22/04/2024 - Edição 540

Blog do Alex Fraga

De bicicleta

Alex Fraga traz uma bela crônica de Raquel Naveira em sua coluna na Semana On

Publicado em 28/03/2024 2:03 - Alex Fraga

Divulgação Reprodução

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Lembro-me do dia em que ganhei a minha primeira bicicleta: feminina, verde-abacate, com cestinha pendurada no guidão. O meu esforço para movimentá-la, os tombos, o primeiro passeio com a turma até o Horto Florestal, entre as árvores frondosas beirando o regato. O ar úmido, carregado de segredos. A liberdade pulsando no peito.

Em Quando comecei a crescer, Ruth Rocha conta a história de uma menina como eu: louca para ganhar uma bicicleta de Papai Noel. Ela descobre, decepcionada, que a bicicleta era um presente de seus pais e que Papai Noel não existia. Mas a alegria poderosa de ter a própria bicicleta tomou conta da alma da menina. O livro termina com um convite para que ela vá ao parque com a turma das bicicletas e a constatação íntima: “E eu montei na bicicleta e saí no meio de todos. Eu já estava ficando grande.”

As cenas das bicicletas nos filmes me fascinam. Inesquecível em ET, o Extraterrestre, de Steven Spielberg, a cena do menino protegendo o ET para evitar que ele fosse capturado e transformado em cobaia pelo serviço secreto americano. O menino coloca-o no cesto da bicicleta, coberto por um pano e a turma toda, num momento mágico, telepático, em plena perseguição, alça voo. A bicicleta passa pela lua, projetando sua sombra. É de tirar o fôlego.

Em Butch Cassidy, há a cena da mulher sentada sobre o guidão da bicicleta, abraçada ao homem que pedala a máquina por uma trilha no campo. Passam por debaixo de uma macieira, ela colhe o fruto, morde e oferece a ele. Como Eva no Paraíso. Pura sedução.

Outra cena que me comoveu foi a do recente O Leitor- os dois passeando de bicicleta pelo campo banhado de sol. Recordei-me como é bom viajar na companhia de quem se ama.

Em “Itinerário para Pasárgada”, de Manuel Bandeira, poema-símbolo do lugar ideal de evasão e fuga da realidade, aparece a bicicleta como uma das possibilidades de vigor e privilégio: “Andarei de bicicleta,/ Montarei em burro brabo/ Tomarei banhos de mar…”

Pinço no poema “Azul sobre Amarelo, Maravilha e Roxo”, de Adélia Prado, estes versos: “Desejo, como quem sente fome ou sede,/ um caminho de areia margeado de boninas,/ onde só cabem a bicicleta e seu dono”. O caminho aberto da emancipação, da autonomia.

Depois de tudo, como sempre, nasceu um poema:

 

Quem ganha uma bicicleta

Monta no inconsciente

E marcha para frente,

Vai adiante

Com o próprio esforço,

Sentindo os músculos,

O suor,

O vento,

Evoluindo

Como uma seta.

 

 

Quem ganha uma bicicleta

Equilibra-se,

Torna-se cavaleiro,

Conta consigo mesmo

Para alcançar a meta.

 

 

Quem ganha uma bicicleta

Assume independência,

Vai aonde quer:

Desce aos vales,

Sobe às montanhas,

`As vezes em curvas,

`As vezes em linha reta.

 

Quem ganha uma bicicleta

Assume sua personalidade,

É tanta a liberdade

Que já pode ser poeta.

 

Quem ganha uma bicicleta

Esquece a inércia,

O medo,

O infantilismo,

A pessoa se reinventa,

Adulta.

 

Quem ganha uma bicicleta

Sai pelo mundo,

Sob o sol,

Sob a chuva,

A alma em festa…

 

Por Raquel Naveira

 

ALEX FRAGA

É jornalista e profundo conhecedor da cultura sul-mato-grossense.

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