29/05/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Ascenção e queda da prefeita borralheira

Publicado em 09/10/2015 12:00 - Rodrigo Amém

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Era uma vez uma bela jovem nascida e criada num vilarejo no interior do Maranhão. Uma cidadezinha tão miserável que as escolas públicas não davam nem educação nem merenda de qualidade. Assim, a bela jovem só pode cursar o ensino fundamental e teve que ajudar a mãe a vender leite para sobreviver.

Um belo dia, um rico fazendeiro sergipano passou pela casa da leiteira e se encantou com o sorriso da bela jovem. Foi amor à primeira vista. Tão grande que o fazendeiro decidiu que seria prefeito da cidadezinha miserável onde a bela jovem morava.

Acontece que o rico fazendeiro era conhecido por comprar votos, uma atividade que o MPE costuma achar pouco nobre, e teve sua candidatura impugnada. Como um passe de mágica, a bela jovem passou de filha da leiteira a candidata a prefeita. Não se sabe direito se foi sua plataforma de governo, seu belo sorriso ou o poderio econômico do namorado, mas ela foi eleita. A bela jovem agora era prefeita do vilarejo miserável.

Não é a antiga briga de velhos cínicos pelo poder. É a história da miséria ignorante e deslumbrada, tratando o público como privado e descobrindo a democracia como negócio.

Ela achou que seria feliz para sempre. Enquanto o namorado cuidava da papelada da prefeitura, ela nadava de braçadas no rio de dinheiro que passava por sua vida. Pela primeira vez, ela pode experimentar a vida de artista de novela. E novela da Globo! Roupas caras, joias, camarotes de axé music. Tudo era um conto de fadas para a bela jovem prefeita e a verba da merenda escolar das escolas miseráveis era o irônico pó de pirlimpimpim que transformava seu sonho adolescente em realidade de política. Mas não bastava ser linda e rica. Ela tinha que exibir tanta felicidade e usou a internet para isso.

Os cidadãos do vilarejo miserável se indignaram e exigiram que as autoridades tomassem providências. A imprensa nacional voltou seus olhos para o conto de fadas maranhense. Acuada, a bela jovem fugiu. Não deixou sapatinho de cristal, mas ganhou uma tornozeleira eletrônica.

Essa história me fascina, porque exemplifica a essência da falta de maturidade ética do brasileiro. Não é a antiga briga de velhos cínicos pelo poder. É a história da miséria ignorante e deslumbrada, tratando o público como privado e descobrindo a democracia como negócio. E a essência da corruptibilidade brasileira. A prova de que "A ocasião faz o ladrão" devia substituir "Ordem e progresso" na bandeira nacional.

Dada a oportunidade, prevaricaremos. Seja a fila de cinema, seja a verba da merenda escolar. E a diferença entre o espancamento amarrado no poste e a caixinha eletrônica amarrada na canela não o tamanho do furto. Continua sendo a cor da pele.  

Leia outros artigos da coluna: Meia Pala Bas

Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *