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Ponte Aérea
A questão é: os sistemas democráticos estão dispostos e são capazes de defendê-lo
Publicado em 14/04/2026 3:17 - Raphael Tsavkko Garcia
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O jornalismo está sob ataque – e já há algum tempo. Ou, mais precisamente, há uma nova onda de ataques cuja origem remonta, pelo menos, ao início do governo de Trump e ao assassinato indiscriminado de nossos colegas por parte de Israel após o 7 de Outubro.
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Mais de cem jornalistas foram assassinados pelo governo genocida de Netanyahu em Gaza, enquanto o governo Trump tem assediado constantemente membros da imprensa e até tentado fechar veículos de comunicação como a Radio Free Europe. Mais recentemente, o FCC de Trump ameaçou as licenças dos veículos de comunicação que noticiam o desastre, ops, a guerra contra o Irã e que expõem as mentiras contadas pelo presidente dos EUA.
Na Europa, Israel também está se intrometendo e tentando usar a mídia para interferir nas eleições – agora usando as redes sociais, mas, no passado, usando veículos de comunicação pró-Orbán.
A Rússia também é um ator importante, juntamente com seu aliado na UE, a Hungria. Mais recentemente, o POLITICO Europe foi o alvo, com ligações de um jornalista e de um funcionário da UE sendo interceptadas e vazadas.
O que estamos vendo não é uma série de incidentes isolados.
Trata-se de um padrão: governos e atores políticos tratam cada vez mais o jornalismo não como um pilar da democracia, mas como um obstáculo a ser neutralizado. Essa neutralização assume diferentes formas – desde a violência física em zonas de guerra (ou melhor, zonas de morte), até o assédio jurídico, a vigilância, a pressão econômica e vazamentos estratégicos destinados a intimidar repórteres e distorcer o debate público.
Ao mesmo tempo, as bases econômicas do jornalismo continuam a se deteriorar. Espera-se que as redações concorram em uma economia da atenção dominada por plataformas que extraem valor de seu trabalho sem remunerá-lo adequadamente. Isso cria um desequilíbrio perigoso: o jornalismo enfraquece financeiramente justamente quando a pressão política se intensifica. O resultado é um sistema em que há menos recursos disponíveis para resistir à interferência, investigar o poder e manter a independência editorial.
E há também o papel crescente da tecnologia. Vigilância, hacking e vazamentos de dados não são mais exceções – estão se tornando ferramentas de estratégia política. Seja por meio de spyware, comunicações interceptadas ou campanhas coordenadas de desinformação, a linha entre guerra de informação e jornalismo está cada vez mais tênue.
Os repórteres não estão apenas cobrindo tensões geopolíticas, estão se tornando alvos dentro delas, com Israel, os EUA, Rússia e a Hungria emergindo como inimigos de uma imprensa livre.
Se essa tendência continuar, o risco não recai apenas sobre os jornalistas, mas sobre o próprio público. Sem uma mídia independente e que funcione adequadamente, a sociedade entra em colapso. A questão já não é se o jornalismo está sob pressão, mas se os sistemas democráticos estão dispostos e são capazes de defendê-lo.
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RAPHAEL TSAVKKO GARCIA
É jornalista, editor e Ph.D em Direitos Humanos pela Universidade de Deusto.
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