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Não é hora de pacificar, mas de responsabilizar
Publicado em 30/11/2024 1:22 - Victor Barone
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O ex-presidente Jair Bolsonaro se revelou, ao longo de sua carreira política, um mestre na construção de narrativas que lhe conferissem uma imagem de força e inflexibilidade. No entanto, a recente súplica por anistia aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) escancara o que muitos já suspeitavam: sua força era tão artificial quanto suas promessas de “nova política”. O líder que um dia ridicularizou as dores alheias com um desprezível “vai ficar chorando até quando?” agora se encontra rendido, implorando por perdão às instituições que tentou destruir.
Durante o auge da pandemia, Bolsonaro cultivou a persona de um líder inflexível. Ao ridicularizar medidas sanitárias, desdenhar da ciência e menosprezar as vítimas do vírus, ele buscava se consolidar como o arquétipo do “homem forte”, aquele que não cede diante das adversidades. Essa retórica, recheada de machismo tóxico, encontrou eco em parte do eleitorado que via na suposta “virilidade” de Bolsonaro uma antítese àquilo que ele chamava de “frescura e mimimi”.
Todavia, bastou o Estado Democrático de Direito resistir às suas investidas golpistas para que o ex-presidente revelasse sua verdadeira face: a de um homem fragilizado, desesperado e disposto a tudo para evitar a responsabilização pelos seus atos.
Na tentativa de justificar sua súplica por anistia, Bolsonaro evocou a Lei de Anistia de 1979, que buscou reconciliar o país após anos de ditadura militar. Comparação tão absurda quanto desonesta. Naquele contexto, a anistia foi vista como uma solução necessária, ainda que moralmente questionável, para pôr fim a um regime de exceção e pavimentar o caminho para a redemocratização.
O que Bolsonaro tenta agora é exatamente o oposto: quer perdoar aqueles que, sob sua liderança, tentaram subjugar a democracia e instaurar um regime autoritário. Pedir anistia para golpistas que conspiraram contra as instituições democráticas não é um apelo à pacificação, mas sim à impunidade.
Ao invés de enfrentar as acusações com a altivez que tanto pregou em sua retórica populista, Bolsonaro apela ao STF com um tom de desespero que beira o patético: “Eu apelo aos ministros do Supremo, por favor, repensem”. Esse pedido, além de desconexo, ignora as evidências robustas levantadas pela Polícia Federal sobre a trama golpista que teve seu auge nos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Se Bolsonaro acredita que não houve uma conspiração golpista, como alega, bastaria uma boa defesa nos tribunais. Mas, ao pedir anistia, reconhece implicitamente que a escalada antidemocrática liderada por ele e seus aliados foi real – e que as consequências podem ser severas.
Ironia maior é que Bolsonaro ainda seja visto como um “guia dos patriotas” por seus apoiadores mais fervorosos. A realidade é que sua liderança foi construída sobre um pilar frágil de bravatas e mentiras. “Se o cinismo matasse, Bolsonaro precisaria não de uma ponte de safena, mas de um viaduto de safena no caráter”, como bem resumiu o articulista Josias de Souza, em sua coluna no UOL.
Esse messianismo farsesco já não engana como antes. Suas súplicas por anistia desmoronam o mito que ele mesmo construiu, revelando-o como um político inepto, incapaz de lidar com as consequências de seus próprios atos.
A insistência em comparações históricas enviesadas e o apelo por uma anistia preventiva são tentativas desesperadas de reescrever os últimos capítulos de sua biografia política. A democracia brasileira mostrou resiliência ao resistir às investidas autoritárias. Permitir que Bolsonaro e seus cúmplices escapem sem punição seria não apenas um desrespeito à história, mas um grave erro estratégico que poderia abrir precedentes perigosos.
O momento não é de clemência, mas de justiça. Não é hora de pacificar, mas de responsabilizar. A verdadeira força de uma nação democrática está em seu compromisso com o Estado de Direito, que não deve ceder nem diante das mais ardilosas súplicas de quem, como Bolsonaro, construiu sua carreira sobre alicerces de mentira, covardia e oportunismo.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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