19/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

O Próximo Lula

Publicado em 03/03/2016 12:00 - Rodrigo Amém

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Dia 4 de março de 2016 entrará para a história da direita brasileira como um dia trágico. Foi o dia em que, numa operação espalhafatosa, a PF levou o Lula para depor. Escrevo esta coluna na mesma fatídica sexta-feira e ainda é cedo, muito cedo, para vereditos e condenações. Mas já existe um clima de êxtase no ar, uma eletricidade. E com toda razão. É o que se sente quando um ídolo é desmistificado.

A queda de um mito é sempre um momento de catarse. É a hora em que constatamos que, para o bem e para o mal, os infalíveis não existem. Os que esperavam um herói supremo se desapontam, já aqueles que torciam pela queda dos falsos ídolos se vangloriam por sua própria lucidez realista.

O que nenhum dos dois lados percebe, num primeiro momento, é que heróis não importam. Uma nação não se faz com heróis. Seus padrões inalcançáveis de altruísmo e honestidade são rapidamente dispensados por serem, ora, inalcançáveis. Viram história infantil. Temas de revistas em quadrinhos. Não é por acaso que, num mundo onde todos sabem tudo sobre todos, os heróis idealizados das histórias em quadrinhos tenham conquistado tanto espaço nos cinemas e na TV. O heroísmo virou uma fantasia. Um sonho louco de criança. De perto, ninguém é herói. Ninguém é super. Aliás, o último lançamento do cinema baseado em super seres mascarados é Dead Pool, um personagem que sabe que é personagem de um filme, conversa com a plateia e não se cansa de repetir que não é "um super-herói". Mas eu digresso.

O que nos faz falta é o vilão. É em torno da ideia de um inimigo comum que surge a noção de patriotismo, de comunidade, de respeito ao bem comum. Quando existe um bom vilão, bem assustador, todo mundo consegue se ver como o herói. E essa é a questão crucial da nossa querida direita.

O que nos faz falta é o vilão. É em torno da ideia de um inimigo comum que surge a noção de patriotismo, de comunidade, de respeito ao bem comum. Quando existe um bom vilão, bem assustador, todo mundo consegue se ver como o herói. E essa é a questão crucial da nossa querida direita: durante 30 anos, Lula foi de antagonista patético a vilão número 1 da direita brasileira, posto que ele ocupou nos últimos 13 anos. Tenho certeza que tem muita gente disposta a argumentar que ele fez por merecer o posto, e esse pode até ser o caso. Mas não é essa questão.

Em torno da ideia do "Lutar contra Lula e o PT", a direita se recuperou das suas vergonhas pré, durante e pós ditadura e tirou sua bandeira empoeirada do armário. Não precisou nem sanitarizar o PMDB, porque eles já tinham um vilão ele era barbudo, fazia baderna em fábrica e falava "pobrema". Lula era o vilão que todo conservador pediu a deus. E essa luta chegou ao seu clímax nesta sexta-feira. A humilhação de ver Lula escoltado para seu depoimento foi simbólica do começo do fim.

Pode ser, inclusive, que as revelações das investigações levem a um fim precoce do governo do PT. Dois coelhos com muitas, muitas cajadadas. Depois das comemorações, a ressaca vai trazer aquela sensação sombria de ver o pedestal vazio no castelo do antagonista. 

Aí a direita brasileira vai acordar sem seus antagonistas. Sem os comunistas, sem os petralhas, sem o Lularápio. O que ela vai fazer? Vai continuar as investigações até não sobrar mais ninguém com o rabo preso? Ou vai dar a batalha por vencida?

Pessoalmente, eu acho que já começou a procura pelo novo Lula. E não estou falando da cúpula petista. Feliz é a nação que se dá ao luxo de escolher seus inimigos.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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