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Agromundo

PCC movimenta milhões com contrabando, falsificação e venda de defensivos agrícolas

Mato Grosso do Sul lidera o ranking de apreensão de agrotóxicos irregulares

Publicado em 27/10/2025 2:16 - Semana On

Divulgação

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O Primeiro Comando da Capital (PCC) está operando ativamente no mercado de agrotóxicos falsificados, um setor ilegal que já movimenta cerca de R$ 20,8 bilhões por ano no Brasil, segundo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP). A facção paulista, conhecida pelo tráfico de drogas e armas, agora expande sua atuação para o campo, valendo-se de contrabando, roubo de cargas e falsificação de defensivos agrícolas para abastecer lavouras com produtos tóxicos e ilegais.

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A descoberta ocorreu durante uma operação do MP-SP que investigava agiotagem em Franca, no interior paulista. Interceptações telefônicas revelaram dois integrantes do PCC negociando agrotóxicos destinados a plantações de café. Um dos diálogos interceptados confirmava o recebimento de R$ 40 mil por uma carga de “veneno”, enquanto outro mencionava um calote na negociação de defensivos roubados — o comprador foi ameaçado de inclusão na “lista negra” da facção. Ambos foram presos.

Em julho, o MP-SP apreendeu mais de 30 mil embalagens destinadas à falsificação de agrotóxicos, numa das maiores operações do tipo no estado. A ofensiva revelou o alcance do esquema, estruturado em núcleos responsáveis pela falsificação de rótulos e embalagens, emissão de notas fiscais frias e adulteração de produtos químicos. A facção atua como empresa: há divisão de tarefas, hierarquia e uso de tecnologias que dificultam a identificação dos produtos adulterados.

A lógica do crime: mais lucro, menos risco

De acordo com o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteira (Idesf), o mercado paralelo de agrotóxicos opera sustentado por quatro pilares criminosos: roubo de cargas de produtos químicos legalizados, falsificação de defensivos com misturas ilícitas, contrabando de substâncias proibidas no país e o desvio de finalidade — quando insumos legais são importados com o intuito de adulterar defensivos ilegais.

O contrabando é, segundo especialistas, o mais lucrativo e menos arriscado. “O criminoso não precisa se dar ao trabalho de misturar. Ele traz o produto mais barato da fronteira e coloca na embalagem de um defensivo permitido no Brasil”, explicou Luciano Stremel Barros, presidente do Idesf. A substância mais comum nesse mercado é o benzoato de emamectina, cujo uso é vetado no Brasil, mas liberado no Paraguai desde 2019.

Ali, as quadrilhas legalizam o produto junto ao governo paraguaio, pagando os tributos locais, o que reduz os riscos de apreensão na fronteira. Em seguida, os agrotóxicos são introduzidos clandestinamente no país, principalmente pela BR-163 — a principal rota do tráfico de defensivos agrícolas ilegais. Segundo o Idesf, entre 2018 e 2021, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 54,8 mil quilos de produtos ilícitos nessa estrada. As BRs 116 e 262 também registram alto volume de apreensões.

Embalagens recicladas, lucro reaproveitado

Outro elo do esquema envolve o descarte irregular de embalagens vazias de agrotóxicos. De acordo com o promotor Adriano Mellega, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), o material, quando não segue para reciclagem adequada, vai parar nas mãos do crime organizado. “Elas caem nas mãos do crime e financiam o esquema”, alertou Mellega.

Para especialistas, o problema transcende o prejuízo econômico: trata-se de uma ameaça à saúde pública, à segurança alimentar e à integridade ambiental. Os produtos falsificados frequentemente contêm concentrações irregulares de princípios ativos, podendo contaminar o solo, os alimentos e os trabalhadores rurais. “Estamos diante de um mercado criminoso altamente lucrativo, que opera com um grau de sofisticação que desafia a fiscalização”, destacou Barros.

Pressão por mais fiscalização

Entidades que representam o setor agrícola cobram respostas mais contundentes do Estado. A CropLife Brasil, associação que reúne empresas de pesquisa e desenvolvimento agrícola, reforçou a urgência de ações integradas: “É necessário que haja mais ações de fiscalização e repressão por todas as autoridades que têm alguma atribuição relacionada aos agrotóxicos”, disse a entidade em nota.

O avanço do crime organizado sobre o setor agrícola revela uma mutação preocupante do PCC, que agora atua em áreas antes distantes do seu histórico de atuação urbana. A presença da facção nesse segmento demonstra sua capacidade de adaptação e expansão, explorando brechas regulatórias, ausência de fiscalização eficiente e vulnerabilidades logísticas do agronegócio brasileiro.

SÉRGIO PEDRA

É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.

Mulheres rurais enfrentam informalidade e desigualdade no campo

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Sergio Pedra


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