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Brasil registra recorde de intoxicações por agrotóxicos em 2025

Uso na agricultura esteve associado à grande maioria das intoxicações ocupacionais registradas no país

Publicado em 09/03/2026 4:24 - Sérgio Pedra - com informações do Repórter Brasil e da Agência Brasil

Divulgação Agência Brasil

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O Brasil registrou, em 2025, o maior número de intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos. Dados do Ministério da Saúde apontam 9.729 casos no período — uma média de 27 pessoas contaminadas por dia. O volume representa crescimento de 84% em comparação a 2015. É o que mostra extensas reportagens do Repórter Brasil.

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As notificações fazem parte do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e consideram apenas episódios classificados como não intencionais, excluindo situações de suicídio, aborto, homicídio ou outros casos de exposição deliberada. Ao todo, desde 2015, foram registrados 73.391 episódios de intoxicação por agrotóxicos no país. A série histórica mostra uma queda pontual em 2020, seguida por nova tendência de alta a partir de 2021.

Os dados indicam ainda que crianças pequenas estão entre os grupos mais afetados. Entre 2015 e 2025, um quarto das notificações envolveu crianças de 1 a 4 anos, somando 17.476 registros — a segunda faixa etária com maior incidência. O grupo mais atingido é o de adultos entre 20 e 39 anos, com 23.045 casos, cerca de um terço do total.

Nesse último segmento, a relação com o trabalho é predominante. Apenas em 2025, 54% das intoxicações nessa faixa etária ocorreram em atividades laborais, e, entre esses episódios, 80% estavam associados a agrotóxicos de uso agrícola.

Expansão do mercado de pesticidas acompanha aumento das intoxicações

O crescimento das notificações ocorre em paralelo à ampliação da oferta de pesticidas no país. Em 2025, o Brasil registrou 914 novos produtos aprovados, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária publicados no Diário Oficial da União — um aumento de 38% em relação ao ano anterior.

O volume comercializado também avançou. Informações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostram que as vendas atingiram 825,8 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% na comparação com 2023.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, o aumento da disponibilidade dessas substâncias tende a ampliar a exposição da população. A economista Loredany Rodrigues, professora da Universidade Federal de Viçosa, avalia que a dinâmica de mercado contribui para esse processo.

Segundo ela, maior oferta costuma pressionar os preços para baixo, o que estimula o consumo e amplia o contato da população com os produtos — fator que pode resultar em mais episódios de intoxicação.

Regiões de expansão agrícola concentram maiores índices

Em 2025, o Espírito Santo liderou o ranking nacional de intoxicações, tanto em números absolutos quanto proporcionais. O estado registrou 941 casos, quase um em cada dez do país, e uma taxa de 23 ocorrências por 100 mil habitantes.

Na sequência aparecem, proporcionalmente, Tocantins (16 casos por 100 mil habitantes) e os estados de Rondônia, Acre e Roraima, com cerca de 11 casos por 100 mil habitantes cada. Todos pertencem à região Norte, área marcada pela expansão recente do agronegócio e por pressões crescentes sobre áreas de floresta.

O perfil das vítimas reforça a relação com o trabalho rural. Entre os 3.059 adultos de 20 a 39 anos intoxicados em 2025, 73% eram homens. Pesquisadores apontam que a predominância masculina nas atividades agrícolas e a forte presença dessa faixa etária no mercado de trabalho ajudam a explicar a concentração de casos.

O Ministério do Trabalho e Emprego criticou o elevado número de ocorrências entre trabalhadores rurais. Em nota enviada à reportagem, a pasta afirmou que “não é admissível que interesses econômicos se sobreponham à proteção da saúde dos trabalhadores”.

Governo aponta vigilância maior; Anvisa diz considerar casos em avaliações

Procurado pela reportagem, o Ministério da Agricultura e Pecuária — responsável por autorizar e reavaliar agrotóxicos segundo a nova Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024 — não respondeu às perguntas sobre a relação entre o aumento da liberação de produtos e o crescimento das intoxicações. A pasta orientou que os questionamentos fossem encaminhados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A Anvisa afirmou que as notificações de intoxicação humana são consideradas nos processos de reavaliação toxicológica de produtos registrados. Segundo a agência, decisões regulatórias levam em conta evidências experimentais, estudos epidemiológicos e modelagens capazes de prever efeitos crônicos da exposição.

