Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

True Colors

Unicamp cria cotas para pessoas trans em seus cursos de graduação

MS registrou 228 estudantes trans usando nome social em escolas públicas em 2024

Publicado em 03/04/2025 2:53 - Luiza Camargo

Divulgação Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Em um país onde o direito à vida ainda é negado à população trans, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) dá um passo ousado e necessário ao aprovar, por unanimidade, a criação de cotas para pessoas trans, travestis e não-binárias em seus cursos de graduação. A medida, embora pioneira no contexto estadual paulista, inscreve-se em uma luta histórica por dignidade, reconhecimento e acesso à educação — trincheira fundamental em uma sociedade marcada pela exclusão e pela violência de Estado.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

A aprovação da proposta, na primeira semana de 2025, resultou de uma construção coletiva entre a reitoria da Unicamp, movimentos sociais e coletivos trans, como o Ateliê TransMoras e o Núcleo de Consciência Trans. José Alves Neto, coordenador da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), enfatizou que a medida representa mais um “momento histórico” para a universidade. Vale destacar: dos 15 membros do grupo de trabalho que elaborou a proposta, sete são pessoas trans — uma afirmação política em si, em um espaço acadêmico historicamente cisnormativo.

A medida prevê pelo menos uma vaga (em cursos com até 30 vagas) ou duas (em cursos com mais de 30) destinadas a pessoas trans, sejam elas estudantes de escolas públicas ou privadas. O processo de seleção exigirá autodeclaração e um relato de vida, a ser analisado por comissão especializada. A política será avaliada após cinco anos.

Em 2024, a Unicamp registrou 279 inscritos com nome social; 40 foram convocados para cursos como artes visuais, ciências biológicas e medicina — campos que historicamente atraem estudantes LGBTQIA+, mas que ainda carecem de políticas afirmativas específicas. Com essa decisão, a Unicamp se soma a outras 13 universidades públicas brasileiras que já adotaram ações semelhantes, num gesto que vai além do simbolismo: é política pública que salva vidas.

Educação básica: o começo (ou o fim) da jornada trans

Apesar dos avanços pontuais no ensino superior, os obstáculos enfrentados por estudantes trans começam muito antes. Segundo o dossiê Registro Nacional de Mortes de Pessoas Trans no Brasil em 2024, da Rede Trans Brasil, ao menos 9 mil estudantes trans estão matriculados em escolas públicas de 14 estados e do Distrito Federal. O uso do nome social é garantido por lei desde 2018, mas na prática ainda enfrenta resistência.

Isabella Santorinne, secretária adjunta de comunicação da Rede Trans, é categórica: “O nome social na educação básica é uma questão de respeito e dignidade. Não é moda.” A afirmação ganha força diante de estatísticas alarmantes: 63,9% das mulheres trans não têm o ensino médio completo; 34,7% sequer finalizaram o ensino fundamental, segundo o Censo Trans da mesma organização. A evasão escolar tem raízes no preconceito institucional, na violência e na falta de políticas afirmativas desde os anos iniciais da formação educacional.

Mais que um direito burocrático, o nome social é reconhecimento da existência. Como aponta a cartilha da Subsecretaria de Políticas Públicas LGBTQ de Mato Grosso do Sul, “o nome social é a identificação enquanto ser social que se particulariza na relação com as demais pessoas”. Em outras palavras: negar o nome é negar a identidade, o sujeito, a humanidade.

Mato Grosso do Sul: inclusão concreta em números e práticas

No Mato Grosso do Sul, esse reconhecimento tem saído do papel. O estado contabilizou 221 estudantes trans matriculados na rede estadual em 2024 — o maior número da série histórica local. A Secretaria Estadual de Educação (SED) destaca ações como a formação contínua de professores e a atuação de uma equipe interdisciplinar de psicólogos e assistentes sociais, em consonância com as Diretrizes da Educação Nacional.

A rede municipal de Campo Grande também tem investido em programas de enfrentamento ao preconceito, por meio da Divisão de Políticas Específicas de Educação. Essas medidas incluem parcerias com universidades e órgãos de direitos humanos, formação docente e produção de material pedagógico voltado à cidadania, ao respeito e à cultura da paz.

Mais do que números, essas ações produzem efeitos concretos: estudantes permanecem mais tempo na escola, sentem-se acolhidos, e têm a chance de se desenvolver plenamente. Um espaço escolar inclusivo é, como diz Paulo Freire, “um ato de amor e coragem” — um gesto radicalmente democrático.

O paradoxo brasileiro: educação que inclui, país que exclui

Mesmo com avanços como o da Unicamp e o esforço de redes estaduais, o Brasil mantém um triste posto: é, pelo 17º ano consecutivo, o país que mais mata pessoas trans no mundo. Em 2024, foram 105 assassinatos, segundo a Rede Trans Brasil — uma queda em relação a 2023, mas ainda alarmante.

A contradição salta aos olhos: enquanto o sistema educacional avança, mesmo que timidamente, na criação de ambientes acolhedores, a sociedade como um todo ainda opera sob a lógica do extermínio. A filósofa Judith Butler, em Deshacer el Género, escreve que “uma vida inteligível é aquela reconhecida dentro das normas dominantes”. Para pessoas trans no Brasil, a inteligibilidade muitas vezes só se dá após a morte, quando a estatística suplanta o nome, a história e os sonhos.

Democracia, pluralidade e o papel das instituições

A educação, quando verdadeiramente inclusiva, não apenas instrui: transforma. Instituições como a Unicamp cumprem um papel crucial ao desafiar as estruturas cisnormativas e racistas que historicamente moldaram o sistema educacional brasileiro. A política de cotas para pessoas trans deve ser compreendida não como concessão, mas como correção histórica — um passo em direção à equidade.

Nas palavras do sociólogo francês Pierre Bourdieu, “a escola pode ser um dos principais instrumentos de reprodução das desigualdades ou de sua superação”. O que se vê hoje, em algumas regiões e instituições, é uma escolha pela superação. Mas a resistência segue necessária, cotidiana, e profundamente política.

A permanência dessas políticas depende da manutenção de um pacto democrático baseado nos direitos humanos, na pluralidade e na valorização das vidas dissidentes. Que cada nome social reconhecido, cada vaga conquistada, cada diploma entregue a um estudante trans seja lembrado como um ato de afirmação diante de uma sociedade que ainda insiste em negar.

LUIZA CAMARGO

É jornalista e professora. Atua em São Paulo.

MS realiza 4ª Conferência Estadual LGBTQIA+

Leia outros artigos da coluna: True Colors

Luiza Camargo


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Os comentários estão desativados.