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Agromundo

Agro redesenha logística e amplia uso do mar Vermelho diante de bloqueio em Hormuz

Irã ameaça interromper rotas marítimas vitais após bloqueio de Trump

Publicado em 15/04/2026 3:30 - Sérgio Pedra

Divulgação

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O fechamento do estreito de Hormuz, em meio à escalada do conflito entre Irã e Estados Unidos, provocou uma reconfiguração relevante nas rotas de exportação do agronegócio brasileiro. Desde o fim de fevereiro, empresas do setor passaram a redirecionar uma parcela significativa de seus embarques para o mar Vermelho, transformando uma rota historicamente secundária em eixo central para o abastecimento de mercados do Oriente Médio.

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A mudança não decorre de retração na demanda — ao contrário. Países da região, fortemente dependentes de importações de alimentos, intensificaram compras por motivos de segurança alimentar. O entrave está na logística: o bloqueio de um dos principais corredores marítimos globais obrigou exportadores e importadores a reorganizar fluxos, impactando prazos, custos e volumes efetivamente entregues.

Os efeitos já aparecem nas estatísticas. Em março, as exportações brasileiras de carne bovina para países próximos ao conflito recuaram de 22 mil para 18 mil toneladas, uma queda superior a 20% em relação a fevereiro. No segmento de carne de frango, a retração foi de 18,5% no mesmo período. No caso da proteína bovina, o impacto atinge mercados como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Turquia; no frango, o alcance é ainda mais amplo, envolvendo 13 países da região.

Apesar da redução pontual nos embarques, representantes do setor rejeitam a ideia de enfraquecimento do mercado. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a dificuldade está concentrada na operação logística, não na demanda. A entidade afirma que cerca de 80% do volume exportado continua sendo escoado por rotas alternativas, com destaque para o mar Vermelho, que passou a desempenhar papel estratégico na redistribuição de cargas.

Na prática, a reconfiguração implica mudanças no destino inicial das embarcações. Em vez de seguir diretamente para portos do Golfo Pérsico, os navios agora atracam majoritariamente na costa oeste da Arábia Saudita, em estruturas como Jeddah, Yanbu e King Abdullah. A partir desses pontos, a distribuição ocorre por via terrestre ou por embarcações menores, que completam o trajeto até os países de destino.

A adaptação logística ganhou respaldo institucional e empresarial. Autoridades sauditas flexibilizaram regras para entrada de produtos via mar Vermelho, enquanto grandes armadores internacionais — como Maersk, MSC, CMA CGM e Hapag-Lloyd — ampliaram operações na região. Em março, a inclusão de cinco novas rotas acrescentou cerca de 64 mil toneladas à capacidade logística disponível.

Mesmo com a reorganização, o custo do transporte disparou. O frete de um contêiner refrigerado, essencial para carnes, saltou de cerca de US$ 3 mil para mais de US$ 7 mil, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Além do encarecimento, o desvio de rotas para evitar áreas de risco prolongou o tempo de trânsito das cargas, elevando a complexidade das operações.

Diante desse cenário, exportadores buscam negociar com armadores para mitigar os impactos, embora reconheçam limitações nesse processo. Por ora, parte significativa dos custos adicionais vem sendo absorvida pelos importadores, interessados em garantir o fornecimento contínuo de alimentos e evitar interrupções na cadeia de abastecimento.

O contexto mais amplo reforça a relevância do agronegócio nas relações comerciais com países árabes. Em 2025, o Brasil exportou US$ 21,34 bilhões para a região, dos quais 72% vieram da agricultura e pecuária. Ainda que o valor represente queda de 9,81% em relação ao ano anterior, o desempenho confirma a centralidade do setor na pauta exportadora e evidencia sua vulnerabilidade a choques geopolíticos e logísticos.

A atual crise, portanto, não apenas altera trajetos marítimos, mas expõe a dependência de corredores estratégicos e a necessidade de diversificação logística. Para o agronegócio brasileiro, a capacidade de adaptação tem garantido a continuidade das exportações — ainda que a um custo mais elevado e sob maior incerteza.

