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Povos da Terra

Lula e os povos indígenas: avanços, retrocessos e desafios

Após retomada de demarcações, governo enfrenta críticas por omissões e cenário de violência crescente

Publicado em 13/01/2025 10:31 - Semana On

Divulgação Ricardo Stuckert

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A primeira metade do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) marcou a retomada das demarcações de terras indígenas e algumas medidas concretas contra crimes ambientais. Contudo, lideranças indígenas e organizações de direitos humanos apontam para um misto de avanços e frustrações. Embora o diálogo com os povos originários tenha sido reaberto após o negacionismo ambiental do governo Bolsonaro, a continuidade da violência e a falta de uma atuação mais incisiva evidenciam desafios estruturais e políticos que o Executivo ainda precisa enfrentar.

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Desde o início de 2023, o governo regularizou 13 terras indígenas, encerrando uma paralisação que marcou a gestão anterior. No entanto, o número é considerado insuficiente por lideranças e especialistas. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as áreas regularizadas já estavam em estágio avançado de tramitação e não exigiram enfrentamentos burocráticos ou políticos significativos. Assim, Lula cumpriu o mínimo esperado, mas sem expandir as fronteiras da proteção territorial indígena.

Enquanto isso, ações pontuais contra invasores em territórios como a Terra Yanomami e outras áreas críticas resultaram em melhorias localizadas, mas não sistemáticas. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), regiões como a Terra Indígena Urubu Branco, em Mato Grosso, continuam invadidas por grileiros e madeireiros, sem qualquer intervenção estatal até o momento. A violência contra povos indígenas reflete a falta de ações preventivas: em 2023, foram registrados 208 assassinatos, um aumento de 15% em relação ao ano anterior, segundo relatório do Cimi.

O embate no Congresso e a lei do Marco Temporal

Outro ponto de tensão é a resistência no Congresso Nacional, onde predomina uma bancada fortemente vinculada ao agronegócio. A aprovação da lei do marco temporal, no final de 2023, representou uma derrota histórica para os povos indígenas.

A lei condiciona o direito às terras tradicionais ao fato de estarem ocupadas por indígenas na data da promulgação da Constituição de 1988. Embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha declarado a tese inconstitucional, o Legislativo aprovou o texto e trabalha para consolidar essa interpretação via Proposta de Emenda à Constituição (PEC), o que gerou impasses jurídicos e políticos.

“A insegurança jurídica criada pela insistência no marco temporal não apenas atrasa as demarcações, mas também encoraja novos conflitos”, afirmou Ilson Okaju, da Comissão Guarani Yvyrupa, ao denunciar ataques armados sofridos pelas comunidades Avá-Guarani no Paraná.

As contradições da política indigenista

A criação do Ministério dos Povos Indígenas, sob liderança de Sonia Guajajara (PSOL), foi celebrada como um marco histórico. No entanto, as limitações impostas ao ministério, especialmente após o Congresso transferir a competência de declarar terras indígenas para o Ministério da Justiça, simbolizam os limites da agenda progressista no governo Lula. “O diálogo existe, mas como isso tem se traduzido em melhorias concretas para os povos indígenas?”, questionou Luis Ventura, secretário-executivo do Cimi.

Outro ponto controverso foi a decisão do governo de indenizar fazendeiros em áreas homologadas, como ocorreu no território Ñande Ru Marangatu, em Mato Grosso do Sul. O acordo, mediado pelo STF, incluiu pagamentos pelas terras, contrariando a legislação vigente e gerando críticas de entidades indígenas. “Isso cria um precedente perigoso e incentiva novos conflitos fundiários”, alertou Ventura.

Raízes do conflito e caminhos possíveis

Os embates em torno da demarcação de terras indígenas revelam um entrelaçamento de forças históricas, políticas e econômicas. Desde a Constituição de 1988, o Brasil reconheceu formalmente os direitos originários, mas a resistência de setores vinculados ao agronegócio e à exploração de recursos naturais tem atrasado a efetivação dessas garantias. A falta de estruturação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a omissão de forças estaduais também perpetuam a crise.

De acordo com dados da Funai, 302 territórios indígenas aguardam regularização no Brasil, sendo que 120 já iniciaram o trâmite de demarcação. A situação é ainda mais delicada em áreas ocupadas por povos isolados, que enfrentam invasões frequentes sem a proteção adequada.

O futuro da luta

Enquanto o governo Lula celebra os avanços no diálogo e na retomada das demarcações, o cenário exige mais determinação política. Além de garantir a segurança nos territórios já reconhecidos, será necessário enfrentar os interesses de uma bancada ruralista fortalecida, que continua a propor medidas legislativas para esvaziar os direitos indígenas.

Os próximos anos serão cruciais. Em um contexto de ampliação da violência e deterioração das condições de vida das comunidades indígenas, o governo precisa ir além de respostas reativas. Apenas com uma política ampla, estruturada e firme será possível garantir a proteção efetiva dos direitos dos povos originários, que não apenas têm uma dívida histórica a ser reparada, mas desempenham um papel essencial na preservação ambiental e cultural do Brasil.

 AVA RORY

É sociólogo e indígena da etnia Guarani e Kaiowá.

Guarani Kaiowá resistem a ataques com tiros e agrotóxicos por retomada de terras em MS

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