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Agromundo
Especialistas defendem agroecologia e inovação como caminhos sustentáveis
Publicado em 02/04/2025 3:18 - Sérgio Pedra
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O atual modelo agrícola global, dominado por monoculturas extensivas, uso intensivo de agrotóxicos e elevado consumo de água, tornou-se um dos principais motores da crise climática — e, ironicamente, também uma de suas primeiras vítimas. As contradições desse sistema foram o centro das discussões da cúpula Nutrition for Growth (N4G), que aconteceu em Paris, reunindo representantes de governos, cientistas, sociedade civil e organismos internacionais.
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Os números são incontornáveis: segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o sistema alimentar global responde por cerca de um terço das emissões de gases de efeito estufa e por 70% do uso de água doce no planeta. Essa dependência intensiva de recursos naturais, somada à homogeneização produtiva das monoculturas, gera não apenas danos ecológicos, mas também uma altíssima vulnerabilidade a eventos climáticos extremos, como secas, inundações e ondas de calor.
O impacto se espalha em cadeia: perda de safras, inflação no preço dos alimentos e colapso nas cadeias de abastecimento. Mas os efeitos mais silenciosos e alarmantes estão no campo da nutrição. Pesquisas da Universidade de Harvard, publicadas em 2017 e 2018, revelam que o aumento das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono pode reduzir entre 3% e 17% os teores de ferro, zinco e proteínas em alimentos básicos. As projeções são graves: até 2050, 175 milhões de novos casos de deficiência de zinco, 122 milhões com deficiência proteica e 1,4 bilhão de mulheres e crianças em risco de deficiência de ferro.
“Esse sistema de produção foi, na verdade, capaz de fornecer comida barata, mas o problema é o custo oculto disso. Os custos são muitos: na nutrição, na saúde, no meio ambiente, na biodiversidade e no clima”, explicou Arlène Alpha, pesquisadora do CIRAD, o Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento da França.
Alpha defende a agroecologia como alternativa viável. Para ela, trata-se de uma abordagem não apenas técnica, mas também política e social, que valoriza saberes tradicionais, empoderamento dos agricultores e autonomia produtiva. “A agroecologia é também sobre conectar produtores e consumidores”, ressalta.
A crítica ao modelo hegemônico de produção agrícola também veio de vozes políticas. A primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva, presente na cúpula, destacou que embora o agronegócio tenha importância econômica, é fundamental rever seu impacto ambiental e fortalecer a agricultura familiar e de médio porte.
“O mundo em que vivemos não vai mais suportar o modelo de grande produção de alimentos”, afirmou. “Talvez o investimento nos médios e pequenos agricultores familiares seja a forma mais sustentável de enfrentarmos as mudanças climáticas.”
A crítica à monocultura e a valorização de sistemas alternativos remetem à teoria da dependência estrutural discutida por pensadores como Celso Furtado e Ignacy Sachs, que já alertavam para o risco de exportar modelos produtivos que não respeitam os limites ecológicos e sociais dos territórios. A monocultura, além de ambientalmente insustentável, perpetua desigualdades regionais e a concentração fundiária, dois dos grandes gargalos históricos da agricultura brasileira.
Em contraponto, experiências em países com restrições ambientais severas — como os Emirados Árabes Unidos — mostram que inovação e tecnologia podem ser aliadas importantes. A ministra das Mudanças Climáticas do país, Amna Al Shamsi, apresentou metas ambiciosas: reduzir em 50% o desperdício agrícola até 2030 e adotar práticas climáticas inteligentes em 30% das propriedades.
Além disso, organismos internacionais como o Programa Mundial de Alimentos (WFP) vêm incorporando dados climáticos em tempo real para prever crises alimentares e agir preventivamente. “Usamos dados da NASA, da Agência Espacial Europeia e do Google para antecipar eventos extremos como secas e inundações”, afirma Virginia Arribas, vice-diretora de Parcerias Privadas do WFP.
A N4G, criada em 2013 por iniciativa dos países-sede das Olimpíadas, tem justamente o objetivo de mobilizar compromissos financeiros e políticos para enfrentar a fome e a má nutrição no mundo. A edição deste ano reforça um ponto central: o combate à fome e às mudanças climáticas precisa caminhar junto com a reforma profunda dos sistemas alimentares.
Ao fim, o debate travado em Paris mostra que a solução para o colapso climático e alimentar não passa por fórmulas mágicas, mas por decisões políticas corajosas, que desafiem interesses estabelecidos, redistribuam poder no campo e promovam a justiça ambiental. Como bem sintetizou o sociólogo francês Edgar Morin, “o desafio do século XXI é aprender a viver em uma terra finita com uma humanidade solidária”. A agroecologia, nesse contexto, talvez seja uma das linguagens mais promissoras para essa nova gramática da vida.
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SÉRGIO PEDRA
É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.
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