Já o Ministério da Saúde atribui parte do aumento dos registros ao fortalecimento das ações de vigilância. A pasta destaca iniciativas como o Ciclo de Webinários da Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA), voltado à capacitação de profissionais para diagnóstico, tratamento e notificação de intoxicações.

Crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis

O volume de notificações envolvendo crianças de 1 a 4 anos preocupa especialistas. De acordo com Wanderlei Pignati, professor da Universidade Federal de Mato Grosso e pesquisador dos impactos dos agrotóxicos na saúde humana, fatores biológicos e ambientais contribuem para a vulnerabilidade desse grupo.

Entre eles está o sistema imunológico ainda em formação, além da maior sensibilidade do organismo infantil a substâncias químicas.

Pesquisas conduzidas no Mato Grosso também já identificaram resíduos de agrotóxicos no leite materno. Muitos pesticidas são lipofílicos, ou seja, têm afinidade com gordura e tendem a se acumular em tecidos adiposos, como as glândulas mamárias.

A agrônoma Fernanda Savicki, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Ceará, ressalta que os limites de tolerância a resíduos químicos geralmente são definidos com base em adultos de cerca de 70 quilos, o que torna a exposição proporcionalmente mais perigosa para crianças pequenas.

Segundo ela, esse grupo também aparece com frequência nas estatísticas porque é mais monitorado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), devido às consultas pediátricas e ao calendário de vacinação.

Intoxicações no trabalho somam mais de 3,3 mil casos em 2025

O uso de agrotóxicos na agricultura esteve associado à grande maioria das intoxicações ocupacionais registradas no Brasil em 2025. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, analisados pela Repórter Brasil, indicam que oito em cada dez ocorrências relacionadas ao trabalho envolveram pesticidas agrícolas.

Ao todo, foram 3.322 casos desse tipo entre as 4.127 intoxicações ocupacionais notificadas no país. No conjunto das notificações por agrotóxicos, 42% tinham relação direta com atividades laborais.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), os números revelam um cenário preocupante. Em resposta à reportagem, a pasta afirmou que “não é admissível que interesses econômicos se sobreponham à proteção da saúde dos trabalhadores e da população em geral”, defendendo regras mais rigorosas para autorização e uso dessas substâncias.

Perfil dos trabalhadores mais afetados

Os registros mostram que homens entre 20 e 59 anos concentram a maior parte das intoxicações ocupacionais por pesticidas agrícolas. Desde 2015, esse grupo representa 73% dos casos, o que reflete a predominância masculina nas atividades diretamente ligadas à aplicação e ao manejo de agrotóxicos no campo.

Na avaliação do MTE, o aumento das intoxicações está ligado também ao peso econômico e político do agronegócio, que, segundo a pasta, tem favorecido decisões que ampliam o uso de substâncias proibidas ou restritas em outros países, com impactos potenciais à saúde e ao meio ambiente.

O ministério ressalta ainda que o Brasil ocupa a posição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo.

Incentivos ao modelo agrícola dependente de químicos

Para Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa (UFV), a aparente eficiência econômica do agronegócio não considera os custos sociais e ambientais gerados pelo uso intensivo de pesticidas.

Segundo a pesquisadora, quando os danos associados à saúde e ao meio ambiente são ignorados, a produtividade atribuída aos agrotóxicos tende a ser superestimada.

“É provável que a inclusão dessas externalidades nas estimativas reduza o valor do produto marginal dos agrotóxicos”, afirma.

Ela observa que, historicamente, o modelo agrícola dependente de químicos tem sido estimulado por políticas públicas, como crédito rural e benefícios fiscais.

Dados do Ministério da Fazenda divulgados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos pela Vida indicam que as fabricantes desses produtos deixaram de pagar mais de R$ 10,8 bilhões em impostos apenas nos oito primeiros meses de 2024.

Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu manter essas isenções fiscais.

Para Jaqueline Andrade, da organização Terra de Direitos, a justificativa adotada pela maioria dos ministros — de que os incentivos ajudam a garantir segurança alimentar e estabilidade econômica — não se sustenta diante dos impactos ambientais e sanitários associados ao uso dessas substâncias.