Irã ameaça interromper rotas marítimas vitais

Em resposta ao bloqueio do Estreito de Hormuz pelos Estados Unidos, autoridades militares iranianas passaram a ameaçar não apenas a navegação na área diretamente afetada, mas também em outros corredores marítimos estratégicos, incluindo o Golfo Pérsico, o Mar de Omã e, de forma mais controversa, o Mar Vermelho.

A declaração foi feita por Ali Abdollahi, comandante das Forças Armadas iranianas, que classificou a restrição imposta por Washington como uma violação do cessar-fogo e um fator de insegurança para embarcações comerciais e petroleiros do país. Segundo ele, Teerã não permitirá operações de exportação ou importação nessas rotas enquanto persistirem as limitações impostas ao tráfego iraniano.

A inclusão do Mar Vermelho na retórica iraniana chama atenção por extrapolar sua área de influência territorial direta. Ainda assim, o corredor é peça-chave na logística global: conecta o Oceano Índico ao Mediterrâneo por meio do Canal de Suez, no Egito, funcionando como alternativa relevante para fluxos comerciais que evitam o Golfo Pérsico.

Apesar da retórica endurecida, sinais de continuidade parcial do tráfego marítimo permanecem. Dois petroleiros com bandeiras de Malta e Curaçao cruzaram o Estreito de Hormuz, ainda que sem carga, em direção ao Iraque, indicando que o bloqueio não se traduz, ao menos por ora, em interrupção total da circulação.

O bloqueio norte-americano foi anunciado após o fracasso de negociações diplomáticas realizadas em Islamabad. Na sequência, o Comando Central dos Estados Unidos detalhou as regras operacionais: embarcações que desrespeitarem as restrições poderão ser interceptadas, desviadas ou apreendidas. Embora o trânsito neutro siga permitido em rotas desvinculadas do Irã, navios estão sujeitos a inspeções, inclusive para verificação de contrabando.

A medida atinge diretamente portos e áreas costeiras iranianas e, segundo Washington, será aplicada de forma indiscriminada a todas as embarcações que operem nesses destinos. Cargas humanitárias — como alimentos e medicamentos — permanecem autorizadas, mas também sob regime de fiscalização.

No centro da crise está o valor estratégico do Estreito de Hormuz. Antes do agravamento do conflito, cerca de 20% do comércio marítimo global de petróleo passava por essa faixa estreita que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. A relevância vai além do petróleo bruto, alcançando derivados e fertilizantes, o que amplia o potencial de impacto sobre cadeias produtivas e preços internacionais.

Do ponto de vista jurídico, o impasse evidencia tensões entre práticas militares e normas internacionais. O estreito é classificado como via de navegação internacional pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que assegura o direito de passagem em trânsito — contínua e sem necessidade de autorização prévia. O tratado proíbe a suspensão desse direito por países costeiros e impõe limites às ações de navios durante a travessia.

Embora o Irã não tenha ratificado formalmente a convenção, especialistas apontam que as regras relativas a estreitos internacionais já integram o direito consuetudinário, o que as torna vinculantes na prática. Decisões anteriores da Corte Internacional de Justiça reforçam essa interpretação.

Nesse contexto, a possibilidade de bloqueios amplos levanta questionamentos sobre legalidade e proporcionalidade. Medidas desse tipo tendem a afetar não apenas os países diretamente envolvidos no conflito, mas também terceiros dependentes dessas rotas, ampliando o alcance econômico da crise e tensionando os limites da legítima defesa previstos na Carta das Nações Unidas.

A combinação de ações militares, disputas jurídicas e impactos econômicos projeta um cenário de elevada incerteza. Mais do que um confronto regional, a crise em torno de Hormuz evidencia a fragilidade de pontos críticos da infraestrutura global de comércio — onde decisões estratégicas rapidamente se convertem em efeitos sistêmicos.

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SÉRGIO PEDRA

É agrônomo e pequeno produtor rural em Mato Grosso.

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Sergio Pedra


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