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Manifesto pretende ampliar inclusão de jovens LGBT+ no mercado

Documento foi assinado por mais de 160 grandes empresas brasileiras

Publicado em 14/04/2025 11:23 - Luiza Camargo

Divulgação Marcelo Camargo - Abr

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Lançado no Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo, o Manifesto do Grupo de Trabalho das Juventudes LGBTI+ reúne mais de 160 grandes empresas brasileiras em torno de um objetivo comum: tornar o mercado de trabalho mais inclusivo, ético e representativo para jovens de 18 a 29 anos que enfrentam múltiplas barreiras por conta de sua identidade de gênero e orientação sexual.

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A iniciativa, coordenada pelo Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, representa um marco na articulação entre o setor empresarial e os direitos humanos, ao reconhecer que a exclusão de jovens LGBTI+ do mercado de trabalho não é apenas uma questão social, mas também econômica, estrutural e política. O lançamento do documento, no último dia 5, foi simbólico: sinaliza que a pauta da diversidade não pode ser tratada nos bastidores corporativos, mas sim exposta ao debate público.

“O manifesto é um monte de quereres: queremos participar do mundo das empresas e desse processo de transformação e queremos acelerar o aprendizado que a empresa precisa ter com a sua juventude”, afirmou Reinaldo Bulgarelli, secretário-executivo do Fórum. O documento, como reforçou Bulgarelli, é também um chamamento à responsabilidade empresarial frente ao desafio da inclusão real.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD/IBGE, 2022), a taxa de desocupação entre jovens de 18 a 24 anos é o dobro da média nacional. Para a população LGBTI+, esse cenário se agrava: estudo realizado pelo Projeto Diversidade Sexual e de Gênero, Trabalho e Participação Social, da Fundação Perseu Abramo, revela que 90% das pessoas trans têm dificuldades de inserção no mercado de trabalho formal. A juventude LGBTI+, portanto, ocupa uma interseção crítica entre preconceito, vulnerabilidade econômica e exclusão institucionalizada.

Foi com esse diagnóstico em mente que o grupo de trabalho atuou por mais de um ano na elaboração do manifesto. Como explicou Bru Ferreira, liderança da Blend Edu e do It Gets Better Brasil, o objetivo central é tornar visíveis as demandas das juventudes LGBTI+ e transformá-las em agenda concreta para as empresas. “É importante pensar não só em como as juventudes podem contribuir para a diversidade organizacional, mas também para o mercado, para a inovação e para os resultados”, destacou.

A proposta do documento é clara: transformar o ambiente empresarial em um espaço de pertencimento, onde jovens LGBTI+ não precisem renunciar à sua identidade para serem aceitos. Entre as dez ações propostas pelo manifesto, estão:

– Criação de espaços de escuta ativa e diálogo contínuo com jovens LGBTI+;

– Reconhecimento e valorização de talentos em situação de vulnerabilidade;

– Promoção de políticas afirmativas voltadas à empregabilidade e à formação profissional;

– Estabelecimento de metas de diversidade que envolvam recorte etário e identitário.

Em um momento em que o Brasil enfrenta retrocessos em políticas públicas para a juventude e para a população LGBTI+, a mobilização do setor empresarial desponta como contracorrente. “Abandonar uma juventude talentosa e cheia de potência só por ela ser LGBTI+ não é um bom negócio”, reforçou Bulgarelli.

Sob o ponto de vista histórico, a marginalização da população LGBTI+ no mercado de trabalho sempre foi respaldada por mecanismos sociais de exclusão, que vão desde a escola até os processos seletivos. Filósofos como Michel Foucault já apontavam, em Vigiar e Punir, como as instituições moldam corpos e subjetividades por meio da exclusão e da normatização. No caso da juventude LGBTI+, essa exclusão é ainda mais aguda por se somar a outras vulnerabilidades, como a econômica, a racial e a territorial.

O manifesto, portanto, não é apenas um conjunto de boas intenções, mas um ato político. Como bem sintetizou Bru Ferreira: “A ideia é que ele seja um documento realmente vivo e não de gaveta”. A proposta é que as empresas não apenas assinem o compromisso, mas também o debatam internamente, promovam rodas de conversa, escutem os jovens e reformulem suas práticas a partir dessas escutas.

Essa movimentação encontra paralelo em experiências internacionais, como o programa LGBT+ Mentoring, da Stonewall UK, ou as diretrizes de diversidade do Human Rights Campaign, nos Estados Unidos. Contudo, o desafio brasileiro é maior: trata-se de integrar uma juventude historicamente apartada dos centros de poder e decisão — e que, ainda hoje, sofre com a violência cotidiana e a invisibilidade institucional.

Ao propor uma escuta ativa das juventudes LGBTI+, o manifesto também desafia as hierarquias tradicionais do mundo corporativo. “As juventudes são vistas como inexperientes, mas estão nas redes, nos coletivos, nas universidades, nos centros de inovação. Elas têm repertório, têm voz. Precisam ser vistas como protagonistas”, defende Bru.

Mais do que um compromisso simbólico, o manifesto é uma aposta no futuro. Um futuro em que o respeito à diversidade não seja apenas uma pauta de compliance, mas parte integrante da cultura organizacional, da gestão de talentos e da estratégia de negócios. Um futuro que reconheça, como disse o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, que “a diversidade é condição da democracia”.

LUIZA CAMARGO

É jornalista e professora. Atua em São Paulo.

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Luiza Camargo


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