23/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

Adivinha quem é o Trump brasileiro?

Publicado em 11/03/2016 12:00 - Rodrigo Amém

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Você já sabe quem será eleito presidente do Brasil nas próximas eleições? Eu sei, tá difícil saber quem vai estar na presidência semana que vem. Adivinhar o vencedor da eleição de 2018 (ou mesmo se haverá eleição!) é exercício para futurólogos e outros aventureiros menos preocupados com a exatidão de suas profecias.

Nesses momentos de incerteza, podemos sempre contar com os Estados Unidos como referência. Assim como iPhones e filmes 3D, as tendências políticas dos gringos costumam sempre cascatear por aqui com algum atraso. Lembra quando a gente achava engraçado os americanos levando a sério essa ideia de bipartidarismo? Então. Assim como fizemos de Roberto e Erasmo nossos John e Paul do iê-iê-iê, também traduzimos a escaramuça Democratas x Republicanos para Petistas x Tucanos. Rolou um atraso de uns 40 anos, mas finalmente adaptamos o conceito para os trópicos. Chacrinha já dizia que tudo é um remix (ou algo assim).

É interessante observar as tendências nas disputas eleitorais americanas para antever o que nossos marqueteiros baianos transformarão em muamba ideológica. Não deixe seu patriotismo te iludir: uma parcela constrangedora do discurso das nossas excelências vem na mala desses profissionais de marketing, devidamente adaptadas para nossa audiência. E a novidade quente na corrida presidencial americana é um cara chamado Donald Trump.

Assim como fizemos de Roberto e Erasmo nossos John e Paul do iê-iê-iê, também traduzimos a escaramuça Democratas x Republicanos para Petistas x Tucanos. É interessante observar as tendências nas disputas eleitorais americanas para antever o que nossos marqueteiros baianos transformarão em muamba ideológica.

Você já deve ter ouvido falar: É uma espécie de Roberto Justus de peruca. Assim como o Justus, aliás, ele apresentou O Aprendiz: uma gincana que promete emprego para executivos. Trump é tudo que uma celebridade de reality show tem que ser: fanfarrão, polêmico, sem filtro. Ele também é o herdeiro de uma fortuna considerável. E um empreendedor que já decretou falência quatro vezes. E que já naufragou todo tipo de empresa, de linhas aéreas a revistas de moda. Dentre os muitos (mal) feitos, ele já pediu concordata de um cassino (!).Não bastasse ser o garoto-propaganda de negócios falidos, ele também é descaradamente racista. Sua plataforma de governo inclui propostas como construir um muro separando os EUA do México para "evitar que os bandidos e estupradores possam entrar". Outra proposta popular de Trump quer proibir o ingresso de muçulmanos no país para "combater o terrorismo".

Esse Tiririca das Trevas está ganhando popularidade e apoio dos republicanos e parece impossível impedir que ele seja o candidato conservador na disputa contra Hillary Clinton. Não importa o quanto os adversários apontem suas falhas de raciocínio e currículo. O público americano parece enfeitiçado por Trump. Seus apoiadores repetem coisas como "ele não é um político de carreira", como se experiência fosse um problema. "Ele fala o que pensa", como se diplomacia e estadismo fossem sinal de fraqueza. "Ele já é rico, não precisa do dinheiro dos outros", como se necessidade fosse a única explicação para a corrupção. E "ele não é politicamente correto", como se política fosse a única área da expressão humana onde ser incorreto é o correto.

Trump saiu da posição de piada para franco favorito impulsionado pelo ressentimento de um país com o jogo do poder e a pluralidade de vozes do mundo moderno. Num mundo em que todos clamam por direitos iguais e respeito, a América profunda se ressente de não poder expressar seus preconceitos livremente. Chamam de opressão o fato de não poderem mais oprimir. Trump representa a voz das pessoas frustradas com a diversidade, com a complexidade das relações contemporâneas. As pessoas que sonham com uma América dos anos 50 onde homossexualidade era uma condição clínica, cor da pele era determinante de salário e mulher era uma função doméstica. Sua candidatura é uma reação às mudanças que a sociedade impõe a quem não quer mudar. Trump é, literalmente, o candidato reacionário.

Republicanos moderados e democratas estão cortando um dobrado para impedir que Donald chegue à Casa Branca. Estou na torcida. Afinal, a economia do mundo (para não falar da segurança) está intimamente atrelada aos EUA.

Enquanto isso, de volta ao Brasil, Dilma se arrasta tentando chegar ao final de seu governo. E para a próxima eleição (se houver), pelo menos um candidato já se prepara para importar o discurso espalhafatoso e "politicamente incorreto" de Trump. Uma dica: não é o Justus.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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