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Ágora Digital

Muito click, pouca inteligência

A urgência de combater a violência política na era das redes sociais

Publicado em 19/09/2024 3:15 - Victor Barone

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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A política brasileira tem sido marcada por uma crescente violência, impulsionada pela desinformação e por ataques nas redes sociais. Pablo Marçal, candidato à Prefeitura de São Paulo, tem utilizado esse ambiente para disparar ofensas, disseminar desinformação e desestabilizar adversários. Esse clima de hostilidade atingiu seu auge quando Datena considerou uma boa ideia reagir de forma física á estas provocações, desferindo uma cadeirada em Marçal.

Nesse cenário de crescente animosidade, é impossível ignorar o papel desempenhado por figuras globais como Elon Musk, bilionário e dono da plataforma X (antigo Twitter). Musk, que repetidamente desafiou as leis brasileiras quanto à moderação de conteúdos, permitiu que o ambiente de sua rede social se transformasse em um campo aberto para a disseminação de fake news e discursos de ódio. O desdém de Musk pelas regras de convivência culminou, finalmente, no banimento da plataforma no país — uma medida extrema, mas talvez inevitável, dada a resistência da empresa em combater as práticas perniciosas que vinham ganhando espaço.

Estamos diante de uma nova realidade em que a violência política, tanto virtual quanto física, avança sem fronteiras claras entre o que se passa nas redes e o que acontece nas ruas. A escalada deste tipo de violência nos últimos anos representa uma ameaça palpável às democracias contemporâneas. Não se trata de um fenômeno novo, mas sua intensificação, especialmente com o advento das redes sociais, ampliou seu alcance e impacto de maneira sem precedentes. A partir de 2017, com o surgimento do bolsonarismo no Brasil, observamos uma mudança significativa: a violência deixou de ser um subproduto das disputas políticas para se tornar um método deliberado de ação.

As redes sociais emergiram como plataformas privilegiadas para a disseminação de desinformação, ataques pessoais e discursos negacionistas que ignoram fatos históricos e científicos. Como destaca a pesquisadora Esther Solano, professora da Unifesp, “as redes sociais potencializam bolhas ideológicas, criando espaços onde o ódio e a intolerância encontram terreno fértil para se proliferar”. Essas bolhas reforçam convicções extremistas e dificultam o diálogo democrático, minando pactos civilizatórios fundamentais, como os direitos civis e políticos.

Esse ambiente digital hostil deu origem às chamadas “máquinas de moer reputações”. Ataques misóginos, racistas, homofóbicos e ideológicos tornaram-se recorrentes em plataformas como X (antigo Twitter), Facebook e Instagram. A violência política visa deslegitimar vozes dissidentes, causar danos e violar direitos com fins políticos, afetando diretamente a qualidade da democracia. A pesquisadora Débora Prado, do Instituto Update, ressalta que ela é “uma estratégia para manter estruturas de poder tradicionais e impedir avanços democráticos”.

A desumanização de adversários políticos nas redes sociais pavimenta o caminho para ataques físicos e morais no mundo real. Samantha Bradshaw, da Universidade de Oxford, observa que “as redes sociais tornaram-se um campo de batalha para a manipulação de informações, com campanhas orquestradas por atores estatais e privados usando desinformação de forma profissionalizada para silenciar vozes opositoras e moldar a opinião pública”. Essa manipulação não é apenas uma questão de liberdade de expressão; é uma ameaça direta à estrutura das democracias, que dependem de um debate público informado e livre de coerção.

Entre 2019 e 2022, a violência política cresceu impressionantes 335% no Brasil, de acordo com dados da Unirio. Embora não tenha sido o responsável pela invenção desse tipo de violência, o ex-presidente Jair Bolsonaro, por meio de seu discurso inflamado, ampliou suas fronteiras. O cientista político Leonardo Avritzer pontua que “o bolsonarismo representa uma ruptura com a tradição de debate democrático, substituindo o diálogo pelo confronto e pela deslegitimação do outro”.

A desinformação desempenha um papel crucial nesse cenário, distorcendo fatos e fomentando a polarização. Conforme aponta um relatório da Nature, “a desinformação não apenas distorce a percepção do público, mas também mina a confiança nos processos democráticos, exacerbando tensões sociais e políticas”. A proliferação de “fake news” enfraquece o debate racional e a confiança nas instituições, criando um terreno fértil para o crescimento da violência política.

Combatê-la exige mais do que monitorar o espaço físico; é necessário enfrentar os ataques que ocorrem nas esferas digitais. Paul M. Barrett, da NYU Stern, alerta que “as plataformas sociais são exploradas para facilitar a intimidação política e a violência, e certos recursos dessas plataformas tornam-nas particularmente vulneráveis a essa exploração”. Portanto, a adoção de políticas robustas para regular essas plataformas e responsabilizar os atores que propagam violência e desinformação é imprescindível.

É igualmente crucial promover a educação midiática entre os cidadãos, capacitando-os a reconhecer e combater a desinformação. Além disso, instituições democráticas devem reforçar mecanismos de proteção às vítimas de violência política e garantir que os perpetradores sejam responsabilizados por suas ações.

A manutenção de uma democracia saudável depende do respeito ao pluralismo, ao diálogo e aos direitos fundamentais. Cabe à sociedade civil, instituições e líderes políticos trabalharem juntos para restaurar o espaço público como um ambiente de construção coletiva, livre de ódio e intolerância. A erosão da confiança pública e o crescimento da violência ameaçam a própria essência das democracias que nos comprometemos a proteger. O caminho é árduo, mas a defesa dos valores democráticos exige ação firme e imediata.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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