13/04/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Os fuzilados e o fetiche

Publicado em 23/02/2018 12:00 - Rodrigo Amém

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Não sei se perdi a conta dos massacres em escolas americanas. Parece que foram uns 18, só este ano. Ou seja, uma média de três tiroteios por semana. Se fossem registrados três casos de gripe por semana, ninguém saía de casa sem máscara na terra do Tio Sam. Infelizmente, os massacres de crianças parecem que perderam o poder de comoção. Na maior parte dos casos, as vítimas foram alvejadas com tiros de AR-15. Isso faz diferença. É possível reparar um órgão trespassado por uma bala de calibre 38. Um tiro de fuzil faz com que esse órgão deixe de existir. Quem leva um tiro de revólver no braço ganha uma cicatriz, se receber socorro médico a tempo. Quem leva um tiro de Ar-15 no braço ganha uma prótese, se tiver sorte.  Essa é uma diferença importante. Fuzis não foram inventados para defesa, mas para ataque. Eles existem para matar.

E, no entanto, o estado da Flórida permite que um adolescente de 18 anos compre um AR-15. Não pode ainda comprar cerveja. Mas pode comprar fuzil.  Não pode beber, mas pode matar.

Após cada massacre, há consternação e protesto, mas nada é feito. Nenhuma lei é aprovada para regulamentar a compra e o porte de armas. Cronometrados, são 38 minutos até que uma pessoa – qualquer pessoa – entre numa loja e saia com um rifle militar carregado. Isso em Orlando, do lado da casa do Mickey. Parece absurdo. E é. E nada vai mudar. Em algumas semanas, outras crianças serão massacradas. Segue o baile.

Tem uma questão cultural aí? Tem. Tem dinheiro do lobby da indústria armamentícia disfarçado na fachada do National Rifle Association? Claro que tem.

Mas um certo nível de paranóia? Certamente. Tem um machismo hedonista que adora a sensação de poder daqueles instrumentos fálicos e-nor-mes? Opa.

Mas tem também a manifestação de um subproduto tóxico da vida em sociedade.

Um atirador em série dificilmente ataca uma escola qualquer. Ele procura o local onde estuda ou estudou. Ele fuzila seus próprios colegas. E por uma razão simples. É na sala de aula que o cidadão se descobre corriqueiro, mundano. É lá que deixamos de ter um papel de destaque na família para fazer figuração na sociedade. Para um adolescente com um histórico de desequilíbrio e dificuldades de relacionamento, a fantasia de reafirmação é quase irresistível. Sonham em tocar fogo em tudo. Por nada, a não ser para provar para todos – e para si mesmo – a sua relevância. Poucos têm acesso aos instrumentos capazes de realizar tal fantasia. A não ser na América.

A arma cumpre esse papel de desestabilizador social. Somos todos iguais perante a lei, Deus e o que o valha. Mas quem está armado é – automaticamente – mais forte. A arma atribui poder instantâneo sobre a vida (e morte) de outrem. E essa sensação de ser capaz de virar o jogo com um apertar do gatilho é inebriante. Numa sociedade cheia de dogmas puritanos, não pega bem defender o prazer do atirador no lugar da segurança das vítimas, claro. Então criam-se discursos sobre liberdade, segurança, tradição. Acobertamos a tara com alguns chavões morais. Mas haja patriotismo para engolir adolescentes estraçalhando crianças com armas de guerra.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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