17/07/2024 - Edição 550

Ágora Digital

Falsos Profetas

André Valadão é um exemplo lamentável de como a religião pode ser deturpada para fins de controle e desinformação

Publicado em 21/06/2024 4:28 - Victor Barone

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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Sob a égide de um Estado laico, a coexistência harmônica entre diversas crenças e a autonomia educacional são princípios fundamentais. Entretanto, recentes declarações do pastor André Valadão, incentivando os fiéis a evitarem o ensino superior, desafiam esses princípios com uma ousadia peculiar. Ao afirmar que a faculdade pode “acabar com a vida” dos jovens e sugerir que vender picolés é uma alternativa mais segura e piedosa, Valadão não apenas ignora a complexidade do desenvolvimento humano, mas também propaga uma visão estreita e falaciosa da realidade.

Valadão parece ignorar que a educação superior é um dos pilares para a formação de cidadãos críticos, capacitados a contribuir de forma significativa para a sociedade. A faculdade, longe de ser um caminho para o inferno, como ele sugere de maneira simplista e sensacionalista, é uma oportunidade de expansão do conhecimento, de desenvolvimento de habilidades e de fortalecimento da cidadania. Aqui, cabe lembrar que a educação, conforme preconiza a Constituição Federal do Brasil, é um direito de todos e um dever do Estado.

A retórica do pastor Valadão utiliza-se de uma falácia de falsa dicotomia, ou seja, apresenta uma situação com apenas duas opções extremas e excludentes: a faculdade como caminho para a perdição e a vida simples como sinônimo de salvação. Essa simplificação grotesca desconsidera as inúmeras nuances e trajetórias possíveis na vida de um indivíduo. Além disso, ao afirmar que a única alternativa à faculdade é vender picolés, ele desvaloriza outras formas de trabalho dignas e válidas, criando um cenário de desinformação que só serve para confundir seus seguidores.

A exploração da fé alheia por líderes religiosos que se apresentam como arautos da verdade absoluta é um fenômeno preocupante. Utilizar a posição de influência para disseminar desinformação e medo é um ato que contraria os ensinamentos fundamentais do cristianismo, que pregam amor, compreensão e busca pelo conhecimento. Jesus Cristo, cuja vida e palavras são a base do cristianismo, jamais pregou a ignorância ou o desprezo pelo conhecimento. Pelo contrário, Ele valorizava o aprendizado e a sabedoria.

Ironia do destino, ou talvez uma demonstração do próprio medo do pastor, é que ele utiliza as redes sociais – fruto do avanço tecnológico e educacional – para disseminar sua mensagem. Não fosse a educação superior, a tecnologia que ele tanto condena poderia não existir. É um paradoxo cômico e trágico ao mesmo tempo: condenar o conhecimento enquanto se beneficia dele.

Há também um componente insidioso de controle social na fala de Valadão. Ao desestimular a educação superior, ele mantém seus seguidores em uma posição de vulnerabilidade e dependência, facilmente manipuláveis por discursos simplistas e apocalípticos. Este tipo de liderança se assemelha mais a um regime autoritário do que a uma comunidade religiosa saudável. Um rebanho ignorante é mais fácil de pastorear, mas a que custo? A custa da liberdade, da autonomia e do desenvolvimento integral dos indivíduos.

A crítica de André Valadão ao ensino superior revela uma estratégia subjacente comum em certas correntes religiosas: a necessidade de atrair e manter fiéis desinformados e culturalmente empobrecidos para facilitar a manipulação. Religiões que buscam controle absoluto sobre seus seguidores frequentemente temem o poder transformador da educação, que promove pensamento crítico e questionamento. Um fiel bem informado é menos suscetível a aceitar dogmas sem questionar e mais apto a identificar falácias e abusos de poder. Assim, ao desestimular a busca pelo conhecimento, líderes como Valadão garantem um rebanho mais submisso, perpetuando um ciclo de dependência e obediência cega, que facilita a propagação de suas próprias agendas e a exploração da fé alheia.

Em suma, as declarações do pastor André Valadão são um exemplo lamentável de como a religião pode ser deturpada para fins de controle e desinformação. Sob o manto de preocupação espiritual, esconde-se um discurso repleto de falácias e medo, que contraria não apenas os princípios de um Estado laico, mas também os valores cristãos genuínos. Que possamos, como sociedade, valorizar a educação e a liberdade de pensamento, e resistir àqueles que, sob a máscara da religiosidade, buscam nos conduzir de volta às trevas da ignorância.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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