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True Colors
País segue líder mundial em assassinatos de pessoas trans, expondo raízes profundas de discriminação e desafios para políticas inclusivas
Publicado em 21/01/2025 2:52 - Luiza Camargo
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A morte de Pâmela Myrela, de 31 anos, vítima de um ataque cruel em Campo Grande, não é um caso isolado de barbárie. É um sintoma. Sua história – marcada por marginalização, preconceito e violência extrema – reflete a realidade de centenas de pessoas trans que encontram, no Brasil, um cenário hostil à sua existência. Apesar de avanços legislativos em direitos fundamentais, como o reconhecimento do nome social e a criminalização da LGBTfobia, a violência contra a população trans persiste como uma epidemia invisível e desumana.
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O Brasil lidera, pelo 16º ano consecutivo, o ranking global de assassinatos de pessoas trans. Em 2024, 105 vidas foram ceifadas em um ciclo que combina negligência estatal, omissão social e a perpetuação de estruturas que desumanizam corpos dissidentes. Essa liderança não é acidental; é resultado de uma longa história de exclusão, reforçada por um sistema que normaliza a violência e silencia as vozes que clamam por justiça.
Para entender os alarmantes números que colocam o Brasil no topo da violência contra pessoas trans, é essencial considerar o contexto histórico e cultural. A transfobia, assim como outras formas de opressão, não emerge no vácuo; ela é fruto de um processo de construção social que demoniza a diferença e reforça a normatividade. No Brasil, a lógica colonial deixou marcas profundas, estabelecendo hierarquias de gênero e sexualidade que perpetuam até hoje a marginalização das pessoas LGBT+, especialmente das mais vulneráveis, como travestis e mulheres trans.
A socióloga norte-americana Kimberlé Crenshaw, em sua teoria da interseccionalidade, nos ajuda a compreender como essas violências se sobrepõem. Ser trans no Brasil significa lidar com múltiplos eixos de opressão: gênero, classe, raça e localização geográfica. Não é coincidência que a maioria das vítimas sejam jovens, negras e oriundas de regiões periféricas, como o Nordeste, que concentrou 40 dos 105 assassinatos de 2024, conforme dados da Rede Trans Brasil.
A desumanização cotidiana
Os números são contundentes, mas o que eles não capturam é a dimensão humana dessa tragédia. A expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de apenas 35 anos, um dado que fala mais de abandono do que de estatísticas. Não são apenas as mortes físicas que devastam essa população, mas também as simbólicas: a exclusão do mercado de trabalho, a marginalização educacional, a violência psicológica e o desprezo institucional. Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), 60,8% das vítimas LGBT+ mortas violentamente em 2024 tinham entre 19 e 45 anos – idades que, para a maioria da população, representam o auge da vitalidade e das oportunidades. Para as pessoas trans, no entanto, essa faixa etária é marcada pela precariedade.
O trabalho sexual, exercido por grande parte das travestis e mulheres trans, é frequentemente o único espaço de sobrevivência econômica. E é justamente nesse ambiente que muitas encontram a morte, assassinadas em ruas, estradas e terrenos baldios. Como ressalta o relatório da Rede Trans Brasil, “persiste o padrão de travestis serem assassinadas a tiros na pista”, enquanto seus algozes muitas vezes permanecem impunes, protegidos por um sistema que naturaliza essas mortes como parte de um “destino” inevitável.
Uma violência que transcende classes sociais
Embora a marginalização seja mais evidente nas periferias, a violência LGBTfóbica também atinge indivíduos em contextos sociais privilegiados. O caso do galerista norte-americano Brent Fay Sikkema, morto no Rio de Janeiro em 2024, exemplifica como os contextos afetivos também podem ser arenas de violência. Esse crime, que ocorreu em uma relação doméstica, evidencia que nem mesmo o prestígio ou o capital cultural podem proteger indivíduos LGBT+ de contextos de vulnerabilidade emocional e social.
Essa amplitude demonstra que a LGBTfobia não é apenas uma questão individual, mas um problema estrutural que permeia todas as camadas sociais. Como aponta a filósofa brasileira Djamila Ribeiro, “a violência de gênero está imbricada em uma estrutura de poder que desvaloriza corpos dissidentes, reforçando um sistema que beneficia apenas os corpos normativos”.
A negligência estatal e a falha das políticas públicas
Apesar da existência de leis que criminalizam a homofobia e a transfobia, a realidade é que a implementação dessas normas ainda é falha. O próprio Grupo Gay da Bahia aponta que os registros oficiais sobre crimes de ódio são escassos, deixando à sociedade civil a tarefa de mapear essa violência. Isso cria um ciclo perverso: a invisibilidade oficial dificulta a criação de políticas públicas efetivas, perpetuando a negligência estatal.
A educação inclusiva, frequentemente apontada como um caminho transformador, enfrenta resistência cultural e política. A introdução de temas relacionados a gênero e sexualidade nas escolas é constantemente atacada por setores conservadores, que propagam discursos de ódio travestidos de moralidade. Isso reforça estigmas e impede que crianças e jovens cresçam em um ambiente de respeito e aceitação.
Da resistência à transformação
Embora o cenário seja sombrio, há esperança. Movimentos sociais, como a Rede Trans Brasil e o Grupo Gay da Bahia, têm desempenhado um papel crucial na visibilização da violência e na cobrança por ações concretas. Sua atuação evidencia que a transformação é possível, mas depende de um esforço coletivo que envolva Estado, sociedade civil e indivíduos.
O sociólogo Zygmunt Bauman, ao tratar da fragilidade das democracias contemporâneas, alerta que “a responsabilidade coletiva é o preço a ser pago pela sobrevivência comum”. Aplicando essa ideia ao contexto da violência contra pessoas trans, é urgente que a sociedade como um todo reconheça sua parcela de responsabilidade. Não basta criminalizar a transfobia; é preciso construir um país onde ser trans não seja uma sentença de morte.
Para além das estatísticas: memória e luta
A memória de Pâmela Myrela não pode se limitar à tragédia de sua morte. Ela deve se tornar símbolo de uma luta maior, por um Brasil onde a diversidade seja celebrada, e não motivo de ódio. Cada vida perdida é um grito por justiça que não pode ser ignorado.
Como disse a ativista Marsha P. Johnson, ícone do movimento trans nos Estados Unidos: “ninguém será livre até que todas as pessoas sejam livres”. A história de Pâmela e de tantas outras vítimas nos lembra que essa liberdade ainda é um sonho distante – mas um sonho pelo qual vale a pena lutar.
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LUIZA CAMARGO
É jornalista e professora. Atua em São Paulo.
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