25/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Já escolheu o seu monstro hoje?

Publicado em 27/08/2015 12:00 - Rodrigo Amém

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Há uns meses atrás o Reddit (uma espécie de Facebook que a sua mãe ainda não usa. #FicaaDica) baniu uma de suas comunidades temáticas (as chamadas subreddits). O nome da comunidade? Fat People Hate ou, em tradução livre, Ódio de gente gorda.

Eu confesso que fiquei curioso. Que tipo de conteúdo mobilizaria uma comunidade como essa? Uma lista das melhores zoadas do Chaves no Nhonho? Uma coleção de memes do André Marques pré cirurgia? Antes fosse. O que se via naquela “comunidade” é um apanhado requentado de agressões normalmente dirigidas a outros setores da sociedade. Gordos oneram a saúde pública. Gordos são preguiçosos. Gordo não se valoriza. Gordo não é gente.

O choque e a vergonha alheia dessas afirmações causa asco ao mesmo tempo que confunde. Quando foi que essa cultura gordofóbica surgiu? Existem duas respostas para essa pergunta. Uma micro, outra macro. Vamos começar pela primeira.

O Reddit tem adotado uma série de medidas para combater o discurso de ódio em sua rede. Comunidades que faziam apologia à descriminação racial, xenofobia e sexismo foram proibidas. A cada comunidade fechada, uma nova aparecia, com um novo alvo e os mesmos discursos requentados. É como se os indivíduos que usam a rede para purgar seu ódio, não importando contra quem o fel é destilado. O importante é odiar e desumanizar alguém. O que nos leva à resposta macro.

Sim, o ódio dá barato. E assim como outras drogas, cada vez é preciso dosagens maiores e mais frequentes. Começa com uma piadinha. Termina só deus sabe como.

Ódio é um sentimento poderoso. Observado naquelas assustadoras máquinas de ressonância magnética, seu efeito atinge as mesmas áreas do cérebro que o amor e algumas formas de entorpecentes. Sim, o ódio dá barato. E assim como outras drogas, cada vez é preciso dosagens maiores e mais frequentes. Começa com uma piadinha. Termina só deus sabe como.

E a internet e suas trincheiras anônimas são o local ideal para descolar aquele baratinho rápido, quando ninguém está olhando. O usuário de ódio começa o dia procurando uma vítima online. Celebridades são boas presas, porque elas transitam nesse terreno nebuloso onde elas são conhecidas e você, o agressor, não. Fulana é feia demais para TV, fulano é sem graça e só tá na mídia porque tem conchavos. Aperta o send. Delícia. Daqui alguns minutos, vai dar vontade de odiar de novo. O ciclo recomeça.

É claro que viciado nenhum reconhece sua doença. Pelo menos até ser tarde demais. Então ele procura justificar seu hábito. Odiar socialmente, só quando todo mundo já estiver odiando. Daí surgem as comunidades como Fat People Hate, que é um exemplo extremo, eu sei. A forma mais comum de exercício social desse vício é o monstro da semana.

Funciona assim: você pega uma pessoa que fez algo reprovável. A loirinha influenciável que foi na onda e gritou macaco na torcida do time em rede nacional. O dentista rico que gasta milhares de dólares para afirmar sua masculinidade matando animais africanos. Os dois são tão claramente equivocados que viram alvos fáceis. Quem já gritou coisas piores, quem não está nem aí para os animais: todos se juntam para odiar.

Esse momento de catarse do mal tem apenas uma regra. Se eu, viciado em ódio, apontar e condenar o erro alheio publicamente, eu me distancio dele. Eu elejo um monstro e purgo meu ódio. Se eu não fizer mais nada do meu dia, se eu não for produtivo, se eu não ajudar alguém, se eu não fizer a diferença para a sociedade de qualquer outra forma, pelo menos eu não sou o mostro. O monstro é aquele ali. Pelo menos por essa semana. 

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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