário racista sobre a garota do tempo, bandeira vermelha.

A velocidade máxima em vias urbanas era de 2 km por hora. Sim, dois quilômetros. Até porque, de acordo com a lei, o homem com a bandeira vermelha deveria vir a pé, na frente do carro, sinalizando sua passagem e iluminando o caminho. Imagine como devia ser divertido dar uma voltinha pela praça no domingo. A lei foi, obviamente, revogada. Depois de trinta anos.

A revolução que proporcionou automóveis já foi relativamente absorvida pela sociedade. Claro, mais pessoas ainda morrem de acidentes automobilísticos anualmente do que em toda guerra do Vietnã. Mas o carro trocou de lado no imaginário humano. Deixou de ser um desconhecido tenebroso para ser bem de consumo, um símbolo de status. Um desejo.

A revolução digital, por sua vez, ainda está bem menos estabelecida. Um adolescente paraibano tocando uma versão acústica de uma música da Beyonce pode atingir mais visualizações que a novela das oito na Globo. E em todo o mundo. Esse alcance de discurso é uma novidade e tanto. E nem todos perceberam que rede social não é mesa de bar. Nem todos ainda se deram conta de que “chupa” faz sentido na comemoração de uma vitória de seu time de futebol, mas não numa discussão sobre redução de maioridade penal.

No espírito de respeito à liberdade de expressão, talvez fosse sensato instituir uma bandeira vermelha nas redes sociais. Antes de um comentário racista sobre a garota do tempo, bandeira vermelha. Artigo de crítico musical sobre a falta de cultura de quem chora a morte de um artista do qual ele nunca havia ouvido falar: bandeira vermelha. Antes de dizer que apoiar causas de minorias é modinha, bandeira vermelha. Pelo menos até entendermos as forças ocultas que movem essas carruagens fantasmas pelas nossas redes, daqui uns trinta anos.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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