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Ágora Digital

Aceitem a hipocrisia

“Defesa” da democracia vinda de Bolsonaro é atestado de loucura

Publicado em 11/11/2024 5:16 - Victor Barone

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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Jair Bolsonaro assina nesta segunda-feira (11) um artigo na Folha de S.Paulo com um apelo no título: “Aceitem a democracia”. Em tempos normais, este poderia ser um chamado legítimo aos valores democráticos. No entanto, em tempos de “bolsonarismo”, é uma ironia carregada de hipocrisia. O ex-presidente, que por anos contestou as instituições, defendeu a ditadura e a tortura, e disseminou dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral, agora se apresenta como defensor do sistema que tentou minar. E a pergunta inevitável surge: quem ele pretende convencer?

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A contradição se torna mais evidente na apropriação de uma retórica supostamente democrática, que, ao se aprofundar, revela um viés totalitário. Em sua campanha e em seu governo, Bolsonaro e seus apoiadores reproduziram táticas comuns aos regimes autoritários da extrema direita: dividir o país em uma guerra cultural onde “inimigos internos” — jornalistas, ativistas e minorias — eram vistos como ameaças à “ordem”. Esta retórica ecoa, de forma preocupante, regimes históricos de controle social, como o nazismo. Sim, o nazismo.

Os paralelos entre o bolsonarismo e o fascismo do século XX se fortalecem quando observamos o uso sistemático da desinformação para confundir o público e manter o controle sobre a narrativa. Desde o início da pandemia de COVID-19, por exemplo, Bolsonaro insistiu em minimizar a gravidade da crise e em disseminar falsas curas, colocando em risco milhares de vidas e desrespeitando as recomendações científicas.  Através de táticas de intimidação e desinformação, construiu uma realidade paralela, pautada na suposta “luta do bem contra o mal” – uma retórica que ecoa perigosamente o populismo autoritário que marcou o nazismo e o fascismo, ambos construídos sob a alegação de “purificação moral” da sociedade. E esta tem sido a sua prática constante no jogo político.

Timothy Snyder, em On Tyranny, alerta que “as democracias morrem quando a maioria começa a ver uma parte de seus próprios cidadãos como uma ameaça existencial”. É o que tenta Bolsonaro, ao construir uma realidade paralela na qual o país estaria sob ataque do “comunismo”, e onde a resistência da “direita verdadeira” (a extrema-direita) seria a única proteção contra o caos e os “comedoers de criancinhas” que pululam sua imaginação doentia. Para ele, a palavra “liberdade” se tornou um artifício retórico para promover uma visão limitada e intolerante de mundo, onde “família e religião” são pontos de partida para discriminar aqueles que professam outras organizações familiares, credos e visões de mundo

Essa versão bolsonarista de democracia é especialmente perigosa em um país ainda jovem e marcado por tantos períodos autoritários. Ao invocar o “povo” como um bloco homogêneo, Bolsonaro ignora a diversidade do Brasil e, com ela, o pluralismo necessário à construção de uma democracia saudável. Seu apelo para “aceitar a democracia” parece exigir que aceitemos sua versão distorcida dela: uma democracia que serve ao poder pessoal e que marginaliza qualquer voz crítica.

A contradição não poderia ser mais clara: Bolsonaro clama pelo respeito ao sistema democrático enquanto o trata como um obstáculo. George Orwell, em Politics and the English Language, escreveu que “a linguagem política é desenhada para fazer mentiras soarem como verdades”. Ao se apresentar como defensor da democracia, Bolsonaro tenta fazer exatamenter isso ao reescrever sua história, mascarando suas intenções e procurando reabilitar-se aos olhos do mundo.

Mas defender a democracia é, acima de tudo, recordar quem por anos tentou destruí-la por dentro.

Que aceitemos, sim, a democracia, mas uma democracia verdadeira, onde instituições são respeitadas, a diversidade é valorizada, e o poder é limitado pelas leis, não pelos caprichos de um líder. É fundamental reconhecermos o autoritarismo disfarçado de retórica democrática — e protegermos a democracia daqueles que a veem como um mero trampolim para o poder pessoal.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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