Segundo ela, tais riscos entram em conflito com princípios constitucionais de proteção à saúde e ao meio ambiente.

Trabalhadores na linha de frente da exposição

Embora toda a população possa ser afetada pelos agrotóxicos, o MTE destaca que os trabalhadores que lidam diretamente com essas substâncias estão entre os mais vulneráveis.

A pasta informa que acompanha os casos por meio da Auditoria-Fiscal do Trabalho, responsável por verificar condições de segurança nas propriedades rurais e avaliar se há gestão adequada dos riscos.

De acordo com o ministério, a precariedade ou ausência de medidas de proteção contribui significativamente para a exposição e o agravamento dos danos à saúde.

O trabalho rural possui características específicas que dificultam o controle de riscos. A localização das propriedades, a organização da produção e o perfil dos empregadores e trabalhadores influenciam diretamente as condições de trabalho.

Para regulamentar essas atividades, existe a Norma Regulamentadora nº 31 (NR-31), que estabelece parâmetros de segurança e saúde no campo. Ainda assim, o MTE avalia que os elevados índices de acidentes e adoecimentos indicam descumprimento expressivo das medidas preventivas.

Pressão produtiva e proteção insuficiente

Na avaliação de Wanderlei Pignati, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a dinâmica do trabalho rural no país contribui para a elevada incidência de intoxicações.

Ele afirma que, para reduzir a exposição, os trabalhadores precisariam utilizar máscaras com filtros específicos para agrotóxicos — equipamentos que nem sempre são fornecidos pelos empregadores.

“Quando o filtro é disponibilizado, muitas vezes dura apenas uma semana, enquanto o trabalhador permanece até 15 dias exposto”, explica.

O risco também aumenta durante o período de colheita, quando os resíduos químicos acumulados nas plantações são mais intensos.

“Há grande concentração de agrotóxicos na soja, no milho e, principalmente, no algodão. O trabalhador faz jornadas superiores a oito horas, com equipamento precário e pressão para colher rápido e iniciar novo plantio. Quanto mais cansado, mais respira e maior é a exposição”, afirma.

Fiscalização limitada

O Ministério do Trabalho reconhece que a capacidade de fiscalização foi reduzida na última década, principalmente em razão da diminuição do número de auditores.

Segundo a pasta, cerca de metade dos cargos autorizados por lei estava vaga até o final de 2025, resultado de um processo de redução do quadro funcional iniciado em 2014.

Apesar das limitações, foram realizadas 4.958 ações fiscais no meio rural em 2025, que identificaram 2.446 irregularidades relacionadas ao uso de agrotóxicos.

Para Fernanda Savicki, agrônoma e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Ceará, há uma contradição estrutural no modelo produtivo atual.

Segundo ela, um sistema agrícola que compromete a saúde do próprio trabalhador responsável pela produção revela um problema de base.

“É um trabalho que interfere diretamente na saúde e compromete inclusive a capacidade de a pessoa continuar exercendo essa atividade por causa da exposição a produtos químicos. Isso é absolutamente incoerente”, afirma.

Governo define prioridades

O governo federal iniciou a implementação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) com a definição de um conjunto de ações consideradas prioritárias para os próximos dois anos. As diretrizes foram publicadas pelo Comitê Gestor Interministerial na edição de 4 de março do Diário Oficial da União e estabelecem os primeiros passos para colocar em prática o programa criado pelo Decreto nº 12.538/2025.

O plano terá vigência no biênio 2026–2027 e reúne 31 eixos de atuação, envolvendo mais de dez instituições públicas. Entre elas estão os ministérios do Meio Ambiente, da Saúde e da Educação, além de órgãos e entidades como a Agência Nacional de Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

As iniciativas incluem incentivo ao desenvolvimento de alternativas aos pesticidas, programas de capacitação para o uso seguro dessas substâncias e medidas econômicas e fiscais voltadas à redução da dependência química na agricultura. A proposta é integrar ações de diferentes áreas do governo para enfrentar os impactos sanitários e ambientais associados ao modelo agrícola predominante no país.

A agenda do programa surge em meio a um cenário em que os riscos ocupacionais associados aos pesticidas permanecem elevados, especialmente entre trabalhadores rurais.

SÉRGIO PEDRA

É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.

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