22/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

O país dos chinelos

Publicado em 20/05/2016 12:00 - Rodrigo Amém

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Eu não vejo problemas na união de cultura e educação sob um mesmo ministério. A interdependência destas duas pastas é inegável. Eu só acho que há uma inversão de valores: deveríamos ter uma Secretaria da Educação dentro do Ministério da Cultura.

Cultura é a diferença entre um monte de gente e uma nação. É a identidade de um povo, costurada no decorrer de sua história, a partir de seus valores, através de sua arte, ciência, esporte e arquitetura. Educação é o conjunto de processos e metodologias desenvolvido para inserir o cidadão nesta cultura. Você aprende a ler e escrever, matemática e ciências, para ser um membro da uma comunidade e contribuir para o seu desenvolvimento. Tanto econômico quanto cultural.

Mas o cidadão de bem faz uma distinção entre educação e cultura. Educação tem a ver com professor, com vestibular, com concurso público e trabalho formal, carteira assinada. Cultura é coisa de artista. Para ele, há dois tipos de artistas: os de TV e os vagabundos. Artista de TV, seja ator ou cantor, é tudo rico. Não precisa de ajuda do governo. Os vagabundos ou não tem talento ou são preguiçosos e só querem uma boquinha do governo. Dentro deste raciocínio binário, nada mais razoável do que acabar com essa mamata.

Para o ‘cidadão de bem’, cultura é coisa de artista. Para ele, há dois tipos de artistas: os de TV e os vagabundos. Artista de TV, seja ator ou cantor, é tudo rico. Não precisa de ajuda do governo. Os vagabundos ou não tem talento ou são preguiçosos e só querem uma boquinha do governo.

Culturalmente, essa distinção entre arte e trabalho tem história, e não estou falando apenas de formiga e cigarra. Durante muito tempo, o artista era visto como um outro tipo de inseto: o louva-deus. Igreja e nobres do velho mundo financiavam escultores e pintores nas suas representações de fé, o que nos deu obras como a Capela Sistina e a Ave Maria de Handel. Houve também quem fizesse uso político do mecenato, vide Ricardo III do bardo Shakespeare. Mas a arte era uma ferramenta estratégica na modelagem da identidade das nações.Aí Lutero achou que era tudo dispendioso, arrogante e despropositado. O protestantismo mudou o foco da atividade humana. Nada de adorar com escultura e pintura. A melhor forma de oração é o trabalho. Quer louvar a deus? Construa um celeiro. Ordenhe uma vaca. Plante batatas. Sacralizar o trabalho também foi uma importante estratégia para a indústria escravocrata. Não por acaso, os senhores de engenho buscavam suprimir qualquer manifestação cultural dos seus escravos. Sem cultura, sem identidade. E um escravo sem identidade é, bem, um bom escravo.

Além da religião, a única outra forma de manifestação cultural que manteve seu valor social foi a educação. Estabeleceu-se um programa formal de preparação para trabalhos específicos: médico, engenheiro, advogado. Os chamados doutores. O resto era vagabundo (artistas, loucos e prostitutas) ou professor.

Muitas gerações foram criadas neste sistema. Em alguns lugares, é assim que funciona até hoje. Para muitas crianças brasileiras, o professor é o mais próximo de um interlocutor cultural com quem interagirão em toda sua vida. O professor é o único artista que efetivamente fará parte da sua formação.

E como o cidadão de bem só é capaz de empatia para membros do seu próprio grupo, o professor manteve seu valor simbólico, pelo menos. Mesmo que nunca tenha pisado num teatro, o cidadão de bem provavelmente teve um professor que foi fundamental em sua formação. Mesmo que nunca tenha ouvido uma sinfonia, jamais esquecerá a voz ardida da professora de aritmética.

É daí que surge essa ideia de que educação é trabalho, cultura é lazer. É uma profecia auto realizada. Para quem sempre andou descalço, sapato é supérfluo. E o Brasil é internacionalmente conhecido como o país dos chinelos.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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