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Povos da Terra
Operações do governo e entidades reduziram garimpo em 91% e mortes por desnutrição em 68%, mas desafios de logística e vigilância persistem
Publicado em 23/01/2025 2:20 - Ava Rory
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A recuperação da Terra Indígena Yanomami, após anos de negligência e crise humanitária, reflete esforços coordenados entre governo, forças de segurança e organizações civis. Embora avanços significativos tenham sido alcançados, o caminho para uma proteção duradoura segue repleto de desafios.
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Nos últimos dois anos, uma mobilização sem precedentes marcou a luta contra o garimpo ilegal e a insegurança alimentar na Terra Indígena Yanomami, localizada entre os estados do Amazonas e Roraima. A maior reserva indígena do Brasil, com cerca de 10 milhões de hectares e 33 mil habitantes distribuídos em 376 comunidades, tem sido palco de batalhas diárias para preservar suas riquezas naturais e garantir a dignidade de seus povos.
Segundo dados do governo federal, as operações de combate ao garimpo reduziram 91% das atividades de mineração ilegal e diminuíram a abertura de novos espaços de exploração em 95,76%. Apesar desses números expressivos, o impacto ambiental das décadas de invasão ainda cobra seu preço. Rios contaminados por mercúrio, desmatamento e a escassez de recursos naturais impuseram uma crise de saúde e segurança às comunidades indígenas, agora parcialmente controlada.
O presidente do Conselho Distrital de Saúde Yanomami e Ye’Kwana, Junior Yanomami, destaca que, embora o fluxo de invasores tenha diminuído, “ainda existem pontos de entrada que precisam de atenção.”
Estratégias intensivas para controle
Em março de 2023, o governo federal estabeleceu a Casa de Governo como base de coordenação das operações de proteção. A instalação articulou forças policiais e militares, responsáveis por mais de 3 mil operações em 2024. Tais ações resultaram na apreensão de 30 quilos de ouro, destruição de 50 pistas de pouso clandestinas e desmonte de 410 acampamentos ilegais.
Para o chefe da Casa de Governo, Nilton Tubino, a estratégia de atuação ininterrupta busca inviabilizar financeiramente o garimpo. “Fica tão caro que os responsáveis dizem: ‘Aqui não compensa mais trabalhar'”, explicou Tubino ao programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.
Além disso, novas tecnologias fortaleceram a fiscalização. Um radar instalado na terra indígena tornou impossível ignorar voos de baixa altitude, frequentemente usados para transporte de equipamentos e suprimentos para o garimpo.
Impactos na saúde e segurança alimentar
A crise humanitária que assolou a região também evidenciou o peso das atividades ilegais na saúde dos Yanomami. Entre 2023 e 2024, ações emergenciais, como a distribuição de 114 mil cestas básicas e o investimento de R$ 1,7 bilhão em recursos extraordinários, ajudaram a reduzir os óbitos por desnutrição em 68% e as mortes por infecções respiratórias em 53%.
Com o aprimoramento da vigilância nutricional e diagnósticos, as equipes de saúde intensificaram a busca ativa de pacientes, especialmente crianças menores de cinco anos. Esse esforço resultou em um aumento de 73% nos exames de malária realizados no primeiro semestre de 2024, permitindo tratamento imediato e reduzindo as mortes por essa doença em 35%.
“A água está ficando mais limpa, mas as consequências do garimpo ainda exigem um trabalho permanente,” afirmou a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. Para ela, o objetivo até o fim do governo é entregar o território “100% livre de invasores.”
Desafios persistentes
Apesar dos avanços, a coordenadora do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Gilmara Fernandes, alerta que os recursos financeiros e logísticos das atividades criminosas seguem sendo um grande obstáculo. “Houve avanços, mas os desafios permanecem,” enfatizou.
Além disso, o combate ao garimpo não é apenas uma questão local, mas também envolve enfrentar redes criminosas nacionais e internacionais que financiam essas atividades. A presença contínua do Estado e de organizações civis será crucial para evitar que os invasores retornem.
Um futuro em reconstrução
A Terra Yanomami é um símbolo da resistência indígena e da luta por justiça ambiental no Brasil. Embora os números recentes mostrem que é possível conter o avanço do garimpo e recuperar parte da saúde das comunidades, os desafios estruturais e a vulnerabilidade da região exigem uma vigilância constante.
Os resultados, até agora, apontam para um modelo de ação que pode servir de referência no combate a outras formas de exploração ilegal em terras indígenas. No entanto, garantir que os Yanomami vivam com dignidade e segurança dependerá de esforços duradouros que contemplem a preservação de suas tradições e a proteção de seus direitos.
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AVA RORY
É sociólogo e indígena da etnia Guarani e Kaiowá.
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