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Ponte Aérea
Os imigrantes são os novos judeus, gays e ciganos
Publicado em 28/06/2024 10:40 - Raphael Tsavkko Garcia
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Estava conversando com umas colegas mais jovens esses dias no trabalho… Elas, preocupadas com a extrema-direita e tal, que só fala de imigrantes, que é tudo “ódio”… Só que a questão é economia. Só isso. Economia vai mal? Qualquer argumento serve pra tomar carona.
Basta apontar o dedo para o grupo mais vulnerável e com poucas chances de se defender e pronto, está feito o discurso político de sucesso de 2024. Os imigrantes são os novos judeus, gays e ciganos.
São os novos indesejados.
Claro, não ajuda o fato de, por exemplo, aqui na Antuérpia, onde vivo, a máfia que controla o tráfico de drogas e que explode granadas pela cidade ser composta por imigrantes, mas o problema é mais de ordem econômica e social do que dos “malditos imigrantes.” Existem realmente problemas de integração, de assimilação, de respeito ao Estado Laico e às normas sociais, mas estamos falando de exceções e não da regra.
As pessoas não estão votando na AfD (ao menos não a maioria) ou na Le Pen porque odeiam imigrantes – por mais que esses grupos políticos se esforcem para amplificar os atos da minoria que se recusa a se integrar e retroalimentam a revolta dessa parcela radical -, mas sim porque a economia está uma merda (sem meias palavras aqui) e imigrante é o scapegoat perfeito.
A extrema-direita, mesmo nazistas, agora apoiam Israel. Ciganos deixaram de ser visíveis, LGBT’s estão também aderindo à extrema-direita e deixando em muitas partes de serem alvos, então precisam ir atrás de novos inimigos.
Mas no fim: It’s the economy, stupid.
“Ah, mas a economia tá melhorando, tem mais emprego”. Sim, que não paga um aluguel que não para de crescer, que não paga as contas que não param de subir. Que não deixam tempo pra pessoa relaxar e aproveitar, não dá segurança.
As pessoas se sentem inseguras tenham ou não emprego. Não dá pra planejar adiante. Cada vez menos as pessoas esperam que irão se aposentar – e com alguma qualidade. Preços sobem, impostos sobem, gastos sobem, mas o salário pouco ou nada sobe e a elite fica mais rica e demonstra estar mais rica. O resultado é insatisfação e a busca por alternativas – muitas vezes as piores possíveis.
É preciso, enfim, compreender o que está acontecendo antes de apontar dedos. E é compreendendo que podemos buscar saídas.
Com isso não quero dizer que as pessoas não tem responsabilidade pelo seu voto, mas sim que não adianta – nem serve – simplesmente se fechar e dizer: “são todos racistas”.
Primeiro porque não são, segundo porque, se forem, então acabou a política. Como você dialoga com quem quer eliminar o outro sem diálogo? Se a gente ainda acredita na política, vai ter que chegar nessas pessoas, entender o que pensam e então começar o processo de diálogo, de entendimento, de discutir novas ideias e propostas e até mesmo de desradicalização – porque até mesmo os radicais tem (às vezes) salvação.
A ESQUERDA FALHOU
A esquerda falhou, faliu, não tem ideia do que fazer quando o tema é segurança pública. E se divide entre:
Enquanto isso fica batendo pezinho na internet “ain, extrema-direita avança, não sei porque”.
Pro PT a questão é que o povo deve estar errado. Corretos estão os luminares da esquerda vanguardista e a turma identitária – mesmo que claramente não exista diálogo possível entre esses dois lados. Mas o povo? Sim, errado. Ele que se vire. Vota errado, tem percepção errada…
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É jornalista, editor e Ph.D em Direitos Humanos pela Universidade de Deusto.
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