18/05/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Escapismo Sport Club

Publicado em 02/03/2018 12:00 - Rodrigo Amém

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Não estou aqui para chutar cachorro morto. De Casagrande a todo mundo no Twitter, já foi dito o óbvio: o textão do apresentador do BBB Tiago Leifert contra manifestações políticas no esporte foi uma coisa meio idiota de se dizer. Especialmente para quem fez carreira cobrindo eventos esportivos. Isso tá bem resolvido.

Mas existe uma questão anterior à trapalhada publicada na revista GQ. Quem é Tiago Leifert? Veja, longe de mim apelar para um "Ad Hominem", ou seja, focar na pessoa e não no argumento. Mas é importante entender de onde vem essa visão de mundo que culmina com a máxima: "Precisamos imunizar o pouco espaço que ainda temos de diversão."

De acordo com a Wikipedia, Tiago e filho de Gilberto Carlos Leifert, ex-diretor da Central Globo de Relações com o Mercado da Rede Globo e, durante muitos anos, um dos executivos mais influentes da empresa. Uma posição que lhe possibilitou proporcionar uma vida de conforto e liberdade de escolha a seus herdeiros. Tiago, por exemplo, decidiu ser jornalista e estudar na universidade de Miami.

Tiago começou sua carreira na TV em 2004 na TV Vanguarda, a afiliada da Globo em São José dos Campos, comandada por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o "Boni", que foi da diretoria da rede por décadas, assim como Gilberto. Em 2009, Tiago chegaria a posição de editor-chefe e apresentador do Globo Esporte SP. Uma carreira de sucesso que muitos atestam ter decorrido sem qualquer influência familiar. Sem dúvida, Tiago é carismático.

Em 2015, Tiago fez a travessia do jornalismo para o entretenimento que possibilita mais visibilidade e lucratividade para seus apresentadores. The Voice Brasil, É de Casa, Encontro com Fátima Bernardes sem Fátima Bernardes, The Voice Kids, garoto propaganda da Claro e – finalmente – Big Brother Brasil, sob direção do Boninho, filho do Boni, fechando um ciclo.

Mas com grande visibilidade vem grande responsabilidade. E Leifert descobriu na prática ao expressar seu inacreditável argumento: "você chega em casa cansado, abre uma garrafa de vinho e ela grita "Fora, Temer!". O catupiry da pizza veio em forma de letras "Lula preso amanhã", e ainda usaram uma calabresa para fazer a letra O. A gente precisa respirar".

Que um ex-repórter esportivo compare atletas a fatias de pizza e garrafas de vinho só soa estranho e insensível se não considerarmos sua origem. Leifert cresceu em meio aos bastidores da publicidade, vendo  seu pai tratar esporte como produto. Seu trabalho era o esporte para os anunciantes. Tratar o desempenho dos atletas como um produto. Foi assim que ele mandou o filho estudar jornalismo no exterior. Vendendo cotas de patrocínio para o Brasileirão. E para que o produto tenha o maior apelo possível, é melhor que ele não seja culturalmente controverso. Não tenha opinião política declarada. Se o catupiry da pizza não pode se posicionar politicamente, porque Colin Kaepernick poderia? Porque Jesse Owens poderia? Nazista também come pizza, pô! Também quer escapar do embate político vendo futebol. Só que, quando o nazista vai ao estádio e joga uma banana para o jogador negro, ele é consumidor, não produto. O produto é o jogador, que tem que baixar a bola e fazer o trabalho dele. Para que o consumidor possa "respirar".

E essa foi a parte mais reveladora do desabafo do apresentador. "A gente precisa respirar". Quem é essa "gente" que precisa de um refúgio contra o embate político? Quem está lutando por mudança, por igualdade, por representatividade, por justiça, esses não cansam. Não descansam. Eles lutam porque não têm escolha e usam toda e qualquer plataforma que estiver à mão para mover a imensa tartaruga da sociedade para fora da casca, e na direção do progresso. Não é desta parcela da população que a Casa Leifert está falando. Ele escreve do local da fala de quem se sente sufocado pela pressão por mudanças.

Quem precisa respirar, esquecer da notícia e se refugiar no entretenimento – como ele preferiu fazer com sua carreira – é quem desfruta do Status Quo e tem muito pouco a lucrar com um amplo debate democrático. É quem tem o privilégio do acesso e a liberdade da escolha. E ainda assim, opta por estudar jornalismo em Miami.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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